Colunismo social

Muitos amigos de outros Estados me questionam: por que Santa Catarina tem tantos colunistas sociais nos seus jornais? Respondo-lhes que essa coisa não começou hoje, que é muito antiga: Zury Machado já passou dos 60 anos de prática.
Por Carlos Damião

Não é mole escrever aquele tipo de coluna durante seis décadas! Se ele ainda existe como colunista é porque a coisa é boa, ou seja, há leitores de sobra para o gênero. O Moacir Benvenutti, que é nome mais recente, é outra prova de que o povo gosta de luxo. A Neuzinha Manzske, do Santa, idem: mais de 20 anos de coluna.

Em Florianópolis, eram Zury n’O Estado, Celsinho Pamplona n’A Gazeta, Lázaro Bartolomeu no extinto Diário Catarinense (que era dos Diários Associados, cujo título foi comprado pela RBS).

Os três promoviam festas homéricas. Zury foi o mais notável de todos, inventor do Baile Branco do Clube Doze, onde eram apresentadas à sociedade as meninas chiques de outrora, exuberantes que só elas.

Lázaro criou o Grande Gala, um baile anual por onde desfilavam as celebridades catarinenses.

Pamplona também era festeiro, mas foi na TV Cultura (hoje Record) que ele se revelou. Comunicador por inteiro, divertido, macunaímico. Sobre ele, assim escreveu Beto Stodieck: “Celso Pamplona (…) pode ser considerado, sem susto (ou melhor, com muito susto), como o maior fenômeno que a televisão catarinense fabricou em toda a sua existência. (…) Ele é muito muito melhor que o Chacrinha. Ao menos mais engraçado ele é”.

Na foto de W.Oliveira (do livro do Beto), Celso Pamplona, um dos papas do colunismo social de Florianópolis entre os anos 1950 e 1980. Fica a questão: como era conhecido o colunista d’A Gazeta e da TV Cultura?

O reinado de Celso e Lázaro terminou porque eles morreram, mas Zury resistiu ao tempo e anda por aí, firme, aos 83, com face e físico de 50. Pode ser visto no calçadão, nos cafés elegantes, nas joalherias e outros ambientes chiques e segue n’O Estado, duas vezes por semana. A coluna ficou sem revisão e sai às vezes com aqueles erros crassos que caracterizaram a trajetória do nobre jornalista social. “O casal foram vistos” é uma frase clássica criada por ele e eternizada nas páginas de O Estado, porque os editores de antigamente não tinham a preocupação de corrigir os erros.

Lembro-me de uma vez, quando era editor-chefe do mais antigo e o Dr. Comelli me chamou. Zury estava na sala. Logo senti que ali tinha qualquer coisa. “Pois é”, disse Comelli, “o Zury tem umas queixas para fazer”. O veterano colunista ficou ruborizado, baixou a cabeça. “Não são queixas, doutor Comelli. Por favor, não me entenda mal, Damião”.

Fiquei preocupado. Mas Zury revelaria sua mágoa principal: “Sabe o que é, é que andam mexendo nas minhas notas e os leitores não estão gostando. Eles acham que outra pessoa está escrevendo no meu lugar”. É claro que entendi na hora: a coluna do Zury estava passando por um “pente”, como a gente dizia na redação. “Pente” significava uma leve copidescada, uma melhorada no texto, correções dos erros e tal. Os leitores estavam tão acostumados aos defeitos da coluna que acharam estranho quando começou a ficar mais “limpinha”, sem aqueles escorregões no português.

Vamos fazer uma distinção necessária: alinhei Zury Machado, Celso Pamplona e Lázaro Bartolomeu no patamar do colunismo social, entendido da forma clássica.

Portanto, Beto Stodieck, Cacau Menezes e Raul Sartori criaram um novo tipo de coluna, que os norte-americanos chamam de gossips (não dá para traduzir ao pé da letra, mas é uma coisa mais inteligente, perspicaz). Foi o tipo de colunismo introduzido no Brasil por Zózimo Barroso do Amaral, que não se restringia a divulgar eventos sociais e a promover vaidades, mas buscava aquele “algo mais”, umas notas mais apimentadas, divertidas, enigmáticas. Beto Stodieck foi o pioneiro desse gênero em Santa Catarina, trazendo o estilo para o jornal O Estado no início da década de 1970.

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