Cobertor enganador

Na década de 1940, na pequena cidade de Guaratuba, poucas pessoas ouviam rádio. Os privilegiados eram os que possuíam um receptor alimentado por bateria de automóvel e estes eram poucos.
Dia de jogo de futebol o dono do rádio recebia a visita de uma numerosa platéia que ouvia com atenção a narração do futebol misturada com imensa chiadeira que saia do receptor. Não havia, portanto, nenhum veículo para a promoção do comércio local, que era constituído por pequenos armazéns que atendiam a população local.

Mas, nem por isso, alguns comerciantes ficavam sentados esperando freguês. Alguns deles mostraram criatividade na hora de conquistar  clientes,  mesmo que para isso utilizassem alguns truques fora dos padrões da boa ética comercial. Dois comerciantes, um judeu e um árabe, disputavam a maioria dos fregueses da cidade.

De um lado da rua, seu Tobias, um judeu alto, magro, olhar de garoupa, um pouco estrábico, com um olho no caixa e outro no cliente. De outro lado, seu Máximo,  falando com forte sotaque e misturando um pouco de árabe com a língua de Camões. Era um “batricio” risonho,  e um craque na arte de fazer amigos. Não recusava convite para ser padrinho de alguém. Foi um grande colecionador de compadres.

Certa ocasião, seu Máximo começou a vender uns cobertores de algodão, pequenos e muito finos, apelidados de “tomara que amanheça”.  No inicio as vendas foram muito bem. No decorrer de algum tempo, Máximo observou que seus antigos fregueses estavam comprando no concorrente. Chamou de lado um velho cliente, daqueles que compram “no caderno” para pagar quando puder,  para saber a razão da preferência pelo comerciante vizinho.

-Por que você comprou no Tobias um cobertor que estou vendendo por preço bem baixo?

-Sabe, seu Maximo, o cobertor do Tobias sai mais em conta.

Maximo voltou a sua loja para verificar o que estava acontecendo e acabou descobrindo o truque do concorrente. Tobias cortou  vinte centímetros num cobertor e toda vez que alguém chegava para comprar ele usava um argumento convincente.

-Veja, este é o cobertor que o Máximo vende, – dizia mostrando o cobertor “preparado” -, e  este, maior e do mesmo preço, é o que eu vendo.

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