Cordas da esperança

Dia desses, vi um jovem tocando magnificamente um violão de sete cordas. Seus dedos, com o vigor e a agilidade da juventude, percorriam com intimidade o braço do instrumento, do qual extraía com precisão uma sonoridade que a gente está acostumada a ver produzida apenas pelos velhos músicos.

Pensei, então, naquele violão como as cordas da esperança, como a garantia de que nem tudo está perdido em meio ao mau gosto e à avassaladora sanha comercial que invade também o território sagrado da música, transformando-o num amontoado de sons lamentáveis e de letras de péssimo gosto e coalhadas de bobagens.

Além do mais, esse jovem instrumentista não estava sozinho. Seus companheiros de execução estavam todos aí pela casa dos vinte e poucos anos. E mais: tocavam um chorinho, esse gênero que se encontra tão entranhado, desde os tempos dos saraus, na alma musical dos brasileiros.

Enquanto via e ouvia os jovens vencerem, airosamente, as dificuldades impostas pelas filigranas do choro, tive a certeza de que a boa, a verdadeira, a inspiradora música popular brasileira tem seu futuro garantido, apesar das agressões que sofre, da falta de espaço que enfrenta e de todas as ações daqueles que insistem em apequená-la, diluindo-a na barulheira e mergulhando-a na chatice repetitiva.

Todos sabemos que o brasileiro é um povo musical por excelência. A miscigenação étnica garantiu-nos o ritmo, a inspiração, o sentimento e a criatividade suficientes para a composição e a interpretação de melodias. O ritmo está em nosso sangue, dizemos. Não obstante, o que vemos, geralmente, é gente, sobretudo jovem, com fones de ouvido de onde saem sons estridentes que talvez nem mereçam a classificação de música.

Abomino a xenofobia. Considero que as coisas são universais, transcendem as barreiras das culturas regionais e nacionais. A música, sobretudo, é planetária, está presente em todos os cantos, e deve fluir por sobre todas as fronteiras e para além de todos os interesses particulares. Não obstante, há que se reconhecer que existe uma globalização lamentável das porcarias musicais. A dinâmica de um mercado global acaba fazendo com que incentivar, financiar e produzir boa música nacional saia muito mais caro que comprar e assimilar. O que vemos, então, lamentavelmente, é a dimensão da arte, da criação, perder espaço para a comercialização desses arremedos de música que estão presentes por aí, emprenhando ouvidos e não contribuindo nada para a formação de um bom gosto musical.

Mas, a única forma de enfrentar com eficácia essa ameaça de empobrecimento da música e, consequentemente, do gosto musical e cultural em geral das pessoas, é construindo e preservando o que tem qualidade, o que é bom e belo. Isto é o que representa o jovem violonista que, para mim, tangia as cordas da esperança.

Ser um violão o instrumento dessa esperança também é significativo. Ele é um instrumento que resiste, por essência, à barulheira. Mesmo quando amplificada, ou convertida na modalidade estridente das guitarras, reparem, a sonoridade produzida pelas cordas tangidas, separadamente ou em conjunto, nas harmonias, está presente; para quem tem ouvidos de ouvir, ela está contida até nas distorções mais radicais de guitarristas de rock, se estes são realmente talentosos.

O violão é portátil, pode, portanto, ser carregado, tanto para as salas de concerto quanto para as ruas, esquinas e para todos os botequins onde confraternizam músicos da velha guarda com jovens que cultivam a música de qualidade. Por isso, talvez, ele seja o instrumento mais identificado com essa alma musical, sensível, romântica, dolente e muitas vezes brejeira, que traduz a brasilidade nos sons das melodias e nas palavras das letras.

Gostei muito de ouvir aquele violão de sete cordas. Fiquei certo de que, enquanto houver boa música, há esperança.

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