Chorar ou sorrir?

“Estás alegre ou estás feliz?” Foi o que o amigo perguntou para o amigo no meio da rua. A resposta foi surpreendente: nem uma coisa nem outra, eu estou é chorando. Como assim chorando se eu te vi às gargalhadas? É isso, amigo, quando eu tenho todos os motivos para chorar, não sei por que me vem um ímpeto de rir. Rio do trágico e do choro do cômico. Nos instantes seguintes, já na mesa do cafezinho, os dois levavam adiante o papo. Começo pensar que trabalhar sério e direito deixou de ser coisa de gente inteligente e respeitada. Os trouxas é que fazem isso. Então se choro, assumo o papel de trouxa. Se rio, assumo o papel de vivo. Quem sou eu? Um trouxa que chora ou um vivo que ri?

Os trouxas são aqueles que pagam 27,5% de imposto de renda. Descubro que alguns caras que conheço nada declaram, nada pagam e novamente tenho ímpetos de chorar pelo tanto que levam do meu suor para nada devolver em troca e novamente rio dessa palhaçada.

Os trouxas são aqueles que olham pra Brasília imaginando que a CPI vai clarear tudo e punir os culpados. Por isso riem. Chorarão quando a pizza acabar e o circo anunciar a próxima atração.

Os trouxas são aqueles que erguem muros, reforçam portões, investem em monitoramento, se prendem voluntariamente dentro de suas fortalezas e riem com a boca cheia de dentes (lembram Raul Seixas?). Chorarão quando souberem que as polícias (civil e militar) não têm como estancar o surto de violência e que no ano que vem estará bem pior.

Os trouxas não satisfeitos com o que já pagam de impostos, chorando ou rindo, pagam novamente a conta para erguer sua inócua fortaleza. Chorarão ou rirão, pouco importa, quando perceberem que nada disso foi eficaz.

O futuro do cidadão trouxa é contribuir sem reclamar. O papel do vivo é escamotear sem gozar. Nenhum dos dois chagará a lugar algum.

E você está alegre ou está feliz?

Ao menos sabe por quê?

Alegria e felicidade não são dádivas caídas dos céus, como alguns desinformados podem pensar, são cultivos sobre os jardins da vida. O trouxa desapontado com a carga levada em seus ombros e o vivo que nada quer levar consigo, não são jardineiros de coisa alguma e não poderão rir nem chorar de coisa alguma por conta de sua omissão diante da gravidade de suas realidades.

As elites brasileiras se encastelam em alguma fortaleza oca e pensam que se o circo pegar fogo estão fora dele. E não estão. Elas estão no andar de cima e o fogo está queimando embaixo. Pra cima não tem saída. Pra baixo não tem descida.

Ou as inteligências brasileiras descem dos tamancos para pegar na unha as tarefas de transformação da equivocada legislação do País ou terão de assistir o que os especialistas em América Latina, nos EUA, chamam de brasilinização. O que seria isso no entender daqueles técnicos?

O sujeito morar num apartamento de luxo ao lado de uma favela e ter de revestir as paredes com chapas de aço para impedir que as balas de fuzis perfurem o corpo de seus familiares (lembram o Rio há dois anos atrás?).

Você está alegre ou está feliz?

Você está rindo ou chorando?

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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