Coisas da tradição campeira – 1

Cá, no sul, herdamos muitos costumes legados por velhos tradicionalistas pampeiros (do extremo sul da América) naturais da também chamada, geograficamente, de “depressão gaúcha”. Essa imensidade de terra, praticamente sem acentuados acidentes geográficos, se estende desde a cidade de Santa Maria (da Boca do Monte, como era chamada, por terminar em seu território a Serra Geral – onde está fincado na praça principal o marco central do Rio Grande do Sul), expandindo-se pelo Uruguai e Argentina. (Audio: Canto Alegretense de Bagre e Nico Fagundes. Canta Dante Ramon Ledesma).

Toda essa peculiar região é chamada simplesmente, pampa. Pampa dos gaudérios* de antanho, dos xirus, que compuseram ou descendem dos primórdios da presença humana por aqueles pagos.

Com o rolar dos anos muitas etnias foram se somando, como habitantes do pampa, sem jamais diversificar sua raiz pampeira: portugueses, italianos, alemães, judeus, árabes, poloneses e outras nacionalidades d’alem mar.

Nos costumes há uma composição de vestimenta e adereços em seu traje, que, por aqui se conhece como “pilcha”, com presença obrigatória do “sombrero” (chapéu grande, com barbicacho que ultrapassa das laterais da copa, passando por baixo do “cuello” (pescoço), este enfeitado por um lenço vermelho atado na parte da frente, indo encontrar o lado inverso desse abrigo da cabeça), camisa de punho, quase sempre de cores vivas; Um casaco ou uma jaqueta de couro, o cinturão de grande e vistosa fivela: na parte lateral, a cartucheira (coldre); na traseira a guaiaca das “pelegas” (cédulas de dinheiro); à esquerda uma guaiaca menor, para as moedas. No restante desse cinturão, em couro, com cavidades e aplicado especialmente, as balas (projéteis) se enfileiram.

Abaixo vem a bombacha e as botas e, eventualmente, o chiripá, pano de metro e meio que cruza por entre as pernas do gaúcho, presa ao cinto ou ao tirador (laço de couro para apanhar o gado, a pé).

Bem, em linhas gerais ai está a figura do gaúcho pampeiro tradicional, no tocante a indumentária.

Um complemento: o poncho (quadrado, de lã, com uma abertura no meio) para proteger seu dono das intempéries e como “colchão e cobertor” sob a luz das estrelas e também nas intempéries. Quando com ele vestido, em seu cavalo, o gaúcho protege até parte do lombo do pingo. Quando debalde ele é dobrado e posto em sacola de couro na parte posterior do arreio (sela).

Uma figura hoje extinta no pampa gaúcho (no castelhano só se muda a fonética para “gáucho”) é o “gaudério”. Até bem poucos anos ele existiu: Gaudério significa aquele campeiro errante, sem destino certo. Com seu cavalo palmilhava as planícies riograndenses. Trabalhava, eventualmente, numa fazenda ou noutra, mas seu destino mesmo era vagar. Abatia um bicho aqui outro ali, do carpincho (capivara) ao quero-quero (e até um vitelo, vez por outra, sem perguntar a quem pertencia, para se alimentar). No bolso o velho acendedor (isqueiro) feito da ponta da guampa de um bovino (onde continha algodão nativo), atado a um pedaço de lima ou pedra ferro, além de uma “pedra de fogo”. No contato (batida) entre a lima e a pedra, direcionando a fagulha para o algodão, era só soprar. O resto não dava muitos passos para encontrar: galhos e folhas secas sob o capão mais próximo e, em minutos, o fogo crepitava e a carne estava à ponto de ser saboreada, enfiada num galho resistente… (segue proximamente)

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