Darci Lopes, a odisséia televisiva na Capital

No dia 31 de maio de 1970, as imagens da TV Cultura, a primeira emissora a ser instalada em Florianópolis, invadiam os lares catarinenses. Desde o surgimento da Sociedade Pró-desenvolvimento da Televisão em Florianópolis, fundada por um grupo de comerciantes inconformados com a péssima qualidade da imagem que era retransmitida de Curitiba, a viabilização da concessão de operações junto ao governo federal, em pleno exercício da ditadura militar, até a instalação do primeiro canal concorrente, o grupo liderado pelo audacioso Darci Lopes trilhou por caminhos sinuosos, salpicados pelo descrédito, incompreensão e a deslealdade de alguns notáveis, especialistas em jogadas de bastidores.

Em 1964, começavam a chegar em Florianópolis as imagens transmitidas pelo Canal 6, de Curitiba, com o comércio local recebendo os primeiros pedidos para a compra de televisores. A deficiente qualidade da imagem recebida, no entanto, deixava os telespectadores decepcionados. Darci Lopes, que também foi estimulado a adquirir um aparelho, era o mais inconformado. “Era um tal de ajeitar a antena e não se pegava nada. O Arno Schmidt chegou a afirmar que a imagem na casa dele era boa. Fui conferir e não soube definir se era homem ou mulher, cavalo ou cachorro.”

Nos bate-papos do Café Danúbio, no qual se reuniam os comerciantes das proximidades, s reclamações sobre as imagens captadas afloravam a cada dia. Darci Lopes sugeriu fazer um movimento para resolver o problema. Estava ele designado aos caprichos do destino, colecionando um rosário de encrencas e frustrações. Intrépido, audacioso e destemido, Lopes venceu a batalha, mas perdeu a guerra para os poderosos.

Depois de um anúncio em A Gazeta, patrocinado pela proprietária Iná Vaz, convidando para uma reunião do Clube Doze de Agosto, o grupo inicial formado por Arno Schmidt, Bebelo Carioni, Werner Müller, e Darci, foi tomado de surpresa diante da receptividade, comparecendo pessoas destacadas na sociedade, como o general Rosinha. Teodoro Brügemann, Oswaldo Rodrigues Cabral, Roberto Oliveira, Lúcio

Freitas e Osvaldo Mello, entre outros. Cabral sugeriu a criação da Sociedade Pró-desenvolvimento da Televisão em Florianópolis e Darci Lopes foi eleito por aclamação.

A Associação tinha consciência de que seria quase impossível instalar um canal de imediato, por isso o objetivo inicial seria o de melhorar a imagem através da repetidora. Vinculou-se a um grupo de Tubarão liderado por Ivo Sell, que tinha o mesmo propósito, fortalecendo ainda mais o movimento, acertando a transmissão da programação da TV Piratini, através de cinco repetidoras espalhadas no Sul do Estado. O número de televisores multiplicava-se rapidamente na cidade, despertando inclusive o interesse da TV Gaúcha em operar em Florianópolis.

Os freqüentes problemas técnicos nas repetidoras resultaram em reclamações e protestos da população, agravando-se as preocupações do presidente Darci Lopes. Em meio a um emaranhado de dúvidas e incertezas, foi procurado por Hilário Silvestre, um próspero comerciante do ramo alimentício do Sul do Estado, colocando na mesa uma proposta, no mínimo inusitada. Ele havia negociado certa quantidade de cereais por uma estação de televisão. Ainda incrédulo, Lopes viu uma luz despontar no fim do túnel.

– Silvestre você precisa inicialmente organizar a documentação para abertura da concorrência e adquirir a concessão em Brasília.

– Não vou pedir licença coisa nenhuma. Vou instalar a emissora e ninguém vai proibir-me – respondeu, Hilário, cheio de razão.

A emissora foi, então, instalada em cima da confeitaria Chiquinho e a torre sobre o Lux hotel, mas teve vida exígua. Foi chamada pelo governo federal e Hilário Silvestre quase parou na cadeia.

Esta seria apenas uma decepção ao encontro de tantas outras. .A rádio e Televisão Cultura nascia pelo menos no papel, com toda a documentação sendo levada a Brasília para a inscrição na concorrência de concessão de um canal de televisão para Florianópolis. Com a desclassificação de algumas empresas concorrentes por incorreção no processo, as chances para a Cultura foram ampliadas, passou a disputar com um grupo do Paraná e outro da rádio Diário da Manhã, da família Bornhausen.

Procurando fortalecer a oportunidade surgida, propôs parceria ao vice-governador Jorge Bornhausen, recebendo como resposta um solene não, justificando que a ausência de eleições, por imposição do golpe militar de 1964, afastara também os interesses políticos da UDN em Santa Catarina. Indignado com a falta de apoio de seu partido, o udenista Darci Lopes bateu a porta, bem ao seu estilo, e saiu resmungando.

Quando a TV Cultura entrou efetivamente em operação, o polêmico Darci Lopes aproveitou para dar o troco aos adversários, com um decreto determinando ao setor de telejornalismo “aqui nesta emissora está proibido falar nos Bornhausen e nos Konder Reis.”

Na mesma época, em Brasília, os militares nomeavam Antônio Carlos Konder Reis para governador de Santa Catarina. A paz acalentada pelo presidente da TV Cultura ainda estava longe. Começou a receber ameaças de anônimas por telefone, mas logo identificou quem estava do outro lado da linha. “Fernando Farias, te identifica logo. Então ele respondeu: também não precisa me ofender…”

Antes de assumir o governo, Konder Reis decidiu fazer uma visita a Darci Lopes em seu gabinete, na rua Bocaiúva, entrando na sala de dedo em riste: “Você está se prevalecendo de uma concessão do governo federal para prejudicar o homem escolhido pela Revolução ao governo de Santa Catarina.” A discussão foi acalorada. Konder Reis, porém, manteve a elegância e a discrição que lhe são peculiares. Sentaram para discutir a gravação de um programa semanal para divulgar as obras do Estado.

Num encontro nos estúdios da emissora, o governador comentou com Lopes sobre a abertura de concessão de um novo canal para Santa Catarina, perguntando qual seria o grupo entre os inscritos que poderia prejudicar a manutenção da TV Cultura. “Eu respondi que quem poderia nos prejudicar não estava habilitado a ganhar.

O edital dizia que seria dada preferência a grupos locais. O Konder Reis foi a Brasília e deu preferência ao grupo de Maurício Sirotsky, em prejuízo aos grupos catarinenses. Fiquei inconformado. No dia seguinte á publicação, subi as escadas do Palácio, entrei porta adentro e disse-lhe: “Governador, vim comunicar-lhe que lutarei com unhas e dentes pela sobrevivência da TV Cultura. Mas se o faturamento não suportar as despesas, devido ao forte concorrente, eu encerro as atividades da emissora, antes porém, entro no ar pra explicar tudo o que esta ocorrendo…”

As retaliações não ficaram por aí, o Governador mandou hipotecar todos os bens de Darci Lopes, por conta de um aval dele no BESC, para compra de equipamentos no exterior. Cansado de uma luta inglória, Lopes curvou-se diante de seus objetivos com o orgulho ferido. De acordo com os demais membros da diretoria, ofereceu a venda da emissora para Aderbal Ramos da Silva.

Este, no entanto, aceitaria a proposta se ele continuasse na direção da emissora, mas a recusa foi imediata. Inteiramente desestimulado, acabou negociando a sua parte com o grupo liderado por Mário Petrelli. Afastado de tudo , mesmo diante das propostas tentadoras, o Homem da Televisão, como ficou conhecido em Florianópolis, prefere viver de saudades recheadas de frustrações por conta dos poderosos.

Não foi tarefa fácil convencer Darci Lopes a conceder esta entrevista, que ele classifica como exclusiva. Mas fez questão de ressaltar o trabalho de seus companheiros de diretoria nessa odisséia aventureira: Arno Schmitz, Frederido Büendgeins, Leon Schmiegelow, Lauro Caldeira de Andrade, Ody Varela, e a equipe de “dedicados funcionários”, Roberto Alves, Dirceu Flores, Moacir Pereira, Fenelon Damiani, Ciro Barreto, Marisa Ramos, Altair Rosa, João Décio Pacheco, Evilásio Schmitz e Adilcéa Ferrari, entre outros.

A determinação e a pertinácia empurravam Darci Lopes ao encontro de seus objetivos. Por determinação do Ministério das Comunicações precisava transformar a empresa de limitada para sociedade anônima., com necessidade de ampliação de capital. Em reunião, foi determinado que cada diretor da Associação deveria operar em seu campo de atuação. Lopes passou a visitar os empresários e contou com a simpatia de Aderbal Ramos da Silva, embora adversário partidário. Em encontro agendado pelo genro, José Matusalém Comelli, o Dr. Deba simplesmente assinou a proposta em branco, apostando no empreendimento, subscrevendo as cotas de capital disponível.

Desta feita o presidente saiu porta afora radiante de felicidade, mas sua alegria durou pouco. Coincidiu que, na época, ele havia comprado um Opala na concessionária Hoepcke, de propriedade de Aderbal e, aos olhos de uma cidade fofoqueira, ele teria vendido a TV Cultura para o ex-governador. “O apoio que eu não tive do meu partido (UDN), fui encontrar no PSD”.

Enfim, com o apoio de empresários locais, o grupo liderado por Lopes pôde respirar aliviado, mas teve de resolver um desagradável problema interno. Em troca de apoio político em Brasília, o deputado federal Haroldo Carvalho negociou um cargo na diretoria da empresa, mas como ficou inadimplente com as cotas subscritas, foi afastado dois anos depois por determinação de uma assembléia geral. O deputado não gostou, e o tempo escureceu no gabinete do presidente da TV Cultura.

A tão importante concessão foi finalmente conquistada em 16 de outubro de 1968. Com os equipamentos instalados, os dirigentes já festejavam a emissora no ar, mas um novo imprevisto estava reservado. Os transmissores implantados pelos técnicos da Phillips, não funcionavam. Desesperado, Darci Lopes procurou resolver o problema com uma solução caseira, autorizando o competente técnico Leon Schmiegelow a revisar a aparelhagem.

Em poucos minutos o sinal em cores estourou em todos os lares, sendo a emissora opontada pela TV Tupi como a segunda em melhor qualidade de imagem da re de no país. Outro detalhe importante: Santa Catarina era o único estado do Brasil no qual a Rede Globo não era absoluta em audiência, perdia para a TV Cultura, “a nossa”.

(Texto digitado por Giane Severo)

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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