Crônica da Cidade

Hoje, por ser de aniversário, um presente especial, mesmo sem o consentimento do autor.

Réquiem pelo Ponto Chic
por Sérgio da Costa Ramos

O Café Nacional, esquina de Praça XV com Felipe Schmidt, era um reduto do PSD – e ali se instalavam as conspirações do partido. Vinte metros adiante, no Café do Quidoca, o “Rio Branco”, hospedavam-se os da grei oposta, a UDN – todos turbinados pela nova democracia do pós-guerra. Corria o ano de 1948, e no rádio tocavam os prefixos da época, o choro “Brasileirinho”, de Valdir Azevedo, ou o bolero “Quizás”, de Don Fabian.

Até que, quebrando a universal dualidade da ordem florianopolitana, surgiu, na esquina de Felipe com Trajano, o Ponto Chic, ao pé direito do novíssimo hotel, o Lux. Tudo em Floripa se organizava sobre esse universo dual: o PSD dançava no Clube Doze e tomava café no Nacional. Torcia pelo Avai nos campos e pelo Martinelli nas raias. A UDN valsava no Lira, tomava café no Quidoca, vibrava pelo Figueirense nas quatro linhas e, na baía sul, aclamava o “Aldo Luz”.De repente, essa ordem firmemente estratificada foi modificada pelo Ponto Chic e seu novíssimo café expresso, num tempo em que nada era muito “rápido”. Ser “expresso” era tomar a rubiácea concentrada, em pé, no balcão.

Pequena heresia contra a prática dos antigos “redutos”: o café servido em bules, todo mundo sentado em mesinhas e solfejando a última grande fofoca política ou “paisana”. Se alguém se valia de “expressos”, não era café. Mas o livre expressar de causos e de boatos – cuja central se fixou naquele perímetro, até que surgisse o “Ponto Chic”.

Ali, início dos anos 50, já sob os acordes de “Kalu” e “Lata d”Água”, ou de “Ninguém me Ama” e “Risque” – “cotovelos” de Antônio Maria e Ari Barroso – o PSD transformado em Oposição, a UDN inaugurando-se no poder, começou a reinar o “Ponto Chic”, absoluto, como a grande central florianopolitana de fatos e boatos.

O café que alimentava a nova usina da “Polis” passou a ser servido “em pé” mesmo. E as rodinhas, ecumênicas, espraiaram-se pela esquina, formando o “plenário” onde se fiavam conversas e se exerciam mandatos honorários. A raiz da denominação “Senadinho” há de ter muitas origens, dentre elas a de que, certa tarde, o governador Irineu Bornhausen convocou ao palácio seu demiurgo popular, ninguém menos que o ladino Alcides Ferreira.

Querendo tomar a temperatura política da cidade sobre tema que mexia com a opinião pública, Irineu perguntou ao seu “chefe de bancada”:

– O que é que a Felipe está dizendo?

A resposta foi mais detalhada e precisa do que pesquisa do Ibope.

Logo seu homem na “Felipe” passou a ser seu líder no “Senadinho”, o Senatus Populusque Romanorum, a maior central irradiadora de “factos e factóides”.

Ali, o boato ganhava foros de verdade. Ou de galhofa. O Senadinho virou crônica de meu amigo Jair Francisco Hamms. “Central de Boatos”. “Feito a verdade, feito os fatos, os boatos surgem, também, subitamente, espalhando o riso, esbugalhando olhos admirados, provocando bocabertas de incredulidade, semeando aborrecimentos, cutucando a ira, alimentando recalques, despertando chacota”. Jair acompanha o itinerário dos boatos:

– Também, feito a verdade, o boato, ligeiro, ganha pernas, entra nos botequins, passeia nas repartições, abre as portas dos palácios, vai à mesa do juiz, anda de táxi, voeja nos bares, ecoa nos estádios, ganha as saunas, diz presente às aulas, faz ponto nas esquinas.

Fazia. A esquina do “Senadinho”, esse ponto referencial da memória da cidade, fechou suas portas, morreu em silêncio. Não é boato. Dizem que vai se transformar numa financeira, como todas as esquinas do Brasil argentário. Choremos a Missa de Réquiem pelo Ponto Chic.

 

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