Cultura AM Mais Feliz com Jesus começou como Rádio Anita Garibaldi

A atual Rádio Cultura Mais Feliz com Jesus nasceu da semente plantada no dia oito de novembro de 1951, com o nome de Rádio Anita Garibaldi. Essa é a data da certidão de nascimento da Sociedade por Quotas de Responsabilidade Limitada registrada pelos irmãos Julíbio Jupy Barreto e Pery Dácia Barreto.

JJ Barreto (D) na Churrascaria Riosulense onde costumava almoçar uma vez por semana nos anos 2000. Foto acervo ICO

JJ Barreto (D) na Churrascaria Riosulense onde almoçava uma vez por semana nos anos 2000. Foto acervo ICO

Julíbio Jupy, mais conhecido como “JJ Barreto”, muito popular como médico humanitário que fazia questão de não cobrar consultas de pessoas sem maiores recursos, eram também chefe do setor Médico do DCT – Departamento dos Correios e Telégrafos, em Florianópolis, e o segundo, Pery Dácia Barreto, era advogado residente no Rio de Janeiro.

“Eu era muito menino, eu não devia ter 14 anos, lembra Cyro Barreto. Mas a idéia surgiu de uma conversa com o jornalista Alírio Bossle que tinha em Santo Amaro da Imperatriz um transmissor de rádio que havia sido desativado”. (…) Esse transmissor, adaptado por Walter Lange Júnior, funcionou durante mais ou menos uns dois anos nos porões do consultório do Dr. JJ Barreto, na rua Arcipreste Paiva nº 5, de frente para a Catedral Metropolitana.

A emissora começa precariamente transmitindo em períodos de duas horas, depois quatro, até seis horas, enquanto as válvulas pudessem suportar. “Nós tínhamos um grande técnico que era Walter Lange Júnior. Ele, com outro técnico chamado Huberto Hubert garantiam o funcionamento e as transmissões diretas dos estádios esportivos, dos comícios políticos e também das missas e das procissões na Catedral Metropolitana”, completa Cyro.

Mesmo assim, acontecia de a emissora ficar fora do ar até por mais de uma semana, pois ainda não havia uma estrutura definida de programação e nem de pessoal qualificado para as diferentes funções. Outro empecilho era a irregularidade no fornecimento da energia elétrica. À noite, por exemplo, entre 18 e 21horas dificilmente a tensão passava dos 190 volts, o que representava diminuição de potência do transmissor e consequente enfraquecimento da capacidade de recepção na casa dos ouvintes.

As instalações da emissora eram constituídas de três modestos ambientes nos porões do consultório do doutor JJ Barreto: no primeiro ambiente estavam o transmissor, os toca-discos, a mesa de controle e a cadeira do operador de som; no segundo havia uma pequena mesa com o microfone e a cadeira do locutor; e no terceiro, se alojavam os discos que compunham o acervo da discoteca formado pelos discos em 78 rpm com uma música de cada lado, alguns compactos também com uma música de cada lado, mas já em 33 ou 45 rpm e long-playings (LPs) – que hoje os pesquisadores chamam de vinil, porque eram prensados nesse material.

Mesmo com limitações técnicas, a Rádio Anita Garibaldi ensaiava um estilo de programação com forte conteúdo popular com o qual pretendia competir com a pioneira Guarujá e com a potência que seria a Rádio Diário da Manhã.

O grande teste surgiu em agosto de 1954. Getúlio Vargas, presidente da República, suicidou-se com um tiro no peito na madrugada de 24 daquele mês. A notícia explodiu nos ouvidos do Brasil pelas ondas do rádio.

Em edição extraordinária, o Repórter Esso da Rádio Nacional do Rio de Janeiro confirmava a tragédia, na manhã do dia 25.

Em Florianópolis, o hoje advogado Ivilten Barreto, então operador de som da Rádio Anita Garibaldi, relembra: “nossa primeira grande cobertura foi do suicídio do presidente Getúlio Vargas”. E Cyro Barreto completa: “Ficamos direto no ar durante dois dias e duas noites. Montamos um esquema de cobertura que dava ao ouvinte a sensação de estar presenciando os fatos onde eles estavam acontecendo.

As notícias e reportagens eram reproduzidas das emissoras do Rio de Janeiro, e num grande lance de ‘criatividade’ simulamos entrevistas com autoridades públicas como ministros, parlamentares – deputados e senadores – e até militares ‘falaram’ ao nosso microfone. Todos lamentando o ocorrido”.

Animados com a repercussão da ‘cobertura jornalística’, os dirigentes da emissora decidem contratar profissionais para aumentar o poder de fogo demonstrado pelos pioneiros integrantes da família Barreto. Cyro e Aibil Barreto passam a contar com o talento e a tarimba de profissionais vindos do interior de Santa Catarina, do Paraná e Rio Grande do Sul.

Os pioneiros que ajudaram nessa fase eram idealistas. Só mais tarde, chegaram os radialistas profissionais: Alfredo Silva, Salomão Ribas Júnior, Lourdes Silva, José Mauro, Osvaldo Rubim, João Décio Machado Pacheco, Nilson e Santa Mello, entre outros.

“A rádio foi ao ar no dia 13 de agosto de 1954, uma sexta-feira e, no dia 25 de agosto, uma quarta-feira”, afirma o hoje advogado Ivilten Barreto dos Santos, que acompanhou a instalação da emissora .

Também em 1954, a Rádio Anita dá o seu grande passo para a maturidade operacional. Sai do acanhado porão do consultório do Dr. JJ Barreto, na rua Arcipreste Paiva, nº 5 e se transfere para a rua João Pinto, no prédio onde funcionava o Clube de Regatas Aldo Luz.

Concluída a fase experimental, a emissora passa a operar com 500 watts de potência, na freqüência de 1.110 KHz com o prefixo ZYT-25, conforme outorga constante do Decreto nº 37.336, 12 de maio de 1955.

Com o slogan “O Coração Palpita Quando se ouve a Anita”, a emissora lançou programas que se tornaram famosos: “Retalhas D’Alma”, “Discoteca do Ouvinte”, “Um Tango à Meia Noite”; os programas de auditório e os shows promocionais nos quais artistas famosos lotavam o auditório e às vezes até interrompiam o trafego na acanhada rua João Pinto.

Em 1961, a emissora passa por outra transformação. Sai o sócio-fundador Pery Dácia Barreto e entra Nelson Alves de Paula Almeida que assume 50% das cotas da sociedade e a direção da emissora.

“Ao sócio Nelson Alves de Paula Almeida cabe exclusivamente, sem interferência do outro sócio, a direção comercial e política da Rádio Anita Garibaldi Ltda”. Essa ressalva enfatiza a informação de que a emissora na realidade havia sido adquirida pelo empresário e líder político do Partido Social Democrático – PSD, Aderbal Ramos da Silva. Desse período ao final da década de 1960, a emissora oscilou entre a glória dos anos de 1950 e o declínio que o rádio AM sofreu durante a fase mais atuante da ditadura militar a qual o país fora submetido em 1964. Nesse momento, o canal ocupado pela Rádio Anita Garibaldi até  foi vendida para a Rádio e Televisão Cultura S/A, capitaneada por Darci Lopes e passa usar o nome fantasia de Rádio Cultura conservando o prefixo, a freqüência e a potência.

“Eu procurei fazer uma emissora bem funcional. Ela funcionava só com dois funcionários. Tudo era gravado, até a hora certa era gravada e o operador largava. O noticiário ia por via telefônica. Era produzido na televisão e ia por telefone pro operador da rádio. Só tinha um operador. No princípio o faturamento da rádio não correspondia, mas depois eu consegui equilibrar e passou a dar lucro. Pouco, mas dava. A potência acho que era um kWatt ”.

Assim, a Rádio Cultura vai oscilando até ser vendida em 1982 para o Grupo Freitas, passando a integrar a RCE – Rede de Comunicações Eldorado, com sede em Criciúma.

Em 1985, a concessão é novamente negociada, passando para as mãos de outros membros da família Freitas que não têm vinculação com a parte operacional do meio rádio. A Rádio Cultura foi arrendada sucessivamente até o canal ser vendido para a “Comunidade Divino Oleiro, formada por leigos da Renovação Carismática Católica (RCC)” de Florianópolis em outubro de 2003.

Rádio Cultura AM Mais Feliz com Jesus – ZYJ 752 – 1.110 KHz  – Florianópolis |  Associação Fraterna Divino Oleiro (Texto

de Antunes Severo e Marco Aurélio Gomes, organizadores do livro Memória da Radiodifusão Catarinense, publicado pela ACAERT com edição da Insular de Florianópolis, em 2009).

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