Córregos

Rios são poderosos. Exuberantes, sua correnteza demonstra magnificência e força. Lagos são plácidos. O espelho de suas águas transmite calma e serenidade. Mas são os córregos que me fascinam. Sobretudo os pequeninos. Um pequeno córrego é a perfeita imagem da vida, serpenteando liquefeita e cantando entre os abraços amigos de margens verdejantes. A sonoridade das águas de um córrego é inigualável. Quem pára atento e ouve, com os ouvidos do corpo e, sobretudo, com os da alma, tem muito a escutar junto a um córrego. É inconfundível o som da água lançando-se destemida de encontro às pedras: ora emite um som cavo, profundo, que pode lembrar gemidos ou aqueles suspiros que vêm do mais fundo do peito; noutros momentos, há silvos que induzem à alegria, à festa, à euforia.

Os sons dos córregos nunca se nos mostram sem acompanhamentos. Aqui, o pipilar de um pássaro que – hábil equilibrista – se lança de um galho para outro da árvore frondosa que ensombrece trechos da água com sua generosa ramagem. Adiante, o zumbido de uma mariposa milagrosamente equilibrada sobre um folha de capim. E o próprio rumor do vento, entre troncos, galhos e folhas completa a harmoniosa sinfonia audível junto a esses pequenos e lindos cursos de água.

Não existe nada mais acolhedor do que a margem de um córrego numa bela manhã de sol primaveril. Tudo o mais desaparece; a vida se concentra nesse perpétuo fluxo vital do pequeno córrego.

Nada traz maior sensação de paz do que poder sentar numa pedra dourada pelo sol e ao mesmo tempo levemente atingida pelos borrifos da água de um córrego.

Pode-se, então, contemplar as águas, rápidas aqui e, acolá, tranquilas, nos remansos formados entre as pedras. Esse lagos em miniatura podem nos oferecer ainda, como um brinde, a visão de peixinhos nadando graciosamente em águas límpidas – pequenos seres que expõem seus corpos à luz do sol e, muitas vezes, num complexo balé acrobático, pulam fora da água e se oferecem à carícia da brisa.

Imensamente gostoso é também o contato do corpo com a água. Mergulhar a mão, vagarosamente, na água fria é delicioso. Deixar a água correr sobre o pé dá calafrios e uma indescritível sensação de refrescante prazer.

Caminhar por uma estradinha de terra perdida nos confins do campo e começar a ouvir, lá de longe, o ruído ainda meio indistinto da água que rumoreja é ser presenteado pela vida. Aos poucos o cheiro da terra e do mato cortados pela água nos invade. De repente, a vegetação muda; o verde se torna mais concentrado, mais escuro; surge, então, uma grota funda, berço natural do pequeno córrego.

Às vezes, se custa a divisar a água límpida, de tal modo se encontra envolta pelas plantas, como uma exército protetor vestido de verde: o capim exibe suas lanças pontiagudas em direção ao céu; árvores grandes e pequenas entrelaçam suas copas. Aos poucos, se vislumbra a água correndo livre e rebrilhando à luz do dia.

Próximo da água, quase sempre se vêem as flores brancas  chamadas de “copos de leite”. Os cálices delicados, na ponta de hastes muito finas, parecem estar sendo mergulhados na água pelas mãos de algum deus sedento, amável e pronto a partilhar conosco a água fresca e o pouso tranquilo.

À margem de córregos é comum encontrar a taioba, vegetal comestível, de folhas largas e ovais. Delícia das delícias é colher a água gelada e cristalina numa dessas folhas e sorvê-la devagar, agradecendo a benfazeja oportunidade que o córrego nos oferece para matar a sede.

Córregos são sempre abençoados. Quando nos acercamos deles, essa bênção liquefeita e cantante nos atinge também. Depois de parar nesses lugares bucólicos, depois de respirar o ar que os envolve, depois de termos refrescado o corpo e de ter banhado também a alma, podemos seguir, pois estaremos diferentes, contagiados pela beleza,  singeleza e nobreza humilde dos córregos, que lá continuarão a cantar e encarnar a simplicidade e a importância da vida.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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