Cuba e o nada cotidiano

Com a prisão da blogueira Yoani Sánchez por banalidade os cubanos voltaram à imprensa mundial. Cuba, a utopia que adernou na praia mansa de mar verde, chama as atenções do Planeta justamente por isso: lá a banalidade faz história. Esse que já foi o país mais próspero do Caribe e agora volta ao passado para ver se consegue viver sem esmolar continua nos fascinando. Até o romeno Eugene Ionesco (cujo país sentiu na carne o que sente a ilha) teria dificuldades para descrever o que sempre ocorreu e o que ali ocorre após desandar o império da URSS. A coisa chegou num ponto que Fidel, encabulado, pediu ao irmão Raul recolocasse a ilha em 1959: “vamos recomeçar tudo”, ordenou. Mesmo assim não é fácil relatar o que ocorreu quando quem sonhou muito alto se recusa a acreditar no que enxerga ao acordar. Certo ceticismo é até natural: outro dia, na fruteira, o cidadão me chamou de ingênuo por eu dizer que o homem tinha posto os pés na lua.

Depois que o socialismo real foi pro brejo e a mesada comunista evaporou, Cuba passou a ter, basicamente, três fontes de dinheiro para seguir mantendo conquistas, como por exemplo, pagar vinte dólares mensais ao médico: 1) os dólares imperialistas remetidos de Miami pelos gusanos; 2) entrega das praias e belezas naturais ao capital internacional para, junto com a mística da revolução, atrair milhões de turistas todo ano; e 3) o turismo sexual que o governo finge não existir embora ainda tenha um Comitê de Defesa da Revolução (o famoso CDR, que aglutina especialistas em esticar o indicador para delatar) em cada quadra É por isso que, com toda a penúria, três tipos de pessoas tem grana no bolso: homens da nomenclatura, empresários do turismo e prostitutas.

Mas, voltando ao que interessa, depois de 50 anos de propaganda é complicado crer que basta algumas linhas para descrever um lugar. Assim, por sorte, lendo “O nada cotidiano” romance da cubana Zoé Valdés, que deve ainda estar na França, achei um trechinho interessante para dar um retrato três por quatro do estrago feito nesse país.

Leiam a romancista Zoé (que chegou a ter alguns privilégios antes de abandonar seu país) com atenção: “Já não sou aquela garotinha chorosa e assanhada. Agora, ou passo o dia todo no mundo da lua, ou vou até o Malecón vender em dólares, para as garotas de programa, a roupa que já não entra em mim, ou trocar açúcar por inhame, inhame por feijão, feijão por cebola, cebola por arroz, arroz por leite em pó, leite em pó por detergente, detergente por aspirinas, aspirinas por açúcar e assim por diante… nos mercados negro e vermelho, que é a mistura dos ladrões estatais com o coitado do povo que, por razões óbvias de humanidade vai ter que delinquir para sobreviver”.

Zoé completou com rara felicidade: “Fizemos uma Revolução maior do que nós mesmos. E de tão grande ela foi esmagada pelo próprio peso”. É contra isso, ou seja, o nada cotidiano que vem lutando bravamente Yoani Sánchez a quem o sistema deve chamar de verme como chama Zoé.

Ivaldino Tasca, jornalista | iatasca@uol.com.br

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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