Crônica para um político fora de série dos anos 50!

Quantos políticos de agora merecem honraria igual? Leia…
A transcrição por inteiro do artigo Uma boneca para Beatriz, escrito por David Nasser na edição de 16 de janeiro de 1960 da extinta revista O Cruzeiro, é apropriada para a época de fim/início de ano e serve de exemplo para muitos políticos desonestos que, ano após ano, infestam o Brasil.

Uma boneca para Beatriz

No meu caderno de notas, encontro uma referência ao último Natal: uma boneca para Beatriz. Beatriz é uma menina de oito anos, filha de um velho amigo meu morto este ano. Chamava-se, o pai de Beatriz, Abilon de Souza Naves e era político, mas, sobretudo homem de bem. Lidava com bilhões e morreu pobre. Conseguiu o pai de Beatriz, manter-se incólume, apesar do tempo em que esteve na presidência do IPASE e em outros cargos importantes, onde o dinheiro corria igual a um rio, sempre para o mar. Naquele instituto de previdência, Souza Naves resgatou débitos que se elevavam a mais de um bilhão de cruzeiros. Numa das carteiras mais difíceis e cobiçadas do Banco do Brasil, a que lida com a agricultura e a pecuária, passou também intacto.

Pobre como nasceu, Souza Naves morreu. Deixou para a família um montepio de oito mil cruzeiros e uma casa no Paraná, comprada a prestações. Muita gente, ao saber, depois de sua morte, que era pobre de verdade, começou a dizer que Souza Naves não devia ser muito certo do juízo. Então, um homem que ocupa no Brasil esses lugares-chave, morre assim, sem fortuna, tal qual iniciara a vida política há dez ou quinze anos? Houve alguém que me disse não passar essa honestidade de uma espécie de traição à família. – “Não é preciso roubar para ficar bem. Basta, apenas, trabalhar com a cabeça”.

Souza Naves, seu pai, Beatriz, não trabalhou com a cabeça. Quando lhe diziam que era preciso deixar tantas suscetibilidades de lado e, sem ser desonesto, sem trair a consciência, garantir o futuro das meninas, ingressando em alguma empresa sólida, uma companhia de seguros, por exemplo, que necessitasse de figuras de prestígio, ou um banco que tivesse precisão de um testa-de-ferro, Souza Naves abanava a cabeça. Não era de seu feitio. Tinha horror aos algarismos. Mas de que a sua prole vai viver, se você lhe faltar, Souza Naves? Ele citava um trecho bíblico, aprendido no sertão ou ao tempo em que era vendedor pracista. “Olhai as aves do céu, que não tecem nem fiam. No entanto, Salomão, com toda a sua riqueza, nunca se vestiu com tanto esplendor.” Falava da Natureza. A Natureza, a seu ver, tomaria conta de tudo. Veja, dizia, os pardais. Os filhotes se alimentam sozinhos e ninguém vê pardal morto na estrada
.
Souza Naves tinha um coração doente. Parece que era mal hereditário, o pai e quatro irmãos haviam morrido das coronárias. Não tardaria muito a chegar a sua vez. Ficaria bonito dizer aqui que Souza Naves não temia a morte. Temia, sim. Sua vida era agradável, sua esposa um encanto de mulher, suas filhas, entre as quais Beatriz, outros encantos. A política o fascinava. Ele era hábil estrategista das massas, embora não fosse um gênio. Se procurássemos uma qualidade excepcional, não a encontraríamos em Souza Naves, porém a média de suas qualidades era tão bem dosada que se tornara um homem excepcional. Suas atitudes não levavam a preocupação da originalidade. No entanto, eram atitudes inteligentes. Ninguém se esquece de como preparou o lançamento de Jânio Quadros pelo Partido Trabalhista. Sabe Deus como deve ter sido magnífico o duelo político daqueles dois homens de inteligências e métodos diversos. Em Souza Naves, o equilíbrio e a rotina. Em Jânio, o inusitado e a aventura. Em Souza Naves, a linha reta. Em Jânio, o vôo sinuoso. Um e outro eram, contudo, duas forças mentais apreciáveis. Uma, postada no andar térreo, ao nível da rua, ao rés do chão, em contato com a realidade, amoldada às regras. Outra, nos altos e baixos de uma vida política, toda ela feita de êxitos fulminantes, era a vitória contra o hábito. Não se sabe como se aproximaram nem como se compreenderam, em que linguagem falavam. Apenas que se fizeram amigos e iam cumprir juntos a próxima etapa, quando a morte colheu um deles. Precisamente Souza Naves.

Dizem que Jânio Quadros não tem amigos definitivos, mas interesses definitivos. Diziam que largaria Souza Naves no meio da estrada, como dizem ter abandonado uma porção de amigos depois da vitória. Não sei de nenhum caso. De minha parte, nunca acreditei que Jânio fizesse isso, mesmo porque seria politicamente um erro. A eleição de Souza Naves, ao governo do Paraná, seria uma nomeação, uma passeata, um “referendum” popular. Para ter em suas mãos a província do futuro, Jânio precisava do apoio de Souza Naves, enquanto ele, Jânio, estivesse no Governo. Souza Naves conhecia a força de que dispunha e preparava despreocupadamente o maior governo que, depois de Manoel Ribas, o Paraná iria conhecer. Isso, se o seu baqueado coração tivesse permitido.

Tal não pôde ser. O coração de Souza Naves deu prego antes do Natal, antes das eleições, antes do passeio. Certa vez, alguém lhe disse que o Barros de Carvalho se submetera, na Alemanha, a uma limpeza dos vasos. Tratava-se de um novo método eficiente, capaz de prolongar a vida dos enfermos do miocárdio. “Ah, se eu pudesse ir lá. Haveria um jeito?” Espiei bem a face do mineiro padronizado. Um jeito? “Ora, Souza Naves” – disse-lhe – “todo mês vai uma comissão do Senado a alguma parte. Entre numa que vá à Alemanha”. Souza Naves abanou a cabeça. Desse jeito, não queria. Não foi. Veio uma crise e morreu. Teria sobrevivido se tivesse feito a viagem? Não entendo de coronárias, mas, entre a vida e a morte, é sempre melhor tentar o duvidoso. E ele tinha horror ao duvidoso.

Muitas vezes, aquela honestidade me parecia exibição. Vai ver, pensava este repórter arguto (que não passava, já o vereis, de um grande imbecil), vai ver que depois da morte, o pé-de-meia aparece. Não apareceu pé-de-meia algum. O apartamento de Souza Naves em Copacabana era alugado. A viúva e as filhas sabem que a pensão do Estado não chega para o aluguel e vão transferir a residência para Curitiba, onde o finado deixou uma casa, agora resgatada pelo seguro de carência.

Durante algum tempo, velho Souza Naves, alguém falará em seu nome. Todos se espantarão durante algum tempo com a história do político que tinha horror à negociata. Haverá, mesmo, quem lamente não tenha sido embalsamado e exposto num sarcófago de vidro, o brasileiro que transitou em tantos postos da vida pública – e conseguiu morrer pobre.

Permita, minha pequena Beatriz, relatar-lhe um episódio que doutra maneira jamais viria a público. Seu pai, que apesar de trabalhista, era meu amigo, passeava a meu lado, dias antes do outro Natal, pela Rua Sete de Setembro, quando seus olhos caíram sobre uma boneca na vitrina. Parou alguns minutos. Era uma boneca loura de olhos azuis. Dizia papai, mamãe e andava, segurada pelo braço. Sousa Naves entrou, perguntou o preço e saiu sem comprar a boneca, “A Beatriz gostaria”, comentou, “mas é cara demais”. A eleição havia arrasado a sua parca economia. De minha parte, nem pensei em comprá-la. Sabia como ele ficaria. Creio mesmo que teria cortado relações com o velho amigo. Imaginava o Souza Naves, num aeroporto qualquer, em Cafeara ou em Maringá, abrindo os braços, nervoso e ríspido, a perguntar-me se eu queria suborná-lo com uma boneca de olhos azuis.

Aquele Natal passou e, antes de o outro chegar, perdemos o Souza Naves num fim de semana no Paraná, aonde ia quatro vezes por mês. Aquilo que ele esperava, o miocárdio, aconteceu numa reunião política. O povo inteiro o acompanhou, chorando pelas ruas, através de dois quilômetros. Não havia automóvel que chegasse. Os cafeicultores, para cuja reabilitação econômica havia imaginado e obtido uma lei de dilatação do prazo de pagamento da dívida para oito anos, vinham trazer ao amigo morto, o único presente que ele não poderia recusar: frases de adeus, coroas de flores e muitas lágrimas. – “Me lembro quando ele chegou aqui, vindo de Minas” – dizia um jacu de Sertanápolis. Tinha ganhado metade da sorte grande na loteria, antes de 1930. Eram uns quarenta contos, porque a outra metade, o Souza Naves deu ao bilheteiro que lhe vendeu o prêmio. No trabalho em jornal foi vendedor na praça, mas nunca teve jeito para ganhar dinheiro. A política era a sua vocação e nela fez carreira. Sempre de bolso vazio. Eram os amigos que custeavam a sua propaganda, contra a sua vontade. Souza Naves achava que tudo isso era bobagem. “Os eleitores me conhecem: votam ou não votam em mim. Cartazes, berreiro de alto-falante, nada disso adianta, não faz mudar a direção do voto”.

Parece que tinha razão, concluía o jacu, porque Naves sempre ganhava as eleições. Não só ele, mas todos aqueles que ele apoiava. Veja o caso Iberê de Matos. Veio aqui como visita. Todo mundo viu que era homem direito. Souza Naves o apoiou para a Prefeitura de Curitiba – e agora faz uma excelente administração. – É bom o Iberê, mas, como o Souza Naves, não há.

Aconteceu, Beatriz, que me lembrei de tudo isto ao ver a anotação da boneca em meu velho caderno de notas. A palavra boneca e logo a seguir, o seu nome, Beatriz. A princípio, não atinei com a história. Boneca? Beatriz? Para quem era a boneca? Quem era Beatriz? Logo a data me avivou a lembrança: 24 de dezembro, véspera de Natal. Lembrei-me daquela caminhada ao lado de seu pai, pela Rua Sete de Setembro, a parada em frente à vitrina, o ligeiro exame da boneca de olhos azuis (você tem olhos azuis, Beatriz?), a consulta ao preço, a saída desanimada. Se eu tivesse contado a alguém que Souza Naves, depois da eleição, à véspera do outro Natal, não possuía dinheiro para comprar um boneca para Beatriz, ninguém acreditaria. Ele mesmo tratou de desfazer a lenda, durante um almoço: – “Para uma boneca, eu tinha. Mas minhas filhas são duas. Não é só Beatriz, não”.

Suponho, meu anjo, que você tenha de fato olhos azuis. Do contrário, seu pai não teria parado aquele minuto em frente à boneca nem dito aquela frase: – “A Beatriz iria gostar”. Mas era um justo em casa, na rua e consigo mesmo. Não podia dar duas bonecas, não deu nenhuma. Nem permitiria que alguém o fizesse. “E se você morrer do coração, Souza Naves? Quem vai cuidar de suas filhinhas?” E ele aí me respondeu: “Olhai as aves do céu, que não tecem nem fiam. No entanto, Salomão, com toda a sua riqueza, nunca se vestiu com tanto esplendor”. Parece-me ouvi-lo, na resposta, a falar da Natureza que cuida de tudo, dos pardais, dos filhotes de pardais que sobrevivem ao vento e ao frio – e vejo todo esse milagre nesta boneca de olhos azuis que lhe estou mandando Beatriz, agora que seu pai não está aqui para me proibir.

P.S.: Caros Ouvintes leitores façam cópias desse maravilhoso artigo de David Nasser e o enviem para pessoas conhecidas, inclusive políticos. Neste 2010, ano de eleições, mesmo que a missão seja bem difícil, precisamos descobrir e eleger gente com o perfil do saudoso e raro político Abilon de Souza Naves.

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Por Jair Brito

Jornalista de rádio e TV nasceu em Joinville/SC. Iniciou a carreira de radialista profissional como discotecário programador. Dirigiu emissoras de rádio em Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. Foi produtor executivo de TV dos programas Ferreira Netto (SBT), Hebe Camargo e Crítica e Auto Crítica na Bandeirantes. (In memoriam).
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