Consagração no aterro da Baía Sul

O ano de 1980 foi maravilhoso, com pelo menos um grande show por mês para a RBS, além dos showmícios para ambos os candidatos ao governo do Estado nos melhores lugares da Grande Florianópolis.

rita004Nessa época participamos da inauguração da Praça Tancredo Neves, reinauguração da Praça Nossa Senhora de Fátima, no Estreito, e no espaço deixado pelo antigo Trapiche Miramar.

Mas o maior sucesso de todos foi a apresentação do Capuchon na abertura do show da Blitz ao lado da recém-inaugurada Rodoviária Rita Maria, quando o espaço era totalmente aberto até as imediações da Praça XV de Novembro, acumulando um público calculado entre 10 e 15 mil pessoas.

Era um dia frio, com forte vento sul, eu estava acamado com quase 40 graus de febre. O Miro foi me buscar de carro e saí de casa com um sobretudo quase até os pés e com minha roupa de shows por baixo.

Quando chegamos à concentração das bandas, atrás do palco, tive o desprazer de ver as bandas locais serem expulsas do palco ao serem agredidos por latinhas de cerveja e ramos com espinhos ao tentar tocar a primeira de três músicas determinadas para cada grupo.

O Júnior, da Cotempo, responsável pelo som de palco, já que a Blitz havia contratado a Transassom de SP para o PA, me informou que os shows locais deveriam ter começado as 18 horas e a Blitz entraria as 21 horas; porém, pelo atraso da empresa paulista na preparação do palco, as bandas locais só começaram a tocar as 20 horas, provocando revolta popular pois achavam que a Blitz nem viria. Assim, cada grupo que entrava no palco era expulso sistematicamente.

Seríamos a antepenúltima banda a se apresentar, depois de nós viriam o Olho D’Água e Decalcomania. Renato Botelho e Luiz Meira pediram para tentar subir ao palco antes de nós, no que, depois de conferência entre nossos músicos, concordamos. Mais uma vez, não conseguiram fazer o show.

Enquanto tocavam a primeira e única música que conseguiram executar, olhei para os amplificadores atrás do palco e descobri que, dos doze, apenas quatro estavam atuando e o pessoal que estava quase na Praça XV não conseguia ouvir. O som integral e perfeito estava reservado para a Blitz.

Revoltado pela desconsideração dos paulistas pelo som local, Júnior me pegou pelas pernas e me suspendeu o suficiente para ligar os demais amplificadores. Pelo radiocomunicador, os técnicos da Transassom tentaram ainda desligar os amplificadores, mas o Júnior se comunicou com seu irmão Sérgio que estava ao lado da mesa principal, dizendo que se alguém saísse de lá pra boicotar nosso som, este deveria “baixar a porrada”.

Com medo, se resignaram e o som explodiu na noite, porém o “Olho D’Água” já estava saindo do palco e não pode aproveitar a mudança de som.

Entrei no palco com meu sobretudo cinza, confesso que ainda temendo a reação da plateia, mas tivemos a maior surpresa de nossas vidas: o pessoal vibrou com “Todo Dia Cedo”, cantando junto a medida que a música evoluía, nos acompanhando com palmas no meio da música (só vozes e palmas) e nos ovacionado no final desta. Tirei meu casacão e minha febre sumiu, de repente, quando o público foi ao delírio!

Tentamos a segunda música “Domínio”, que começa com bolero e termina num heavy metal, sem nenhuma reação no inicio mas, quando entramos na parte heavy, o pessoal, a maioria sentada no chão, levantou-se e curtiu como nunca!

Não arriscamos a terceira e saímos do palco com “mais uma, mais uma”, surpreendendo produtores, técnicos e a nós mesmos.

Confesso que tive que esconder as lágrimas de felicidade, porém ainda sem saber se o que mudou foi apenas o volume do som; quando o Iran, da Decalcomania, a última banda local antes da Blitz, começou a cantar, as vaias e as latinhas voltaram a voar para o palco, confirmando que o Capuchon realmente agradou!

E, para completar, novamente surpreendendo, a Blitz não conseguiu fazer seu show com a mesma reação da plateia. Fernanda Abreu, ao ser atingida por espinhos, ainda xingou o público no microfone e Evandro saiu dizendo que nunca mais voltaria a Floripa, terminando a apresentação logo no início.

Não me subestimo, mas confesso que, se estivesse ali sozinho, pensaria ser apenas delírio provocado por minha febre ou algo parecido. Os próprios elementos do Capuchon parecem não ter, até hoje, consciência da dimensão daquele show, ao contrário de muitos ilhéus que ainda lembram do sucedido. Pena que a única gravação em VHS foi perdida na TV Barriga Verde, quando a emprestamos para editarem uma chamada para o show “Cavaleiro das Eras”.

Mesmo tendo posteriormente me apresentado com a Tok & Cor para milhares de pessoas em Portugal, nunca senti emoção mais forte em minha carreira de músico.

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