Curiós

Era fim de outono, começo de inverno. O dia amanheceu bonito, mas no final da manhã fechou de repente como resultado de uma frente fria vinda na garupa do vento sul. Eu me dirigia ao Centro, de ônibus. A chuva caiu. Chuva com vento é “fogo-na-rôpa”, não tem escapatória. Não tem sombrinha, casaco, nem cabelo que cumpram sua função. Cada vivente que entrava vinha encharcado e reclamando. O ônibus apinhado e o cobrador pedindo: – Um passinho à frente aí, fazendo favor… (na época entrava-se pela porta de trás, por isso “o passinho à frente”).

De repente, ali na altura do antigo Hospital da Marinha, ele entrou. Eu o conhecia desde os meus quinze anos (lá se vão algumas décadas), quando eu estudava no Coração de Jesus. Era magro, de estatura mediana, o cabelo ralo sempre bem penteado, muito simpático e educado.

Todos os dias, na saída do Colégio, depois, é claro, de pentear os cabelos, passar batom e saborear uma bala Pipper, rotina de todas as moças que tinham namorado encostado no muro à espera, eu passava na banca de revistas onde ele trabalhava. Olhava tudo e, quando a mesada permitia, até comprava alguma coisa, mas ele não se importava com isso e sempre puxava um dedo de prosa.

Entrou no ônibus encharcado, desgrenhado, tiritando de frio, os lábios roxos, o pouco cabelo escorrendo água. Chamava a atenção o fato de estar só de camiseta, os pêlos das axilas à mostra, daquelas que os velhinhos usam por baixo da roupa “pra proteger o peito da friaj”.

Todos olhavam, uns descaradamente, outros de soslaio, o detalhe insuspeitado. Na mão, ele trazia uma gaiola protegida da chuva e do vento por um blusão de lã. Pensei: – Aí está. Um homem e seu curió! Ali, para quem quisesse ver, sem necessidade de uma única palavra, a imagem acabada do cuidado amoroso. Aquela cena o absolvia, de antemão, de toda e qualquer culpa pelo cárcere privado fosse o tribunal de Deus ou dos homens.

Naquele momento compreendi que existem coisas que transcendem nossa noção de certo e de errado, independendo de onde estamos observando e do que trazemos no farnel, na trouxa, no balaio de nossas vivências e saberes. Fiquei enternecida e grata pela lição. Ainda fico.

Norma Bruno – Crônica publicada no livro A Minha Aldeia (Editora Papa-Livro, 2004). Versão reduzida.

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