Conversando a gente se entende

[Publicado originalmente em 5/7/1999]

Uma das fórmulas mais antigas utilizadas para programas de TV é a da entrevista, o talkshow. Um perguntador conversa com alguém que teria alguma coisa interessante para contar. Em torno dessa base tão simples têm sido construídas infinitas variações, para todos os gostos e com os resultados mais díspares.

Algumas tentativas resultam em excelentes programas. Por exemplo, o Inside the Actor’s Studio (canal BravoBrasil, da TVA) em que um entrevistador conversa, diante de uma plateia, com atores e atrizes sobre suas carreiras e sobre o ofício de representar. Percebe-se que há, por trás de cada pergunta e guiando todo o encadeamento do questionário, uma apurada produção. Mas também há uma cuidadosa seleção de convidados. E o programa tem mantido uma animadora regularidade em seu padrão.

Por mais simples que possa parecer, para que a conversa entre duas pessoas resulte interessante a um número grande de espectadores é preciso preparar a conversa com grande esmero. Geralmente uma entrevista feita de improviso resulta chata e superficial. Mas se várias pessoas estudaram a vida e a obra do entrevistado e sintetizaram as principais questões a partir desse conhecimento, provavelmente o entrevistador terá mais condições de tornar a conversa algo que valha a pena acompanhar.

Foi por isso, acho, que quando Jô Soares anunciou seu projeto de talkshow, onde iria conversar com três pessoas por dia, algumas vozes comentaram a coragem desse empreendimento. Não que o entrevistador seja ruim. Nem que a sua equipe de produção seja fraca. Mas além de ter que localizar três personalidades interessantes por dia (umas 60 por mês?), teria que investigar com alguma profundidade a vida ou o tema da entrevista de todo esse pessoal. Não dá medo?

Muita gente ainda pensa que os programas de entrevista sejam mais baratos ou simples de fazer. O resultado, de fato, é muito simples. As variações ficam por conta da posição e do número de câmeras e dos dois contendores. Frente a frente, como no programa da Marília Gabriela. De ladinho, como no programa do Jô, ou lado a lado como no Inside the Actor’s Studio. Ou com um balcão no meio, como no Passando a Limpo do Boris Casoy. Isso, na verdade, é o que menos importa.

Ouvir é uma atitude que requer inteligência, generosidade e respeito pela humanidade. Entreter uma conversa interessante sobre temas que agucem nossa curiosidade também é uma demonstração de inteligência. A conversa é uma atividade social que só floresce adequadamente onde a intolerância e o ódio são mantidos à distância.

E por que essa conversa toda, séria e professoral, sem grandes novidades, nessa terça-feira tão movimentada? Primeiro porque talkshow bem feitos são muito civilizados e difíceis de encontrar. E são ótimos de assistir quando entrevistador e entrevistado acertam o passo.

E também porque queria falar do Roberto D’Ávila, que domingo à noite, na TV Cultura, deixou o Eduardo Bueno falar à vontade e mostrou que é possível dirigir a conversa sem falar mais que o entrevistado. Repetiu a performance da semana anterior, quando Bibi Ferreira, talvez estimulada pelo formato do programa, conversou mais gostosamente com ele do que com outros entrevistadores com quem esteve na mesma época, promovendo os eventos do centenário de Procópio Ferreira.

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