Céu de vaga-lumes

Talvez tenha sido aquela a última vez que o pai nos falou da plataforma e do trem. Em todo caso, a história nos acompanharia pela vida toda.
Por Gilberto Motta, de Florianópolis

Teimou em contá-la na reta final, quando, em cadeira de rodas, seguiu para a sessão de quimioterapia que lhe daria forças para a viagem decisiva.

Tempos depois, encontramos entre os guardados dele umas anotações do tipo breves notas para aqueles que ainda esperam na plataforma o seu definitivo trem. Estava lá. O caderno era de 1945. A foto do pai, ainda novo, sentado sobre a caixa do violão trajado com boina, colete, paletó e gravata. O local não deixa dúvidas: coreto central do Parque do Jardim da Luz, ao lado da estação de trens que é o portão de entrada da capital de São Paulo para quem chega do interior. Em uma das notas de final de página, a referência sobre aquela história de chegadas e partidas:

Deixei minha terra, querida serra da Mantiqueira, onde a (pomba) rola canta quando o sol levanta naquela fronteira, deixei o regato que desce do mato lavando as pedreiras, lá ficou meu berço, meu pobre ranchinho, à beira do caminho, perto das mangueiras…e hoje aqui distante, lembro a todo instante, meu querido lar; vejo que a saudade veio pra cidade, lá não quis ficar…eu vivo penando mas eu vou cantando só pra disfarçar; e eu tenho fé que, se Deus quiser, eu hei de voltar.

Tempos depois, o pai nos falaria da importância e da força da metáfora que transformaria as nossas vidas. “Eu era jovem, muito jovem e queria sair da fazenda aos pés da serra da Mantiqueira, ganhar a cidade de São Paulo, ser artista de rádio e construir minha família; sabe, filhos, é como se eu soubesse tudo o que viria a acontecer…como se uma força estranha e iluminada me possibilitasse a honra e o dom de poder assinar os versinhos pés-quebrados que faria sempre em homenagem à parceira e aos filhos que um dia teria,  entre a primeira plataforma, o primeiro trem e a plataforma da viagem decisiva”. Nos papéis de circunstâncias do pai – para nós – está eternizada a assinatura que lhe garantiria o sentido de pertencimento, de identidade: Nome: Mário/Motinha. Profissão: Artista de Rádio.

Década de 1940, o mundo em guerra. A mulher, ainda adolescente,  teria de passar à limpo a sua vida de professorinha de cidade do interior. Falada e mal vista, devido ao fim do casamento – que não durou uma semana – com o João da Farmácia, o melhor partido da cidade de Paraguaçu Paulista, interior da Estado de São Paulo. Levando ao lado a pequena mala de papelão e no peito a esperança digna dos jovens atrevidos que se jogam na vida, repassou a sua história até ali à espera do trem. Ela pode sentir todo o peso de uma época de rancores, machismos, intrigas paroquianas e preconceitos contra a mulher. Finalmente, o trem passou para salvá-la. O desafio estava lançado: ser cantora de rádio na cidade de São Paulo, fazendo dupla com o primo Nhô Pai. Décadas depois, encontramos entre seus documentos, envoltos por um plástico e amarrados com um elástico amarelo, sua Carteira de Trabalho. Nela, o seu primeiro contrato de trabalho já assinado com o pseudônimo que a acompanharia -ao lado de nosso pai-  até o adeus sem rancor: Nome: Nair/Nhá Fia. Profissão: Artista de Rádio.

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