Com “Classe”

A turma reunida na barbearia do Otávio discutia o uso de algumas palavras; se eram corretamente aplicadas às situações ou não. Nem sempre recorriam ao dicionário, às vezes faziam sua análise pessoal. Começaram com a palavra, coragem.

Tudo porque o Juvenal comentou sobre esses homens que batem nas mulheres, as queimam, as matam; sem contar o abuso sexual e violência contra crianças. Juvenal concluiu dizendo que: “tem que ter muita coragem para fazer isso”. Antunes Carriel, imediatamente protestou, disse “que sempre entendeu a palavra coragem como algo bom, louvável, praticada por homens e mulheres de boa índole; enfim, aquilo a que Juvenal se referia caberia a palavra, covardia, ou quem sabe, crueldade, maldade”.

O barbeiro Otávio comentou sobre a palavra, classe. Disse que ela tem vários significados. O Felisberto, dono do bar próximo à barbearia, disse que tinha uma boa história sobre o que é ter classe em sua visão. Contou que seu filho, Aurélio havia demonstrado o que é ter e agir com classe. Os amigos prestaram atenção à história.

Felisberto se levanta e inicia o relato:

– Aurélio e seu amigo, Tomaz foram passear numa tarde de sábado na cidade de Antônio Carlos; isso já faz uns 10 anos. Dois amigos, solteiros, pensaram que poderiam se dar bem lá naquela aconchegante cidade. Mas lá chegando se sentiram um pouco desanimados, não parecia ter muito o que fazer. Tomaz propôs voltarem a São José. Aurélio disse que não, nada de ir embora, estava certo de que encontrariam algo de bom ali. De repente, Tomaz observa uma grande movimentação; muitos carros, motos, pessoas bem vestidas. Tomaz perguntou ao Aurélio:

– Será que é um enterro?

– Que enterro, rapaz, parece tolo. Todo mundo bem vestido; a maioria rindo, e olha quantas meninas lindas. Enterro, só tu mesmo, Tomaz.

– Ah, se nós tivéssemos sido convidados, já pensou, Aurélio?

– O importante, Tomaz, é que nós já temos uma festa pra ir.

– Mas não vai ser fácil conseguir um convite. Vamos embora.

– Embora? Sim, depois da festa nós vamos embora, Tomaz.

– Tu estás é louco, Aurélio. Não tá pensando em tentar entrar sem convite, não é?

– Pensando morreu um burro, meu amigo. Fica frio, só me acompanha.

– Mas, e se nos colocarem para fora, pense na vergonha, Aurélio.

– Pense em se não nos colocarem para fora, Tomaz. Imagina, boa carne, maionese, palmitos, cerveja gelada, boas músicas, lindas moças. O que pode dar errado?

Felisberto caminhava pela barbearia enquanto narrava a aventura na qual o filho e o amigo estavam entrando. A turma do salão ficou impressionada com a narrativa precisa de Felisberto. Ele comentou como o filho tentou acalmar Tomaz:

– Tá vendo só, Tomaz, tem tanta gente que ninguém vai nos notar.

– E vamos sentar em qual mesa? Parece que todas têm os nomes dos convidados. Vamos embora logo.

– Garçom, por gentileza. Não quero constranger os noivos, afinal de contas eles estão tirando fotos. Ele vai ficar sem jeito por saber que não há uma mesa para nós. Eu me chamo Aurélio e ele, Tomaz. Se puder fazer a gentileza de nos conseguir uma mesa. Não vejo a hora de dar um abraço nos noivos. Ele está muito feliz.

– Poxa, não é que tu conseguiu mesmo, Aurélio.

– Ué, é só ter classe.

Felisberto quase começou a babar ao contar aos amigos na barbearia sobre o jantar:

– Devia ter uns 10 tipos de carne, além de linguiça, galeto e coração; ah, polentas fritas, maionese, palmitos que quase se desmanchavam. Tinha bons vinhos e cervejas estupidamente geladas. Esse meu filho faz cada coisa. Eu jamais teria feito isso. Não teria essa coragem.

– Coragem? – Perguntou seu Victor, e acrescentou – me desculpe, Felisberto, mas isso não é coragem, pra mim isso é cara de pau.

– Pior é que é verdade, meu amigo. O Aurélio foi muito cara de pau. O pobre do Tomaz é que não se acostumava com ele, é envergonhado – disse o Felisberto.

Antunes Carriel, empolgado como os demais amigos e já com vontade, segundo ele, de contar a história num de seus programas de rádio, disse para Felisberto continuar. Felisberto continuou:

– É, meus amigos, tudo estava indo bem, até que o Tomaz disse para o meu filho:

– Aurélio, os noivos estão começando a cumprimentar os convidados. E agora, o que vamos fazer quando eles chegarem aqui?

– Vamos cumprimentá-los, dar os parabéns; afinal de contas eles se casaram e a festa está ótima.

– Não é isso, Aurélio. Eles vão nos reconhecer. Ou melhor, não vão nos reconhecer, e aí meu amigo, vai dar rolo. E se chamarem a polícia?

– Relaxa meu amigo. Eu comi e repeti duas vezes. E tu também comeu bem que eu vi.

– Olha lá, olha lá, Aurélio. Nós seremos os próximos a ser cumprimentados, e quando eles cumprimentam os convidados todos ficam olhando. Meu Deus, que vergonha. Eu queria desaparecer agora mesmo. Meu senhor, eles estão chegando; tu fala com ele…

– Boa noite, cavalheiros. Foram bem servidos? Afinal de contas minha noiva e eu estivemos por quase um ano organizando tudo.

– Claro. Está tudo maravilhoso; a organização, a atenção dos garçons e que comida maravilhosa.

O barbeiro levantou e perguntou se o noivo havia notado que eles estavam de penetras. Felisberto disse que o noivo chegou bem perto dos dois, com a cabeça praticamente em cima da mesa e disse:

– Prestem atenção, rapazes. Eu não conheço vocês. Me arriscaria a dizer que não foram convidados, e aqui há mais de 300 pessoas entre familiares e bons amigos, então, se já jantaram, gostaria que saíssem daqui com toda a classe que demonstram ter. Não estou irritado com vocês, espero que me compreendam.

Seu Victor, angustiado com a história, perguntou o que eles fizeram. Felisberto disse que seu filho e o Tomaz se levantaram no mesmo instante e Aurélio falou em voz alta:

– O meu amigo. Que bom te ver tão feliz e realizado. Parabéns pela linda noiva, pela festa maravilhosa, e claro que mesmo com pressa eu não iria embora antes de cumprimentá-los. Desejo plena saúde e felicidades ao casal. Peço mil desculpas, mas Tomaz e eu realmente precisamos sair agora. Não se aborreça por isso, por favor. Tenham uma linda lua de mel.

Antunes Carriel, de boca aberta, disse aos amigos:

– Olha, eu fico na dúvida se isso é coragem, cara de pau ou classe.

Felisberto, respondeu:

– Acredito que meu filho seja um rapaz corajoso, meio cara de pau, mas que teve classe, ah, isso ele teve.

 

 

 

 

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