Conseguimos!

Com a economia de palavras que não só lhe peculiar como também característica, o simpático Dr. Cleones puxou triunfalmente o cronograma do bolso. Olhou para o repórter (que infelizmente havia saído sem cronograma) deu dois suspiros e botou o cronograma no bolso de novo. É que havia se enganado, puxando o fluxograma da estrada de Canasvieiras no lugar do cronograma da ponte. Guardado o fluxograma da estrada, o Dr. Cleones achou o cronograma da ponte. Aqui está o cronograma, disse o Dr. Cleones, com a segurança e a tranquilidade de quem sabe não o que está dizendo, mas principalmente o que está falando.

Conseguimos! Conseguimos! Exultou o Dr. Cleones, dando a nítida e íntima impressão de estar proferindo, naquele exato momento, um verbo histórico. Proferido o dito, pareceu ao Dr. Cleones que o Conseguimos! Ofegante e embargado soava algo parecido com um heureca ou um Alea jacta est, merecendo, dando pelo barato, um ou dois capítulos na gloriosa história de Santa Catarina, com prefácio do Dr. Cabral.

O simpático Dr. Cleones foi interrompido nos devaneios pela reação assustada do repórter que lhe segurava o ombro: O senhor está se sentindo bem, Dr. Cleones? O Dr. Cleones disse que estava e mandou buscar um cafezinho. Tomado o cafezinho, o Dr. Cleones falou.

Falou.

E falou.

E terminou: Conseguimos!

A empolgação cívica do Dr. Cleones é inteiramente justificada pelos fatos. É que, viajando por mares dantes nunca antes navegados e muito mais do que permitia a força humana, o Dr. Cleones conseguiu asfaltar os 800 metros da ponte, depois de uns nove ou dez anos de luta indormida.

Foi, realmente, uma guerra sem quartel, contando com a colaboração de todas as faixas da nossa comunidade.

Uma que outra, nesse decênio de batalhas contínuas, houve incompreensões, principalmente em virtude da inveja e do despeito de algumas vozes não autorizadas da imprensa, essa chata.

Mas, tudo isso foi vencido com galhardia.

A ponte aí está, cheia de asfalto, beijada pelo vento sul, devidamente emplacada,

Comemorada, fotografada, irradiada e televisada.

Esse Conseguimos! Do Dr. Cleones é mesmo um irreversível marco histórico, prova da nossa fibra e da nossa vontade, testemunha do dinamismo dos nossos dirigentes e dirigidos.

Tanto que até o ínclito presidente dos jornalistas apressou-se na solidariedade comovida e mandou um abraço ao Dr. Cleones e seu cronograma.

Este plumitivo também cumprimenta.

Cumprimenta aos cumprimentos com que o presidente dos jornalistas cumprimentou o Dr. Cleones.

E cumprimenta o cronograma.

Vivaaaa!

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O deputado Carvalho Sobrinho, dizendo-se especialista em versos, homenageou seu coestaduano e correligionário Gama e Silva, ex-ministro da Justiça e quase chefe da missão diplomática do Brasil em Portugal:

E quando Gama chegar

À pátria de Salazar

Como novo embaixador,

Alguém dirá no Estoril

Recém chegou do Brasil

Um notável caçador.

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Sibilina, ferina, maldosa e cruel é a piadinha sobre o Palácio da Cultura.

Dizem que quando perguntaram àquele sujeito distraído o que ele achava dos 10 andares para abrigar a cultura de Santa Catarina, ele comentou: Ué! E o que é que vão com os outros nove?

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Oportunas e atuais estas considerações do Jornal do Brasil: Virou moda agredir o jornalismo e debitar a ele a responsabilidade das causas, quando em verdade, a matéria-prima diária da informação são os efeitos. Administradores costumam  queixar-se de que os jornais fixam preferencialmente os aspectos negativos. A partir dessa conceituação equívoca sobre o papel democrático da informação, tendem à atribuir à essência mesma do jornalismo uma intenção extra, quando na verdade é a exceção que se torna notícia, e não a rotina.

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O vereador Murilo Vieira, desencantado e desiludido, pronunciou discurso pedindo o fechamento da Câmara Municipal como única fórmula para impedir o seu completo esvaziamento.

A gente nem sabia que ela estava aberta, né?

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