Coloninha: “Vossa Majestade, beijo-lhe às mãos”

Dando continuidade à série de apresentação dos sambas-enredo das escolas de samba de Florianópolis, hoje falarei um pouco sobre a contagiante escola do Continente: a Unidos da Coloninha. Fundada em 1962, tendo o nome inspirado no espaço conhecido como “as gerais” do estádio Orlando Scarpelli, no Estreito, a Sociedade Recreativa e Cultural Unidos da Coloninha surge originalmente como uma escola-mirim. Depois de anos desativada, retorna na década de 1980 para colecionar títulos e apaixonar a cidade com os encantos da comunidade da porção continental da cidade.

Em 1984, 1985, 1986 e 1987 sagrou-se tetracampeã, absoluta no início da década. O pentacampeonato viria em 1989 – já que em 1988 seria impossível, sem a ocorrência de desfiles oficiais!
 
Já pelo cartão de visitas percebe-se uma escola de comunidade forte, onde as famílias passaram, de geração em geração, o amor e a paixão de ser Coloninha.

Alguns sambas marcaram a história do carnaval da cidade como “Na boca da Noite” (1985), consagrada obra de autoria de Paulinho Carioca e Maguila, que ainda ecoou pelas bandas de lá. Depois de um jejum entre os anos de 1996 e 2008, a escola voltou a comemorar um título com o enredo “2785, A insólita viagem do navegador francês Jean François de Lapèrouse à Ilha de Santa Catarina.”
 
Para esse ano, a única representante do continente traz para o carnaval a trajetória dos ciclos econômicos brasileiros com o enredo “Vossa Majestade, beijo-lhe às mãos! A terra do pau-brasil é boa, e, querendo aproveitá-la, tudo nela dá”. O pau-brasil, a cana-de-açúcar, a mineração, o café, a borracha e os novos ventos da indústria e globalização serão dispostos nos quatro setores que abarcam o desfile.
 
O samba-enredo, que tem como autores Juninho Zuação, André Cunha e Diego Nicolau, é o que podemos chamar de um samba valente. O ponto forte do samba é a empolgação que permeia toda obra que, dada a profundidade do enredo, consegue dar leveza a obra que teria tudo para “pesar” na avenida. Mas não é que acontece.
 
Juninho Zuação, por e-mail, resume bem os ideais estéticos buscados na obra: “nossa meta era juntar um samba rico em letra e com uma melodia forte […] O clima dele era de fácil aceitação, um samba não muito difícil para os componentes, mas rico nos quesitos necessários […] focamos muito num refrão marcante.”
 
Uma particularidade da agremiação em relação às demais escolas é o sistema de gravação da obra. O samba foi gravado no estilo “ao vivo”, ou seja, procura aproximar-se de uma execução calorosa no seio da comunidade, usando de recursos como o coro – bastante numeroso – e a captação da bateria, que trazem à tona um clima de quadra lotada. Quem ouvir o samba da Escola Consulado na minha última crônica e compará-lo com esta gravação poderá facilmente perceber a diferença de foco entre as duas, sobretudo no que tange ao andamento – mais acelerado e, portanto, mais próximo daquele empregado no desfile.
 
Será que o sonho dourado do título aportará em solo azul e branco? É o que veremos… Enquanto isso, ficamos com o samba na voz do excelente intérprete Sabarah e sua harmonia.

Mais informações: www.coloninha.org.br

S.R.C. Unidos da Coloninha
Enredo: “Vossa Majestade, beijo-lhe as mãos! “A terra do pau-brasil é boa e querendo aproveitá-la, tudo nela dá”
Carnavalesco: José Alfredo Beirão Filho
Compositores: Juninho Zuação, André Cunha e Diego Nicolau

O índio foi quem extraiu
No troca-troca a madeira pau-brasil
E a coroa portuguesa levou nossa riqueza
Pra Europa conquistar
A cana-de-açúcar que fez o país prosperar
Escravos trabalhavam sol a sol
Trazidos de além-mar, Cidades mineiras a se revelar
Um mundo dourado a brilhar

Que mulher não sonhou ter diamantes
Mas Chica da Silva se fez deslumbrante
A borracha e o café quem e que não quer?                      BIS
Tesouros dessa terra fascinante

Da crise à evolução Indústrias fortalecem a brava nação
O petróleo é nossa riqueza
Faz do meu país grande certeza
O período JK fez o povo sonhar, resplandecer Brasil…
Em cada rosto uma expressão
Em cada gesto a emoção
A esperança no olhar Templos de consumo, globalização
Um novo mundo pra ganhar seu coração

Quero tanto dizer como eu amo você
Minha Majestade és tu Coloninha!
Se Caminha escreveu                                                       BIS
Esse chão tem riqueza, esse solo é meu!

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