Coisas da tradição campeira – 2

A paisagem do pampa foi algo de encher os olhos e de fazer qualquer ambientalista sorrir deslumbrado: tudo era natural, nativo, quase que intocado. Poucas coisas destoavam da paisagem, entre estas as taipas (muradas de pedras naturais irregulares, que dividiam os piquetes, as divisas entre fazendas e a velha BR-290 que leva à divisa internacional, Uruguaiana/Paso de Los Libres (Argentina). (Audio Gilberto Monteiro. CD De Lua e Sol).

A cada quinzena percorri aquela rota por muito tempo: Santa Maria (RS) – Criciúma (SC). Extasiava-me olhar a paisagem, os campos imensos e verdes, levemente ondulados, assim como a rodovia. Esta possuía uma característica interessante: tinha apenas uma curva acentuada entre Vila Nova, povoado onde desembocava a estrada que nos trazia de Santa Maria, via São Sepé, e a Capital gaúcha, Porto Alegre, num percurso de, aproximadamente, 320 km.

Exceção de uma casa ou pequeno estabelecimento isolado de lanches e produtos naturais (barracas de beira de estrada), ou então algum fazendeiro cruzando a rodovia com gado, para o manejo de pastagem, somente em Pântano Grande ia-se encontrar uma estrutura mais completa onde “encostavam” os ônibus que trafegavam pela 290.

Capões e pastagens compunham o quadro natural principal no restante do trajeto.

Isolados, viajando numa estrada de então moderado tráfego de caminhões de longo curso (especialmente os valentes FNM, brasileiros, e os Fiat, da Argentina), a gente assumia atitudes que, se filmadas e gravadas, nos levariam a qualquer hospício: para espantar o sono, a gente falava sozinho, assoviava, cantava, berrava, ligava o toca-fitas e o rádio, enfim, atitudes que deixavam antever um possível portador de distúrbio mental. Tudo isso para espantar o sono (quando se chegava a Porto Alegre já nos considerávamos “em casa”, pois começávamos a ver gente, movimento intenso e construções por todo o final do trajeto… e faltavam mais 380 km. de chão a serem percorridos)…

Naquela paisagem recompúnhamos, mentalmente, a sua história longínqua, os charruas, depois os colonizadores e, mais tarde a chegada do gado, dos eqüinos, que deram vida e ajudaram a construir uma economia sólida para o território gaúcho. Tempo do “gado a campo” (animais que viviam e procriavam quase sempre ao relento, longe das instalações rudimentares da fazenda, pelos capões e ao próprio pasto. Lá um dia um peão os encontraria e os repontaria para somar à tropa destinada ao corte e à produção de leite, ou a montaria).

Esses peões tinham uma vida rude: habitavam nos galpões das fazendas ou em pequenas casas de madeira ou pedra. Percorriam muitas dezenas de quilômetros por dia nas lides do campo. Tempo de marcação do gado era tempo de muito trabalho. Com um ferro quente, em brasa, era aposta a marca da fazenda na anca de cada animal, para evitar confusão com animais de outros proprietários de megapropriedades.

Tudo era feito “na raça”, invariavelmente com animais não muito dóceis. Cada um deles era laçado pelas patas, derrubado e imobilizado, à muque, para marcar e, no caso de touros, castrar os que não seriam aproveitados para reprodução (posteriormente vendidos para corte), o que possibilitava uma engorda mais rápida e também mais docilidade no manejo.

Mas para o gaúcho dos pampas, apesar de tudo, essa era a sua vida normal e a isso de dedicava. Ao término da marcação ou da castração, ou qualquer outra atividade de relevo, como a negociação de uma tropa do plantel, o fandango era infalível. A presença da “acordeona” e do “pinho”, do pandeiro e do tambor, formavam a base da animação com muito churrasco ao sal grosso, costelas inteiras assadas à beira do valo, enfiadas em bambu e pinga branquinha e “esquentadeira”.

E chegamos ao tema da música campeira, do vanerão, do xote, da milonga, da valsa e da rancheira, o que vamos abordar na próxima…  (continua oportunamente)

A paisagem do pampa foi algo de encher os olhos e de fazer qualquer ambientalista sorrir deslumbrado: tudo era natural, nativo, quase que intocado. Poucas coisas destoavam da paisagem, entre estas as taipas (muradas de pedras naturais irregulares, que dividiam os piquetes, as divisas entre fazendas e a velha BR-290 que leva à divisa internacional, Uruguaiana/Paso de Los Libres (Argentina).

A cada quinzena percorri aquela rota por muito tempo: Santa Maria (RS) – Criciúma (SC). Extasiava-me olhar a paisagem, os campos imensos e verdes, levemente ondulados, assim como a rodovia. Esta possuía uma característica interessante: tinha apenas uma curva acentuada entre Vila Nova, povoado onde desembocava a estrada que nos trazia de Santa Maria, via São Sepé, e a Capital gaúcha, Porto Alegre, num percurso de, aproximadamente, 320 km.

Exceção de uma casa ou pequeno estabelecimento isolado de lanches e produtos naturais (barracas de beira de estrada), ou então algum fazendeiro cruzando a rodovia com gado, para o manejo de pastagem, somente em Pântano Grande ia-se encontrar uma estrutura mais completa onde “encostavam” os ônibus que trafegavam pela 290.

Capões e pastagens compunham o quadro natural principal no restante do trajeto.

Isolados, viajando numa estrada de então moderado tráfego de caminhões de longo curso (especialmente os valentes FNM, brasileiros, e os Fiat, da Argentina), a gente assumia atitudes que, se filmadas e gravadas, nos levariam a qualquer hospício: para espantar o sono, a gente falava sozinho, assoviava, cantava, berrava, ligava o toca-fitas e o rádio, enfim, atitudes que deixavam antever um possível portador de distúrbio mental. Tudo isso para espantar o sono (quando se chegava a Porto Alegre já nos considerávamos “em casa”, pois começávamos a ver gente, movimento intenso e construções por todo o final do trajeto… e faltavam mais 380 km. de chão a serem percorridos)…

Naquela paisagem recompúnhamos, mentalmente, a sua história longínqua, os charruas, depois os colonizadores e, mais tarde a chegada do gado, dos eqüinos, que deram vida e ajudaram a construir uma economia sólida para o território gaúcho. Tempo do “gado a campo” (animais que viviam e procriavam quase sempre ao relento, longe das instalações rudimentares da fazenda, pelos capões e ao próprio pasto. Lá um dia um peão os encontraria e os repontaria para somar à tropa destinada ao corte e à produção de leite, ou a montaria).

Esses peões tinham uma vida rude: habitavam nos galpões das fazendas ou em pequenas casas de madeira ou pedra. Percorriam muitas dezenas de quilômetros por dia nas lides do campo. Tempo de marcação do gado era tempo de muito trabalho. Com um ferro quente, em brasa, era aposta a marca da fazenda na anca de cada animal, para evitar confusão com animais de outros proprietários de megapropriedades.

Tudo era feito “na raça”, invariavelmente com animais não muito dóceis. Cada um deles era laçado pelas patas, derrubado e imobilizado, à muque, para marcar e, no caso de touros, castrar os que não seriam aproveitados para reprodução (posteriormente vendidos para corte), o que possibilitava uma engorda mais rápida e também mais docilidade no manejo.

Mas para o gaúcho dos pampas, apesar de tudo, essa era a sua vida normal e a isso de dedicava. Ao término da marcação ou da castração, ou qualquer outra atividade de relevo, como a negociação de uma tropa do plantel, o fandango era infalível. A presença da “acordeona” e do “pinho”, do pandeiro e do tambor, formavam a base da animação com muito churrasco ao sal grosso, costelas inteiras assadas à beira do valo, enfiadas em bambu e pinga branquinha e “esquentadeira”.

E chegamos ao tema da música campeira, do vanerão, do xote, da milonga, da valsa e da rancheira, o que vamos abordar na próxima…  (continua oportunamente)

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