Darci Lopes, da obstinação e perseverança ao sucesso

Pacata e serena a cidade de Florianópolis vivia os primeiros anos revoltosos e sacolejantes da década de 1960 até que, de repente, explode em vibração com a possibilidade de ter sua própria emissora de televisão.

Primeira torre em construção

Entre os maiores entusiastas pela novidade está o comerciante de peças automotivas Darci Lopes que transformou o pequeno espaço da sua loja num verdadeiro fórum de debates sobre como captar os sinais de televisão sem ter uma emissora de televisão na cidade.

Animados com o crescente volume de notícias sobre a migração de grandes cartazes do rádio para a televisão, todos queriam ver, e não só ouvir, seus ídolos: cantores, radioatores, apresentadores de programas de auditório, grandes músicos, compositores ou mesmo os narradores esportivos.

Acanhada entre Curitiba e Porto Alegre, a capital catarinense se sentia desprestigiada por não contar com “tão importante avanço cultural” como bradavam os defensores do novo veículo de comunicação.

Darci, espírito atilado e atitudes práticas, ele mesmo já havia feito muitas experiências em sua casa. Comprou televisor, montou antena externa com variados e diferentes componentes e gastava horas a fio tentando capturar algum sinal naquela tela que só mostrava chuviscos entremeados de descargas elétricas com ruídos estranhos.

Essa rotina era muito semelhante às dezenas de telemaníacos que se multiplicavam à cada notícia da chegada de um novo aparelho de televisão nas lojas locais. Também se multiplicavam os boatos que corriam entre os fanáticos, cada um querendo impressionar com suas historias fantásticas de que em determinado momento da madrugada teriam captado sinais de uma emissora da Argentina, do Rio ou de São Paulo.

À medida que o tempo passava as notícias sobre as maravilhas da TV aumentavam, até porque, as estações de TV (geradoras) pressionadas pelas populações mais distantes das sedes das emissoras, começaram a desenvolver redes de retransmissoras gerando uma demanda crescente estimulada pelo comércio que logo entrou na onda colocando a disposição do público televisores onde ainda não havia o que sintonizar.

Inspirados pelo sucesso das repetidoras das emissoras de Curitiba e Porto Alegre, os catarinenses foram à luta.
Estamos em 1963 quando surgem dois movimentos paralelos para trazer sinais de televisão para Santa Catarina: um liderado por Darci Lopes em Florianópolis e outro em Blumenau, conduzido por Flávio de Almeida Coelho. Darci buscava conexão com as TVs Piratini e Gaúcha de Porto Alegre e Flávio fechava acordo com a TV Paraná de Curitiba onde ganhara experiência trabalhando na equipe do projeto de instalação de repetidoras no interior do Estado.

Enquanto o desafio do grupo de Florianópolis deveria vencer uma escalada de seis lances de retransmissão em morros de difícil acesso, o trajeto de Curitiba a Blumenau praticamente se reduzia a três pontos de retransmissão embora também ameaçado pela dificuldade de acesso aos picos da serra que separa os dois estados. Outro agravante é que os sinais transportados em VHS tornavam a confiabilidade muito baixa, principalmente com as variações atmosféricas. Isso sem contar a precariedade dos equipamentos e as imensas dificuldades para levar energia elétrica de qualidade até o topo dos morros que serviam de suporte para a rede.

Amigosdapraca

Amigos da praça

Se a tecnologia para transporte de sinais de áudio e vídeo era limitada, a logística dava um banho de criatividade. Tanto que o traçado das redes seguia caminhos diferentes: a Piratini por uma rota e a Gaúcha por outra. A transmissão das emissoras de Porto Alegre vinha direto até Osório, onde esse primeiro enlace era amplificado e retransmitido até Torres, passando depois por Araranguá e assim vinha se desdobrando até chegar ao Morro da Cruz na Ilha de Santa Catarina.

“Quando iniciamos o movimento junto com um grupo de amigos nós chegamos à conclusão que o mais rápido e o mais prático era trazer imagem de Porto Alegre através de uma rede de repetidoras para fazer o povo de Florianópolis saber o que era televisão, porque 95% da população não sabia o que era televisão. Como era um investimento muito grande, e o processo de concessão de canal era muito demorado, nós achamos melhor trazer imagem através de uma rede de repetidora da Piratini, em Porto Alegre, até Florianópolis”. Darci Lopes, nesta entrevista concedida ao projeto Caros Ouvintes em 2004, se referia a iniciativa da Sociedade Pró-Desenvolvimento da Televisão que ele presidia. Mas, ele pessoalmente também participou do esforço para trazer os sinais da TV Gaúcha, canal 12 de Porto Alegre, o que acabou também acontecendo.

Os sinais de TV – som e imagem – embora em condições precárias, passaram a chegar com mais regularidade à Araranguá, Criciúma, Tubarão e Florianópolis por volta de 1967. Nesse momento a Agência de Publicidade A.S. Propague tomou a iniciativa de levar os seus clientes a anunciarem na TV Piratini num programa transmitido aos sábados somente com assuntos de Santa Catarina.

Nessa época eu ia semanalmente a Porto Alegre com os cartazes e gravações de áudio para apresentar os nossos comerciais.

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