Confraria das ondas

Dirney Martins, caçador de frequências de ondas curtas, reune amigos no Parque do Cocó. Foto Mauri Melo

Dirney Martins, caçador de frequências de ondas curtas, reune amigos no Parque do Cocó. Foto Mauri Melo

Radioamadores dos quatro cantos da cidade encontram-se todos os sábados no Center Um Shopping. Lá, eles expõem rádios antigos e discutem a limpidez das frequências emitidas do outro lado do mundo.
No mesmo dia em que o ator Paulo Autran e o compositor russo Kirill Molchanov vieram ao mundo – e, no Rio Grande do Sul, era inaugurado um portentoso obelisco -, uma novidade mudaria para sempre a vida dos nordestinos Carlão e Dirney. Ambos na casa dos cinquenta anos – Carlão tem hoje 55, quatro a menos que Dirney -, não haviam ainda cogitado a hipótese de nascer quando, no Rio de Janeiro, no marco do centenário da independência do Brasil (7 de setembro de 1922), a norte-americana Westinghouse Electric International transmitiu o discurso do presidente Epitácio Pessoa. Antes, a empresa havia empoleirado uma potente estação de rádio no alto do Corcovado, a 710 metros do nível do mar. Dos pés do Cristo Redentor, reverberou ondas que puderam ser ouvidas em Petrópolis, Niterói e São Paulo. Estava lançada a pedra inaugural do rádio no País.

Menos por seu conteúdo que pelo suporte que o propagou, o discurso de Epitácio teria reflexos diretos na vida de Carlos Antônio Borges de Sousa e Dirney Martins. Os anos 1960 faiscavam, e Carlão era ainda Carlinhos, um menino que bulia no Stander Eletric do pai sempre que o velho, mestre de navio rebocador no Maranhão, dava uma folga. Gostava de desmontar e remontar o radinho, que não custava exatamente uma bagatela. “Na época, quem tinha rádio era rico.” A brincadeira virou profissão, way of life e hobby a um só tempo: aos 17 anos, Carlão fez curso de eletrônica pelo Instituto Universal – os fascículos chegavam pelo correio, eram lidos e, ao fim do curso, uma prova bastante simples devia ser respondida – e começou a consertar aparelhos de televisão e rádio. “Mas meu pai era que tinha que dizer aos clientes que vinham a minha casa que eu sabia mesmo consertar. Eles ficavam na dúvida.” Meses depois, numa disputa psicologicamente arrasadora com outros dois concorrentes, ele conseguiu seu primeiro emprego numa loja de reparos que ficava na Pedro Pereira com 24 de Maio.

Carlão rememora: “O dono da loja era médico-legista no Instituto Médico Legal. O gerente, um presepeiro.” Como teste para contratação do novo empregado, selecionou três televisores cujo destino já havia sido selado há tempos: o limbo das coisas sem serventia. “Passamos a manhã inteira tentando, fomos pro almoço e nada. Na volta, os dois que tinham ido comigo haviam desistido.” Como não soubesse das condições do aparelho que lhe havia sido confiado, Carlão pelejou e pelejou. Foi do inferno ao céu no mesmo dia. No fim, entregou a televisão funcionando. “Só fiquei sabendo que não tinha conserto duas semanas depois”.

De tanto pôr novos os rádios imprestáveis de tão velhos, Carlão acabou colecionador. Hoje, entre os trabalhos da oficina que mantém em casa, na Cidade 2000, e o expediente na Fundação Núcleo de Tecnologia Industrial do Ceará (Nutec), onde exerce o cargo de administrador do estado, o aficionado expõe parte do seu acervo de 200 rádios antigos no pátio do Center Um Shopping, na Aldeota. Todos os sábados, das 9 da manhã às 18 horas, Carlão, Dirney e um grupo de 10 radioamadores – ou amadores de rádio – trocam figurinhas. Quando não estão no Parque do Cocó caçando frequências vietnamitas, russas ou ucranianas e esperando ansiosamente os brindes (isqueiros e bonés, por exemplo) que essas mesmas rádios enviam a quem as sintonize de algum ponto longínquo da Terra, eles estão no shopping. Não exatamente contemplando vitrines, mas discutindo a sério o grau de sensibilidade e receptividade de cada rádio, seja ele digital ou analógico.

Indiana Jones das ondas curtas
Não é exagero: o aposentado Dirney Martins, 59, é um caçador de frequências de ondas curtas. Se Carlão derrete-se inteiro ao reanimar um modelo Spica deteriorado, desenganado por um sem-número de especialistas, Dirney sente-se nas nuvens quando, por um golpe de sorte e também porque ele tem faro e traquejo, consegue sintonizar a Voz do Vietnã ou uma rádio qualquer das Ilhas Canárias. Fixada a rádio – Dirney usa aparelhagem digital -, o ritual começa: são anotadas frequência e hora de veiculação do programa e avaliadas a programação e a qualidade da recepção. Por fim, “em linguagem internacional”, uma carta reunindo as informações é enviada para a rádio, que, a depender da quantidade de brindes do seu estoque, responde. Na rígida hierarquia dos radioamadores, quanto mais souvenires dos quatro cantos do mundo, melhor.

Por telefone, Dirney aproveita e reclama do serviço de limpeza em Fortaleza. Não das ruas ou parques, mas da atmosfera. “Você sabe: existe o lixo eletrônico. Esse lixo que o homem moderno produz é muito prejudicial para as transmissões. Torre de celular, de televisão. Isso causa muita interferência. Tem dias que uma determinada rádio numa freqüência 11230, por exemplo, não pega. Claro que depende das condições do tempo também.” O aposentado espera que, depois da reportagem, o céu da cidade fique mais limpo.

Henrique Araújo, especial para O POVO |
SERVIÇO

EXPOSIÇÃO DE APARELHOS DE RÁDIO NO PÁTIO DO CENTER UM SHOPPING – (avenida Santos Dumont, 3130, Aldeota) todos os sábados, das 9 às 18 horas. Outras informações em 3261 9756. Fortaleza, CE

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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