Comunicação Sul-Sul: a estratégica interação Brasil/China

*José Marques de Melo

A realização do I Colóquio Brasil-China de Comunicação, na cidade de Vitória (ES), nos dias 11 e 12 de maio de 2010, culminou um processo iniciado há um quarto de século, quando a INTERCOM vislumbrou o momento apropriado para romper o isolamento que nos atrofiava intelectualmente, durante o regime militar. Os donos do poder autoritário instituíram uma cortina de incomunicação que nos ateve restritos à importação de conhecimento oriundo das matrizes ocidentais, principalmente da metrópole americana. Quando se prenunciou a distensão lenta, gradual e segura, sintoma do enfraquecimento da ditadura, a nossa comunidade acadêmica aproveitou a “brecha” para dialogar com as comunidades vizinhas da América Latina, depois aquelas da Europa mediterrânea.

Organizando colóquios bi-nacionais, buscamos oxigenar nossos referentes teóricos e atualizar nossas fontes metodológicas. Os colóquios Brasil-México e Brasil-França marcaram nossa retomada do diálogo internacional.

Nossa ambição era, contudo, universal. Pouco a pouco ampliamos o leque de interlocuções, explorando até mesmo pólos relevantes como Dinamarca, Inglaterra, Canadá e Estados Unidos, mantendo o intercâmbio com os “países parentes” da Europa e da América. Nessa linha, lançamos pontes interativas transatlânticas – Itália, Espanha e Portugal – e sul-americanas – Argentina e Chile.

Tínhamos consciência, porém, da necessidade de valorizar o diálogo sul-sul, vislumbrando as oportunidades existentes em outros continentes. Daí a busca de parcerias com a China, país milenar, com o qual mantivemos, no passado, ligações culturais privilegiadas, mediadas pelos colonizadores lusitanos ou intensificadas pela migração chinesa em direção ao Brasil, fluxo que se estabeleceu dois séculos atrás.

O golpe militar de 1964 significou a interrupção brutal das nossas relações diplomáticas, só retomadas no bojo da transição política, coroada pela Constituição Cidadã de 1988. As escassas fontes nacionais que nos abriam as portas para o conhecimento sobre a China, seu povo e seu território, eram os relatos de viajantes, que lá estiveram na conjuntura da guerra fria, mas que passaram a ser sonegadas às novas gerações.

Lugar de destaque nesse repertório cognitivo ocupava o livro publicado por Luiz Beltrão, pioneiro das ciências da comunicação no Brasil, que visitou o legendário país asiático em 1958, registrando suas impressões no volume Itinerário da China (Recife, Imprensa Oficial, 1959). Esse relato de viagem, uma espécie de livro-reportagem ou diário de campo, constituiu referente emblemático para balizar o trajeto que a INTERCOM traçou em 2007 para “descobrir” a China deste começo de século.

Tal evento foi decisivo para confirmar a urgência da institucionalização de relações bilaterais entre os dois países, no campo comunicacional. Nesse sentido, uma delegação brasileira foi organizada para explorar os caminhos da China globalizada – Suas impressões estão contidas na antologia Caleidoscópio Chinês (São Paulo, INTERCOM, 2008);

Logo depois da viagem, encontrei-me com a colega Ruth Reis, secretária de comunicação da Prefeitura Municipal. Ela ressaltou o interesse da Prefeitura de Vitória pelo estabelecimento de relações duradouras com a China, dando origem ao primeiro colóquio.

Iniciadas pela professora Sonia Virginia Moreira, então diretora de relações internacionais da INTERCOM, e completadas pelo seu sucessor, Edgar Rebouças, as negociações para a organização do primeiro colóquio contaram também com a participação do jornalista Daniel Castro, cujo entusiasmo pela sociedade chinesa tem sido fundamental para nos aproximar das instâncias diplomáticas sino-brasileiras.

Papel decisivo foi desempenhado pelo jornalista Wu Zhihua, correspondente do Diário do Povo da China no Brasil, que mobilizou uma equipe de profissionais vinculados àquela empresa midiática e, por seu intermédio, uma equipe do China International Media Research Centre – IMRC, formando a delegação de 20 chineses presentes ao colóquio de Vitória. Graças à adesão do Dr. Lane Peng, secretário geral do IMRC, foi negociada a sede do próximo colóquio – Pequim – cuja efetivação provavelmente se dará em maio de 2011.

Ao dialogar com os participantes do I Colóquio Brasil-China de Comunicação, em nome da diretoria e do conselho curador da INTERCOM, fiz a saudação do nosso presidente, Antonio Hohlfeldt, que tem fomentado a intensificação do intercâmbio entre os nossos países, na expectativa de resultados mutuamente proveitosos. Conclui simbolicamente a alocução com o trecho de uma advertência que nos fazia nosso patrono, Luiz Beltrão, em seu livro Itinerário da China (p. 121):

“O chinês é um povo que encontrou (…) o caminho certo para a construção do seu destino. E é um povo que quer, realmente, construir este destino. (…) Ninguém, nenhuma força estranha poderá mais alterar os rumos com que a China marcha para o futuro. (…) Meio século de lutas heróicas temperou o espírito da nação, tornando-a inflexível na determinação de ocupar o lugar que lhe cabe na liderança do mundo moderno”.

Desta maneira, Luiz Beltrão emulava as vanguardas brasileiras para buscar inspiração no modo chinês de transformar a sociedade e dinamizar a economia, sepultando os resquícios de “subserviência à dominação estrangeira”. Trata-se de uma lição que os participantes do colóquio compreenderam e problematizaram, a partir dos relatos que nos fizeram ali os visitantes chineses, aos quais agradecemos a presença, bem como a colaboração para institucionalizar tal fórum de debates.

*Presidente-de-honra da Intercom

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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