Clube Náutico Riachuelo chega aos 102 anos

Assento-me à frente do computador, olho para tela e a imagem salta como se fosse uma explosão de alegria, júbilo, satisfação, amor.

Remo Riachuelo É o Décio Carvalho Couto, irmão velho de guerra, amigo conquistado por outro amigo-irmão, o Rozendo Vasconcellos Lima, que me ajudou a criar e fazer da A.S. Propague, uma empresa pioneira de grande sucesso na história da propaganda Sul-Brasileira.

Sonho, alucinação, fantasia? Mais do que tudo isso…

– Olha, eu soube que você também gosta muito do Riachuelo, balbucia Décio entre envergonhado e sorridente. Eu soube que você está melhor e eu vim trazer este exemplar do livro de comemoração dos 100 anos do nosso clube. É um trabalho de qualidade com texto e fotos da Denise Becker. É um documento histórico, de um esporte histórico que precisa voltar a ter a importância que já teve no remo de Florianópolis, Santa Catarina, Brasil e América do Sul. No início do livro, nós contamos com a colaboração de jornalistas e admiradores do Riachuelo. Eu até destaquei uns tópicos do que cada um escreveu. Dá uma olhada.
Achei interessante e fui adiantando:
– Bela sugestão. Vou aproveitar na crônica que pretendo fazer sobre a história do Riachuelo. Dito e feito. Seguem a baixo os destaques sugeridos pelo Décio.

Remo – o melhor de todos… de Roberto Alves

As manhãs de domingo tinham um sabor especial na Ilha de Santa Catarina. Guardadas as devidas proporções, eram como parar em frente à televisão para ver Ayrton Senna e Gustavo Kuerten. O Remo e suas competições, rivalidades, bela plástica nas águas límpidas e claras da Baía Sul era certeza de audiência cativa. O rádio anates da televisão era o veículo que sustentava o nosso remo fazendo ecoar pela baía o som notável da emoção. O remo sempre foi nosso melhor e esporte e destaque-se o Clube Náutico Riachuelo cuja história é muito conhecida por suas conquistas e feitos memoráveis. Os coirmãos tinham conotações políticas: Aldo Luz (PSD) e Martinelli (UDN). O Riachuelo era de todos, daí sua simpatia popular.

Público do Veleiros da Ilha à Ilha do Carvão por terra… Era grande o show para os aficionados. Alguns tentavam acompanhar as provas em desabalada carreira. Outros menos afoitos utilizavam o binóculo e suas potentes lentes para o devido acompanhamento do seu clube. O querido Jorge Marques Trilha tentou fazer de mim um remador sob a alegação de que eu gostava do esporte e como tal poderia chegar às águas internacionais. Eu remador? “O Riachuelo lhe fará um homem forte, musculoso, atlético e grande vigor”. Comecei a me interessar mas preferi continuar só gostando do remo, acompanhando-o nas manhãs de domingo e tendo o privilégio de transmiti-lo pelo rádio e televisão.

Rita Maria nossa rua, de Antônio Farias Filho (Naco – Toninho)

Nós do bairro Rita Maria temos uma relação umbilical com o nosso Riachuelo. Hoje eu entendo aquela dedicação que muitos “riachuelinos” (in memória) tinham pelo nosso clube já que morávamos do lado deste e a nossa relação com o remo era cotidiana. A alegria das vitórias e as tristezas das derrotas faziam parte das nossas vidas. Todos os transtornos que aconteciam durante os treinos eram compartilhados pela turma. Parecia que o mundo era restrito à nossa rua, Trapiche do Hoepcke, Ilha do Carvão, Fábrica de Prego e de Gelo, Ponte Hercílio Luz e Praia da Rita Maria.

Minha geração, no início dos anos 60, teve muitos ídolos como Ernesto e Rogério Wahl, Rainoldo Uessler e Ivan Willaim, Alfredo Lino Quadros Filho, Amilton Cordeiro, Seu Ibarra, Seu Orildo, a guarnição de 4 Sem Timoneiro chamada de “Continental” formada com Zeca e Pedroca Matos. Ramon e Baldicero Filomeno e muitos outros nomes que agora me escapam da memória.

O nosso Riachuelo, de Moacir Carqueja

Remo Riachuelo Florianópolis(Ivan Willain, várias vezes presidente, gosta de falar que o Riachuelo se mantém vivo pela teimosia de alguns abnegados. Eu discordo, pois, paixão não é teimosia, é amor incondicional. Apaixonados nem sempre recebem de volta o que amor que entregam).

Cheguei ao clube há dez anos, quando já passava de meio século de vida e fui recebido com o carinho que dispensam a um atleta de ponta me fazendo sentir em casa. Naquele momento vi um clube que tinha seu equipamento desgastado, renascer como uma Fênix. Isso não foi9 fácil. Foi trabalho de capricho, cuidado e entrega, como um pai zela por um filho o faz. Curiosamente, o filho é mais velho que todos os seus genitores.

A crônica que não foi escrita, de Maury Borges

Encravado no maciço da Ilha e debruçado sobre a enseada do Menino Deus, lá está, imponente e solitário o prédio do Imperial Hospital de Caridade, testemunha muda da origem da prática do nosso remo, hoje centenário. Aos pés daquele monumento histórico, centenas de episódios aconteceram, porém nem todos foram, registrados. Um daqueles esquecidos, o leitor vai conhecer agora.

Em dia e mês esquecidos pela memória da década de 20, naquelas águas espelhadas da baía sul, Riachuelo, Martinelli e Aldo Luz, encontravam-se perfilados para mais um páreo do programa festivo de fim de ano. A festa náutica, era assunto único na cidade. Nos galpões a “paquera” andava solta, entre os remadores e a juventude bem vestida… Os olhares se cruzavam e o ambiente tornava-se atrativo para os dois lados. Talvez por isso a vinculação de tantos atletas inscritos nos clubes.

Contudo, chegou o dia em que os dirigentes do Riachuelo resolveram promover uma “faxina”. Só permaneceriam, no clube, aqueles atletas de “gabarito técnico reconhecido”. Os demais, permaneceriam no clube, porém sem direito a inscrição nos programas das futuras regatas que seriam desdobradas no fim do ano vindouro. O descontentamento entre os jovens foi. Cinco deles, profundamente magoados, não deslumbravam outro horizonte para a concretização de seus desejos. Ali mesmo, no galpão do clube, no calor dos debates, os cinco, resolveram fazer um juramento. Formar uma guarnição para mostrar aos dirigentes que poderiam ser úteis ao clube. O juramento foi feito e firmado entre eles.

Histórico do Clube Náutico Riachuelo, de Ivan Willaim

A prática do remo no Estado de Santa Catarina iniciou-se no ano de 1861, quando pequenos barcos faziam o transporte de cartas e de pessoas do Continente para a Ilha de Santa Catarina as quais acabaram por ser influenciadas pelas atividades desportivas de alunos da Escola de Aprendizes de Marinheiros. A primeira competição ocorreu em 17 de novembro de 1861, com a programação de cinco páreos de escaleres e um de baleeira.
O momento estava pedindo que houvesse uma organização no sentido da criação de sociedades recreativas em Florianópolis que cultivassem o salutar esporte do remo. Coube então ao desportista Sr. José Gil a iniciativa da fundação de um Centro Náutico em Santa Catarina.
No início a idéia não foi acolhida como era esperado. A falta de colaboração dos poderes públicos e o pouco interesse da mocidade florianopolitana pelo remo, tirou um pouco do entusiasmo do desportista. Entretanto, em março de 1915 o Sr. José Pedro Gil, acompanhado pelos senhores Álvaro Schmidt Caldeira e Osvaldo Leon Sales conseguiram despertar o interesse de outros desportistas para o seu projeto.
O Capitão de Fragata Samuel Pinheiro Guimarães no comando da Escola de Aprendizes de Marinheiros e o Senhor Artur Lopes Caiado, Comandante do navio ANA foram outros que se manifestaram favoráveis à idéias dos Centro Náutico.

Maneira de ver de Walter Benjamim

“Um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo que veio antes e depois”.

Sobre as ondas do mar, de Antunes Severo

Retorno para finalizar o relato de gratidão que tenho pelo carinho do Décio Carvalho Couto, que me fez lembrar tantas coisas boas da vida de um radialista que chegou aqui em 1956, de mãos abanando e que depois de decorridos exatos 60 nos tem o privilégio de contar com tantos amigos nesta terra abençoada por Deus.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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