Cidadão Kane x Emile Zola

O poder da mídia é historicamente inegável!
Ela pode ser um instrumento de informação ou desinformação, de libertação ou escravidão, de acordo com os interesses de quem utiliza seus meios.
As verdades, meias-verdades ou mentiras absolutas por ela disseminadas podem derrubar ou perpetuar governos, apaziguar ânimos ou sublevar massas.
Não é à toa que alguns meios de comunicação são taxados de golpistas ou “chapa branca”, mesmo quando se auto-denominam “independentes”.

Consta que, até no âmbito cultural, alguns “figurões” foram constrangidos a contribuir financeiramente, sob ameaça de terem seus “podres” divulgados pela imprensa. Fins que justificam os meios…
Mesmo com suas mazelas – e toda sociedade tem as suas -, não gostaria de viver em um país em que as informações fossem controladas pela classe dominante, fosse ela uma elite capitalista, socialista, fascista ou religiosa.
Não vejo espírito democrático no fechamento de meios de comunicação, por desagradarem ao poder constituído. Tampouco aceito que o poder de mobilizar massas, formar opinião ou criar mitos seja utilizado para deturpar fatos e desestabilizar sociedades.

Mussolini, Stálin e Hitler, além de outros ditadores, mais ou menos conhecidos, além de regimes fundamentalistas fizeram isso, e sabemos o resultado: supressão da liberdade de expressão, perseguição violenta e assassina de qualquer voz discordante.
Também é bom lembrar que esse tipo de liderança frutifica, prolifera e se sustenta especialmente em ambientes de ignorância, desespero ou fanatismo.

Governos totalitários são inaceitáveis, seja qual for a ideologia ou falta de ideologia que os embase, ou o mito que conduza cega ou maliciosamente seus adeptos. O mesmo vale para empresários da mídia que coloquem seus meios à disposição de interesses próprios ou de terceiros: nacionais, internacionais ou multinacionais, derrubando governos, fomentando guerras ou desestabilizando economias de países, por poder ou dinheiro.

É preciso, isto sim, que a sociedade esteja atenta, informada e autônoma para coibir excessos e desmandos de governantes e elites dominantes. Para tanto, a liberdade de imprensa, investigativa e obstinada, exercida com honestidade, responsabilidade e integridade é fundamental!
Obviamente, isso depende – como em tudo, nesse mundo – do ser humano:
Alguns jornalistas fazem qualquer coisa por um “furo” de reportagem, sem checar suas fontes ou se importar com as consequências.

Esse afã e intempestividade já prejudicou muitas pessoas, com falsas denúncias publicadas em manchetes e páginas inteiras, e retratações quase invisíveis, na seção de obituário.
Mas, também há poderosos que aplicam indiscriminadamente o princípio dos “fins que justificam os meios”, tendo Maquiavel, Sun Tzu, Engels ou suas próprias teorias sobre o tema convenientemente utilizadas, perpetrando irregularidades e crimes de toda espécie, sob o manto da imunidade, da impunidade, do corporativismo ou de outras “blindagens” espúrias.

A história comprova que, via de regra, ou alguém “de dentro”, arrependido ou descontente, denuncia, ou a imprensa investigativa traz à tona.
É certo que existem mídias tendenciosas, como existem pessoas, em toda sociedade, que vivem sob suspeição. Também existem assuntos que são considerados de segurança nacional, cuja difusão pode gerar tensões internas ou externas. No entanto, isso não quer dizer que todos os meios de comunicação são tendenciosos; que todos os cidadãos são suspeitos, até que provem o contrário; ou que os interesses de grupos empresariais, políticos, religiosos, esportivos, etc. sejam tratados sigilosamente, como “segredos de estado”.
É verdade que inocentes já foram “condenados” pela mídia, “apenados” por toda vida. Em contrapartida, muitas falcatruas já foram defenestradas.

A verdadeira questão não está no controle da imprensa. Se assim fosse, seria preciso também controlar quem vive a “dar motivos”, o que tem sido pouco efetivo, pois, nessa área, a “fila” anda com um dinamismo assustador, seja pela reciclagem, seja pela “renovação”.
O que é preciso é apurar as denúncias e punir, caso confirmadas, seu alvo; ou, caso infundadas, seu autor. Essa, sim, seria uma ação preventiva!
Esse papel é do Poder Judiciário, que também precisa de um Ministério Público investigativo para ser independente e, efetivamente, justo.

O Brasil não precisa de fazedores de mitos ou de gente que use de qualquer tipo de poder para camuflar ou distorcer a realidade, em benefício próprio.
Mitos, sobretudo os vivos, são extremamente frágeis! Só os pobres de espírito e interesseiros os seguem.
Então, que o Cidadão Kane, do clássico de Orson Welles seja apenas um personagem de ficção, lembrando que ele começou cheio de idealismo, antes de se deixar corromper pelo poder que alcançou. Mas que personagens como escritor francês Emile Zola, figura real que, no final do século XIX usou de sua verve e senso de justiça para lutar pela libertação do militar Alfred Dreyfus, vítima de um processo fraudulento, sejam cada vez mais presentes na mídia.
E que não tenham que pagar com a própria vida ou sanidade, pela defesa intransigente da liberdade de expressão, da justiça… em suma, da democracia!

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