Dakir Polidoro

Hoje afastado dos microfones, Dakir Polidoro conta histórias da época em que seu programa era líder em Santa Catarina.

Dakir e o microfone “jacaré” da Diário da Manhã

Durante quase 35 anos, a pacata Florianópolis acordava às 6 horas da manhã: “Tá na hora, vamos levantar, tá na hora…” Era assim que o radialista Dakir Polidoro, ao cantar do galo, iniciava o seu bem-sucedido programa “A Hora do Despertador” nas ondas médias e curtas da ex-toda poderosa rádio Diário da Manhã.

Com sinos e buzinas estridentes, a hora certa a cada cinco minutos, ele desfilava um bem temperado repertório de atrações com cheiro de “café aparadinho”, que lhe valeu o invejável título de campeão absoluto de audiência em Santa Catarina. Amargando frustração desde que o grupo RBS adquiriu a Diário da Manhã e o afastou do microfone, Dakir convive com sérios problemas de saúde, enclausurado na Ponta de Baixo, em São José, cercado pelo carinho dos familiares e pelos poucos amigos de sua época.

Na época em que a cidade respirava o seu programa, a concorrente, rádio Anita Garibaldi, tinha, em outro horário, o badalado programa “A Discoteca do Ouvinte”, apresentado pelo figuraço Osvaldo Rubin (um bom malandro que fez história na cidade), em parceria com Iracema de Andrade. Mas Dakir era imbatível e conseguiu tanta popularidade, tanta identificação junto ao público, que acabou eleito vereador em duas oportunidades, presidente da Câmara e prefeito interino.

Não fosse radialista, Dakir Polidoro seria piloto da Aeronáutica, desejo que alimentou durante anos antes de ingressar no rádio. Nascido na Figueira, por isso é Figueirense, aprendeu desde cedo a conviver com o mar, pescando junto aos cinco trapiches que emolduravam a orla da baía Sul, mesmo açoitado pelo vento Sul implicante. “O vento Sul de hoje está desmoralizado, naquela época ele soprava durante dez dias seguidos. A época mais feliz do ser humano é a infância”, lembra o radialista.

Lembranças

Fala com emoção sobre a cidade antiga, das casas geminadas do beco do Segredo (Bento Gonçalves), das ruas empoeiradas. Calçamento mesmo só havia na praça 15 de Novembro, trecho da rua Felipe Schmidt e Mercado Público. Relembra também o Clube Brinca Quem Pode, uma sociedade só para negros na Conselheiro Mafra, onde branco não tinha vez e, se tentasse subir os três lances de escadarias, certamente iria se machucar. Ilustra que quando Nereu Ramos era governador, a diretoria do “Brinca” resolveu subir ao palácio para pedir dinheiro para os festejos momescos. O velho Nereu atendeu a comitiva na porta.

– Como é o nome do clube, mesmo?
– Sociedade Recreativa Brinca Quem Pode, doutor.
– Então está resolvido. No Carnaval, brinca quem pode. Passem bem!

Reconhece o radialista que já não tem a mesma privilegiada memória de seu tempo de repórter e, como repórter-radialista, ganhou experiência suficiente para esconder detalhes que ajudaram a fazer sua história. Procura falar exclusivamente sobre os 35 anos de rádio. Inaugurou o Cine Ritz, em 1943, trabalhando como operador de cinema, o seu primeiro emprego. Lembra, inclusive, do filme de estréia, “Lídia”, que é também o nome da esposa de Miguel Daux, dono do cinema.
No Cine Ritz aconteceu o primeiro contato com o microfone. Fazia locução de cabine, anunciando a programação da semana. Acabou caindo nas graças dos Daux e ganhou um programa de auditório, o “Matinada”, criado por ele, aos domingos, às 10 horas, com a participação de Zé Catau, um festejado personagem de Waldir Brazil. A garotada invadia o Ritz, com direito a distribuição de gasosa, bombons e balas Uva do Norte, fabricado pela firma João Moritz.

Fez sua estréia no rádio nos microfones da Guarujá, onde ganhou experiência suficiente para ingressar na Difusora de Laguna, levado pelo amigo Hélio Kersten, com um salário invejável. Aos 20 anos, bonitão, gaba-se – seu amigo Zininho dizia que não era tanto assim -, fazia sucesso com as mulheres através de “A Hora do Despertador”. “Fui para Laguna contratado por 1.500 cruzeiros, mais 20% nas comissões. Era um bom dinheiro. Eu tinha um amigo que era desembargador e ganhava 600 cruzeiros. Credo! Boa pinta, dinheiro no bolso e ainda solteirinho da silva. A rádio vivia cheia de moças”.
Tralhas
Em 1956 (não lembra com precisão a data), Dakir Polidoro retornou a Florianópolis com o passe comprado pela rádio Diário, para instalar-se definitivamente com a “A Hora do Despertador”, que estreara em Laguna. Um programa de variedades, acima de tudo informativo, barulhento em função das tralhas que o comunicador manuseava. “A Hora da Prece”, com os padres Bianchini, Cardoso, Pedro Koeller, Pedro Martendal e Frederico Hobolt; a “Banda na Hora”, com os dobrados da Banda da Polícia Militar, muito samba, esporte, anúncios de nascimento e falecimento e direto da feira-livre, às quartas-feiras, o Quintanilha, uma figura inventada por Dakir, informava por telefone o preço dos produtos hortigranjeiros e a variedade de peixes que chegavam fresquinhos às bancas do Mercado Público.
“Era um programa de utilidade pública. Cedo os ouvintes ficavam sabendo de tudo o que estava acontecendo na cidade. Um programa dinâmico, informativo, não como esses de hoje, onde os locutores limitam-se a ler o jornal que recebem pela manhã. Eu fazia rádio-escuta, tinha bons informantes, previsão do tempo direto da Base Aérea. Uma audiência extraordinária, um programa que agradava o povo e era respeitado pelas autoridades.”
A popularidade do programa deu a Dakir Polidoro um grande prestígio na cidade, e suas críticas sempre construtivas o aproximaram do xerife-delegado Trogilio Mello. “Ficamos amigos e por isso tirei muita gente da cadeia”.

MEMÓRIA Primeira foto no alto e acima à esquerda, dois momentos de Dakir à frente do “A Hora do Despertador, na Diário da Manhã; à direita, no dia da posse na Câmara; abaixo, em discurso no Legislativo municipal; segunda foto no alto, imagem atual do ex-radialista

Programa teve popularidade confirmada ao ir para as ruas da Capital

O programa “A Hora do Despertador” deixou os estúdios da Diário da Manhã e foi para as ruas testar a sua popularidade, a sua força entre as comunidades mais pobres. Promovia festas natalinas com distribuição de presentes para as crianças, festejava o Dia da Criança e um evento que se notabilizou na cidade foi a comemoração de um Domingo de Páscoa, com direito a desfile da Sociedade Tenentes do Diabo (antigamente as grandes sociedades desfilavam no domingo de Páscoa) e, pasmem, dois aviões do Aeroclube de Florianópolis sobrevoando a cidade despejando bombons Sonho de Valsa, tudo por obra de Dakir Polidoro.

“Os festivais de bois-de-mamão que nós fazíamos eram um sucesso. Essas campanhas de agasalho que hoje fazem aí, nós já fazíamos na época. Eu só pedia para não mandarem aquele cobertor ‘tomara-que-amanheça’. Era aquela fila de mais de 200 pessoas, todas cadastradas, recebendo agasalho.”

O sucesso do programa e a popularidade do radialista, a sua identificação com a cidade em todas as classes sociais, elegeram Dakir Polidoro o vereador mais votado em dois pleitos. Assim, como boa parte do cast da rádio Diário, Polidoro gostava de freqüentar alguns botequins da cidade, dando preferência ao Bar Príncipe, que ficava ao lado do Banco Inco (hoje o Bradesco) e tinha a rádio no andar superior.

Na tribuna da Câmara, numa acirrada discussão sobre um projeto polêmico, Dakir reagiu com indignação ao aparte de um vereador adversário: “Se é assim, aposto com Vossa Excelência um litro de Drury’s”. Na atividade política, o radialista foi também presidente da Câmara em duas legislaturas, cargo que o levou a prefeito interino, substituindo Osvaldo Machado. “Como prefeito não deu para fazer muita coisa, era uma Prefeitura miserável, ninguém pagava imposto”.

Sua principal obra foi a limpeza do rio d’Avenida (canal da avenida Hercílio Luz), o que não era feito há 20 anos, comemora.

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