Como eu poderia imaginar… Lula e Tancredo

Vou contar histórias para vocês. Histórias da vida real. São duas passagens de minha vida profissional que jamais transmiti a ninguém. Falo agora porque, neste final de semana, preocupado em alimentar meu site e meu blog, invadi o passado e rememorei esses fatos. Não há, com certeza, muita importância para alguém. O registro é apenas isso: um registro.

1) – O PFL de Lula

Quando ainda líder sindical, Lula corria o Brasil, convidado por correligionários para fazer a pregação dos movimentos classistas de trabalhadores e para sedimentar o Partido dos Trabalhadores.

Estávamos lá por 1982/1983, o ano e a época correta me fogem agora, e Lula passou por Florianópolis. Poucos da imprensa deram-lhe a devida importância. Como âncora do jornalismo da TV Cultura, em rede com a RCE – Rede de Comunicações Eldorado -, eu o recebi na estação num dia de sábado, para um debate. Ele nem estava acompanhado. Um motorista o deixou lá e eu o recebi.

Depois da entrevista, ofereci-lhe a condução para descer (estava na hora do almoço) e ele perguntou se “ali mesmo não haveria alguma coisa para se comer”. O restaurante da emissora estava aberto e eu o levei lá, advertindo-o da simplicidade do ambiente. Ele perguntou: “Tem feijão, arroz e uma carninha para se comer? Então vamos lá”.
Almoçou comigo e os funcionários que circulavam por ali sequer o reconheceram como Lula, o líder sindical do ABC Paulista.

Durante o almoço, conversamos sobre os objetivos de sua viagem e da sua perspectiva sobre o PT. Ele me disse uma frase que jamais divulguei em qualquer lugar: “Eu vejo o PT como o PFL da esquerda: que defenda uma posição, mas tenha capacidade de negociar sempre”.

Não sei se isto possa ser considerada uma filosofia praticada e nem quero entrar nesse mérito. Mas que todo o comportamento posterior de Lula, principalmente depois de sua posse na presidência, indica isso, indica sim. E prova que ele é obstinado e planeja muito bem seus passos. E a longuíssimo prazo.

Como eu imaginaria que Lula chegaria aonde chegou?

2) – Meu momento indefinível com Tancredo Neves

Corria o ano, se me não engano, de 1974 ou 1975. Murilo Canto, então um dos líderes do MDB de Criciúma, ciceroneou na cidade Tancredo Neves. Meu amigo, Murilo levou Tancredo para eu entrevistá-lo no programa jornalístico de debates que tinha na Rádio Eldorado. Depois do programa, Murilo nos levou para jantar na Churrascaria Castelinho, ao lado da emissora, esquina da Rua Marechal Deodoro com Rui Barbosa, de propriedade do Nim Milioli, pai do radialista Milioli Neto.

Sentados à mesa, sozinhos no restaurante àquela hora, continuamos a conversar sobre amenidades e política. Num dado momento, Murilo precisou se ausentar e deixou-nos, Tancredo e eu, aguardando o jantar. Confesso que fiquei meio sem jeito. Afinal, a imagem de Tancredo, historicamente, o colocava no patamar de um ídolo político dos tempos do getulismo, a época áurea da política brasileira. Como admirador de Getúlio que sempre fui, fiquei meio pasmado diante de Tancredo. E comecei a fazer perguntas simples, quase envergonhadas, sem alcançar a dimensão de uma conversa com um homem daquela estatura histórica e de conhecimentos indiscutíveis na política nacional. E uma testemunha ocular e personagem principal de tantos acontecimentos que marcaram para sempre a vida do Brasil e dos brasileiros.

Mesmo assim, Tancredo fez o que um homem da sua imensidão moral e intelectual faria: ao invés de esperar que eu pudesse alcançar seu patamar – coisa impossível -, simplificou a conversa e iniciou a conversar sobre coisas de Santa Catarina, fazendo perguntas sobre mim e sobre a vida em Criciúma. Pediu minha opinião sobre a política local e sobre as pessoas envolvidas. Este foi um dos meus momentos de profundo aprendizado: deixar as pessoas à vontade, não ser arrogante, não tentar fazer prevalecer sua superioridade e nem demonstrar conhecimentos com a intenção de humilhar quem não os têm.

A tal ponto chegou à conversa que, na minha imberbidade profissional, lasquei a pergunta mais profunda e mais óbvia que me ocorreu. Sabendo ter sido ele um dos mais íntimos interlocutores de Getúlio Vargas, indaguei como ele definia o Brasil de Getúlio. E ele foi ainda mais óbvio: “O Brasil antes de Getúlio e o Brasil depois de Getúlio, esta é uma demarcação que nunca se apagará”.

Depois daquele momento, a história mostrou Tancredo Neves emoldurando os mais fantásticos caminhos da política nacional. E eu, claro, jamais poderia ter a pretensão ou a ilusão de, então, ter outro momento de intimidade com ele.

Às vezes a gente vive instantes que se perdem por não termos sabido dar-lhes a dimensão devida.

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