Conversas na sala de espera

UM – Julian Assange, o australiano do Wikileaks que revelou documentos secretos do governo americano, obteve asilo no Equador (Estados Unidos, por causa disso e Suécia, que o acusa de crime sexual, querem o gajo). E dai? Estranhas são as ilações que brotam dos analistas especializados. Com gesto o presidente equatoriano, Rafael Correa, salta (num passe de mágica) de notório censor da imprensa em seu país para defensor da liberdade de expressão na América Latina. De quebra, já há quem duvide do crime sexual de Assange na Suécia pelo liberalismo do país na área. Não sei do que a Suécia acusa Assange, mas Correa disse que tal atitude contra duas suecas não é crime no Equador (por que isso não me espanta?). Resumindo, Correa faz o que bem entender como presidente, inclusive dar uma de esperto e tirar proveito político do episódio, agora, o antiamericanismo tosco não pode nos cegar desse modo. Ou pode? A gente morre e não vê tudo, me disse o sisudo senhor da cadeira ao lado.

DOIS – É darwinismo? Para chegar à fase adulta precisamos perder a inocência. Ou melhor, esmagar a inocência! Discordâncias à parte, assim tem sido. Ninguém leva a sério o marmanjão com postura inocente e como é difícil fingir nesse quesito, o negócio (na boa ou na marra) é mandar a inocência às favas. Agora, vergonha na cara precisa ir junto? A indagação vem a propósito do desvio de dinheiro na filial brasileira da Cruz Vermelha (ajuda para Somália e vitimas do tsunami no Japão). Botamos a mão na grana que era a última esperança para milhares de pessoas: mães e crianças famintas, idosos doentes, refugiados sem eira nem beira, desabrigados de catástrofes. Sem força de expressão, roubam o pão da boca das pessoas. Pode? Nestes tempos modernos nada mais surpreende disse a senhora da direita. Deu ênfase nas palavras “tempos modernos”.

TRÊS – Quando falamos com o adolescente sobre o passado recente parecemos marcianos. Não damos morto por testemunha: nos lares não havia luz elétrica, água encanada, geladeira, fogão a gás, máquina de lavar roupa, ducha quente, telefone, TV, micro-ondas – a lista do que não havia dentro e fora de casa e agora fazem a nossa vida mais segura e confortável é tão grande que seria enfadonho escrevê-la. O vaso sanitário de hoje era a casinha lá no fundão da casa (tinha o pinico para desapertar nas noites de menos zero de temperatura) e… deixa assim. E as doenças? Aonde achar médico ou dentista? A vida não era a moleza de agora. Afinal, por que falar do assunto? Primeiro, por tentar lembrar o que os hippies queriam realmente e, segundo, porque o senhor da cadeira da frente (safenado que fez a vida no arado de boi), disse não entender porque a atual geração reclama tanto da vida e nunca está contente.

QUATRO – Eu ouvia atento e muito curioso a conversa em torno do julgamento do mensalão e, particularmente, a perplexidade dos interlocutores sobre os votos dos ministros Joaquim Barbosa (que condenou) e Ricardo Lewandoski (que absolveu) o deputado João Paulo Cunha, do PT de São Paulo. Um indaga: mas eles não leram o mesmo documento? Outro pede minha opinião. Cocei a barba para ganhar tempo, mas sou chamado e digo apenas: é questão de interpretação de cada um. Nem contei sobre lição (baseada em fato real ocorrido num júri) que um atilado professor nos deu um dia para mostrar a diferença entre três facadas nas costas e três facadas pelas costas…

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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