De Gaspar à Suíça

Os especialistas costumam afirmar que o bom repórter, além de todas as qualificações tradicionais, deve ter boa dose de intuição. Em 1958, apareceu na Rádio Clube de Gaspar (SC), um garoto que fez carreira aliando talento à boa intuição. João Pedro começou como operador de som e logo foi para o microfone.

Apesar de bastante jovem tinha alguma experiência no ramo. No Grupo Escolar Professor Honório Miranda fazia a apresentação da homenagem à bandeira que a escola realizava todos os sábados. Era uma espécie de show cívico, com desfile dos alunos e uma série de participações com canto, leitura de poesias e textos patrióticos.

O “Repórter BV” (barriga-verde) como era conhecido, durante bom tempo foi mestre de cerimônia infantil com destacada atuação. Tanto que chamou a atenção de diretores da rádio local. Em pouco tempo já apresentava o programa “Calendário do Dia”, com horóscopo, curiosidades e todas aquelas informações que faziam parte da grade de programação da maioria das emissoras do interior.

De Gaspar para Blumenau foi um passo curto, pela pequena distância entre as duas cidades, porém fundamental para quem tinha um projeto de vida ligado ao microfone.  Foi trabalhar na Rádio Nereu Ramos, na época a líder de audiência na cidade. Dois anos depois, convidado por Sady Ivo Pezzi foi para a Rádio Clube de Itajaí que montava uma grande equipe formada por vários profissionais recrutados no Paraná.

Fiou menos de um ano no emprego. Convidado por Jair de Brito subiu a serra para integrar o elenco de locutores da Rádio Independência de Curitiba. Ficou de 1963 a l967 trabalhando como repórter da Independência, onde recebeu seu nome definitivo: J.Pedro. Nessa ocasião foi convidado pelo jornalista Enoch Pereira para fazer parte da equipe de assessores de imprensa do ministro da Agricultura, Ivo Arzua, no Rio de Janeiro.

Durante o tempo em que esteve no Rio de Janeiro inventou uma maneira de completar seus rendimentos gravando entrevistas com artistas famosos e vendendo para rádios de Santa Catarina.  Determinado a vencer na profissão começou a fazer um curso de inglês com objetivo de se preparar para uma tentativa no exterior. Certo dia estava na praia do Flamengo, lendo no Jornal do Brasil a coluna “Hóspedes da Cidade” que publicava a relação de pessoas importantes em visita a Cidade Maravilhosa.

Uma nota chamou sua atenção.  Dizia que um senhor de nome Torquato Treischler estava selecionando locutores brasileiros para trabalhar na Rádio Nacional da Suíça. Pegou o endereço do Hotel Ouro Verde e foi se apresentar como candidato a um emprego que parecia um sonho muito distante.
Com a intuição de que estava caminhando para algo além de suas expectativas, fez uma entrevista com o senhor Torquato que solicitou, para teste, uma gravação com entrevistas, que seria levada a Suíça para avaliação.
Com toda a experiência de bom repórter, e uma dose de ousadia saiu em busca de entrevistas que pudessem impressionar o selecionador de locutores.

Conseguiu o que para muitos repórteres era considerado quase impossível. Gravou com Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Elis Regina. Como não recebeu nenhuma resposta da Rádio Nacional da Suíça, retornou para Curitiba, onde passou a integrar a equipe esportiva da Rádio Clube Paranaense, sob o comando de Willy Gonzer.

No final de 1970 o Coritiba Futebol Clube foi cumprir um roteiro de jogos na Europa e África. Na delegação havia lugar para dois radialistas previamente escolhidos; os narradores de futebol Airton Cordeiro e Rosildo Portela.  O intuitivo J.Pedro viu sua chance de acompanhar o Coritiba ficar extremamente reduzida, mas não perdeu a esperança.

Alguma coisa indicava que essa viagem traria bons resultados, com grandes possibilidades de encontrar o caminho para realizar seu projeto de trabalhar no exterior. Procurou o empresário Berek Kruger, dono das Lojas Unidas e torcedor entusiasmado do time coxa-branca. Conseguiu patrocínio para o noticiário que seria publicado no jornal Folha de Londrina, no qual escrevia sobre futebol. Na condição de repórter do jornal londrinense acompanhou a delegação na excursão pela Europa.

O primeiro jogo do Coritiba foi na França contra o Nantes. Da cabine de rádio no estádio fez uma ligação para o senhor Torquato na Rádio Nacional da Suíça e ouviu uma notícia que já não esperava. O locutor brasileiro havia pedido demissão e o cargo estava conquistado. No dia seguinte o Coritiba ficou cinco horas no aeroporto de Zurich numa conexão para Belgrado.

Foi tempo suficiente para acertar detalhes de seu ingresso na poderosa emissora onde ficou até 1975. No Serviço de Língua Portuguesa da Rádio Suíça Internacional, foi repórter, redator, apresentador e tradutor. Antes de terminar o contrato de cinco anos, bateu uma saudade danada e pensou seriamente em voltar.  Comunicou sua intenção a um amigo que desaconselhou.

– Meu amigo, J.Pedro, faça tudo para ficar por aí. O mercado de trabalho por aqui está péssimo. Mas, se tiver que voltar, pelo menos não fale português correto que é para valorizar. Sabe como é!

Permaneceu na Suíça e na Copa do Mundo de 74 foi para a Alemanha acompanhar os jogos e fazer reportagens para emissoras brasileiras.  Nos intervalos atendia os colegas do Brasil como tradutor e guia. Num dos jogos, ao chegar próximo da entrada dos atletas deu de cara com Henry Kessinger o poderoso Secretário de Estado do governo norte-americano. Com a ousadia, característica de bom repórter, pediu e conseguiu uma saudação aos brasileiros.

Na Rádio Suíça era adotado um esquema diferente na administração do setor em que trabalhava. Eram cinco gerentes. Cada semana um deles respondia pela chefia. Numa semana em que era sua responsabilidade o gerenciamento do setor, começou a “Guerra dos Seis Dias” no Oriente Médio.

A direção da emissora determinou aos chefes do jornalismo, que não falassem em guerra.  Todos deveriam se referir ao evento como um conflito, apenas.  Argumentavam que sem uma declaração de guerra formal, tratava-se de um conflito. Numa reunião de pauta para tratar do assunto, J.Pedro deu um toque bem brasileiro ao fazer, com seu melhor sotaque catarinense, uma pergunta embaraçosa ao diretor da rádio.

– Como devemos tratar os prisioneiros de guerra nesse conflito do Oriente Médio? Vamos dizer que são “prisioneiros de conflito”?

Cumpriu seu contrato com a Rádio Suíça, e ao seu término, fez uma viagem de volta com escalas em diversos países, onde mantinha boas amizades. Passou pela França, Estados Unidos, Canadá e vários paises da América Central, sempre mantendo contato com jornalistas locais. Quando chegou em Curitiba a conta bancária estava bastante abalada.

Como grande colecionador de amigos, não faltou apoio para reiniciar suas atividades de repórter, na cidade que o projetou na profissão. Com muita experiência, mas pouco dinheiro passou um tempo hospedado na casa do fotógrafo José Kalkbrenner. Com ajuda do colega e amigo, Airton Cordeiro, conseguiu um cargo de assessor de imprensa na Secretária de Indústria e Comércio e de repórter na Rádio Clube Paranaense.  Convidado para assumir a chefia do setor de comunicação da multinacional Volvo, aceitou e ficou no cargo durante 14 anos. Deixou o rádio em que fez uma legião de admiradores para se dedicar, entre outras coisas a atividade que mais aprecia; cultivar amizades.

Do livro Sintonia Fina.

2 respostas
  1. Aguinaldo Filho says:

    Grande amigo Jota Pedro. Conhecemo-nos quando eu estava na BBC, em Londres, no início dos anos 70. Gostei de ler ‘as entrelinhas’ de sua ascenção radiofônica, omitida por modéstia característica desse ser humano de coração sempre aberto, que prezo muito.
    Jota, aquele abraço.

  2. Jair Brito says:

    Sem dúvida alguma a carreira de João Pedro, o Jota Pedro que criou asas na Rádio Independência de Curitiba, é exemplar para futuros trabalhadores da comunicação.
    Com tenacidade e simpatia, ele soube dar o pulo do gato rumo à conquista de importantes realizações profissionais, inclusive mundo afora.
    Parabéns, Jota.

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