Computa computador, computa… ou sem…

Comprei um computa-dor novo, zero quilômetro, de aparência quase robótica, ostentando aquele ar de superioridade e cumplicidade, que eles costumam usam para se comunicar com os iguais da “turma” e, igualmente, para impressionar os retardados da minha idade.

DSCN0581Num país que mal se expressa em sua própria língua, esse exemplar máximo da moderna tecnologia só fala o idioma de Shakespeare. E muito mal, considerando-se que também não nasceu na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas lá pras bandas do Oriente, no país do sol-nascente. O manual, originalmente escrito em japonês, foi vertido depois para o espanhol e, finalmente, para o inglês, resultando no mais legítimo samba do crioulo doido, para quem quiser interpretá-lo devidamente, em tradução literal, via inglês do ginásio.

Ao invés de dizer conecte o plug à tomada, por exemplo, o folheto de instruções não deixa por menos, no capítulo l: – “Segure o plug com a mão direita e levante-a na altura média de um terço do comprimento do espaço que vai da mesa ao seu maxilar inferior. Em seguida, gire a mão num ângulo de 45,7 graus, estabelecendo uma reta paralela à linha imaginária que vai da ponta do seu nariz até o objetivo traçado. A seguir, deslize a mão para a frente, até que os pinos do plug fiquem alinhados aos buracos da tomada e proceda à acoplagem”.

Conseguida a proeza, já respirando aliviado e feliz, a gente liga a coisa, que acende luzes multicoloridas e emite sons cibernéticos e, em seguida, alguns compassos de uma obra clássica, inidentificáveis, interpretada por grande orquestra. É o sinal, pensamos nós – de que, finalmente, fomos aceitos pela irmandade e somos – aleluia! – cidadãos do primeiro mundo, capazes de conectarmo-nos com o dito, via magia da Internet.

O antigo PC, por nós chamado de “lata de sardinhas metida a besta”, várias vezes (em plena madrugada) recebeu sérias ameaças de cair “acidentalmente” do quinto andar, cada vez que travava sem explicação alguma, fazendo-nos perder todos os arquivos, mesmo aqueles cuidadosa e antecipadamente “salvos”, segundo instruções recebidas dos entendidos. Foi exilado para a casa da praia, para ajudar a passar a tarde, sempre que o sol fizer “forfait” e resolver não aparecer. Mas que ninguém se assuste ao ouvir dizer que pescadores de Garopaba tiveram uma baita surpresa ao recolherem a rede, descobrindo, em meio às tainhas, anchovas e corvinas, um computador! Que ninguém se pergunte como ele foi parar lá!

O novo já ganhou nome e codinome. Devidamente batizado de “a página não pode ser exibida”, também é conhecido como “este programa executou uma operação ilegal e será fechado”. Até agora, uma semana depois, a única coisa que faz – e mesmo assim não perfeitamente – é tocar CDs, embora perdendo em qualidade sonora para um aparelho especializado com três bandejas e registros diversos para balanço, tons e controle de graves e agudos. Diante do preço pago, recuso-me a deixá-lo sem trabalhar.

E não consigo parar de pensar nas três máquinas de escrever – uma pequenina, super portátil, trazida de Roma e duas maiores, incluindo-se aí a formidável Olivetti elétrica, com esfera, ganha de um amigo, que mandou reformá-la para fazer-me presente. Para as duas primeiras não existem mais fitas, limpadores etc, e duvido que se encontre manutenção também para a terceira. Pelo menos não por muito tempo mais. O que fazer com elas, que já produziram tanto em madrugadas intermináveis? Que já sonharam tantos sonhos e criaram tantos amores impossíveis?

O computador não gosta de mim. Inteligente como é, já percebeu a minha total incompetência e a não-disposição para conquistá-lo e/ou entregar-me aos seus caprichos, acendendo-lhe incensos, mesmo quando ele está “naqueles dias”.

Entretanto, cada vez que perco a calma e tenho de xingá-lo, também não consigo esquecer sequências inteiras de “1984” e de “2001 Uma Odisseia no Espaço”. Principalmente esse último, em que AL-9000, o diabólico computador da grande nave toma conta de tudo e começa a liquidar todo e qualquer membro da tripulação que se oponha aos seus desvarios.

E se ele – o meu, de casa – perder a calma e fizer o mesmo comigo?! Um tombo do quinto andar será com certeza fatal! E, caso eu não consiga atirá-lo primeiro, quem vai acreditar que foi somente ele o responsável pela minha queda?!

Na sua memória, com toda a certeza estão registrados os xingamentos e insultos brabos, que lhe berrei madrugada a dentro, e as ameaças – jamais veladas – de atirá-lo desse mesmo quinto andar, só pelo prazer de ouvir o estrondo lá embaixo!

Discordo de quem diz – fascinado – que ele é a oitava maravilha do mundo moderno e que basta ser medianamente inteligente para conseguir dominá-lo completamente, obtendo dele plena e total satisfação. Devem estar mentindo – com que finalidade não sei – os que fazem tais afirmações. Comigo, ele só funciona perfeitamente durante o tempo que quer, e que é sempre muito curto.

Acabado esse tempo ou a sua paciência, ele corta qualquer papo ou tesão, sem a menor piedade para com os milhões – por exemplo – de solitários que, quem sabe?, encontraram uma alma gémea, durante algumas horas, nas dezenas de salas de bate-papo. As explicações dos setores especializados – todas feitas em “tecnicês” – além de não levarem a nada, ainda humilham profundamente os que – como eu – não falam tal idioma.

Comprar um novo, zero quilômetro, portanto, não foi e nem será a solução, vez que o problema – que jamais os provedores confessarão – deve ser mesmo o excesso de usuários, noite e dia. É como o celular que, hoje em dia, todo mundo tem.

O filho adolescente de um amigo, por exemplo, costuma ver a sessão da tarde da TV com a namoradinha de igual idade, durante mais de duas horas, cada um com o seu celular ligado na mão, para os eventuais comentários e os papos do intervalo comercial. Ele na Beira Mar Norte, em Floripa, e ela em Joaçaba, no meio oeste. O pai dele – naturalmente – paga a conta telefônica, muito embora não se saiba ao certo a origem da verba, o que também não vem ao caso. [Jornal eletrônico Floripa Total, 4 de abril de 2005]

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Por Mauro Júlio Amorim

Nascido em 14 de abril de 1939 e residente de Florianópolis, Mauro Júlio Amorim é jornalista e escritor. Foi publicitário, radialista, locutor, teatrólogo e apresentador de TV. Cronista emérito, começou aos 18 anos e continua escrevendo e promete não parar enquanto a saúde permitir. Adora contar histórias saborosas dos amigos e de gente famosa. Atualmente trabalha na conclusão do terceiro livro e acaba de se integrar à equipe de cronistas voluntários do Instituto Caros Ouvintes.
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