Cruz trouxe seu vento

Cruz e Sousa veio do espaço etéreo, chamado pelas homenagens de seu aniversário, joviais 154 anos.

Fazia frio demais e resolvemos partir

Fazia frio demais e resolvemos partir

[Por Sérgio da Costa Ramos, DC, 25/11/2015]

O poeta chegou nas asas do seu vento particular, o vento sul, refrescando a Ilha e fazendo vibrar as vidraças, sob a luz bruxuleante de um lampião, ali na esquina de Conselheiro Mafra com Trajano — no seu tempo, Rua do Príncipe com Rua do Livramento.

Dobrei-me, reverente, diante do Príncipe do Simbolismo e tive a comichão de saudar o negro com uma de suas notáveis aliterações e jogos vocálicos:

— Que vozes veladas, veludadas vozes te saúdem ó poeta dos violões que choram!

Percebi que a luz não vinha de um lampião, mas de uma prosaica luminária de mercúrio, que tornava lívida a face do poeta e prateava a sua carapinha.

— E aí, meu Cruz, como têm sido esses teus anos de eternidade?

Número encantado estes 117 anos, durante os quais o poeta libertou-se das crises terrenas em março de 1898. Aureolado pela luz dos seres evoluídos, já não sente a agonia das hemoptises, a dor da tuberculose ou do preconceito, o sofrimento da vida foi recompensado pelo repouso da morte e pela elevação do espírito.

A dor que hoje deveras sente ainda é pelos que aqui vivem e padecem das feridas do existir. Cruz, onde hoje está, não precisaria subscrever os versos de “Vida obscura”:

“Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,

Ó ser humilde entre os humildes seres.

Embriagado, tonto de prazeres,

O mundo foi para ti negro e duro.”

O bigode azulado pela luz fria, o “bombril” grisalho brilhando sob um facho da luminária, o poeta me saudou com olhos compassivos.

E depois moveu os lábios, para as primeiras palavras:

— Desterro está mudada. Superpovoada. Vejo a pobreza descendo os morros para a periferia da vida. A luta pela sobrevivência apenas se acirrou, sem se humanizar. Ah, meu amigo, o homem continua sendo um lobo carnívoro que se alimenta da carne dos mais fracos…

O poeta está triste porque sabe que a crise penaliza os mais pobres e os destituídos, chamando desgraças que se espalham pelo mundo, como uma peste.

— É iníquo que os que nada usufruíram paguem pelos perdulários!

O negro divino coçou a carapinha, agradeceu as homenagens e reassumiu o seu posto no panteão dos poetas, declamando o verso final do “Velho vento”:

“Eu quero perder-me a fundo

No teu segredo nevoento,

Ó velho e velado vento,

Velho vento vagabundo!”

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