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Historietas vivenciadas com quatro artistas e um político nos bastidores de programas de TV.
Jovem, 12/13 anos de idade (1947-1948), ainda morava em Joinville, quando ganhei de um de meus irmãos um fonógrafo movido a corda e alguns discos 78rpm, entre eles um disco de Luiz Gonzaga, contendo na face B Asa Branca, composição dele e de Humberto Teixeira. Na primeira audição já me apaixonei pela toada, a qual mais tarde se tornaria um hino dos retirantes nordestinos.

Passaram-se muitos anos e cada vez mais me liguei à Asa Branca, me emocionando sempre quando a escutava. Confesso que chorei ao ouvir pela primeira vez a regravação dessa musica, feita por Caetano Veloso durante seu auto-exílio em Londres por causa do golpe militar de 64.

No início dos anos 80, Hebe Camargo retorna à televisão, pela Rede Bandeirantes, depois de um longo período fora do ar e eu fui trabalhar como um de seus produtores, ficando responsável pela parte musical do programa * e pela pauta da grande entrevista da semana. Era minha segunda investida pela televisão. Antes, havia por dois anos produzido o programa de Ferreira Netto, na TVS (SBT).

O programa da Hebe era gravado na sexta-feira como se fosse ao vivo, sem edições posteriores, e era apresentado domingo à noite, mas a equipe de produção trabalhava de domingo a domingo.

Assim que ouvi A Vida do Viajante, gravação reunindo Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, entrei em contato com a gravadora a fim de levar pai e filho famosos ao programa, antes que a citada música virasse atração do Fantástico com a dupla.

Depois de muita negociação – o cachê que o programa pagava era irrisório (cinco mil cruzeiros), a gente denominou de cachê simbólico, obrigou a gravadora a arcar com outros cinco mil cruzeiros, para garantir a presença dos dois artistas no programa da Hebe.

Quinta-feira, um dia antes da gravação do programa, recebi um telefonema de Gonzaguinha avisando que, em razão de ter acertado um cachê de 30 mil cruzeiros, para fazer um show em Belo Horizonte, ele estava desmarcando seu compromisso com Hebe, mas que seu pai Gonzagão não faltaria ao programa.

Primeira decepção: desfeita a dupla e a música Vida de Viajante não seria apresentada. Mas Luiz Gonzaga, grande nome da nossa música, tinha tudo pra fazer uma grande apresentação.

Como de costume, na sexta-feira, às 19 horas, duas horas antes do horário previsto para o início da gravação do programa, toda a equipe de produção estava de prontidão no teatro Bandeirantes, na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio (hoje, palco de orações de uma igreja evangélica).

A recepcionista do programa encaminha Luiz Gonzaga até o camarim e depois até o local de ensaio, no qual Caçulinha e seu conjunto musical e eu estávamos a sua espera. Após os cumprimentos, Gonzagão pergunta quantas músicas ele poderia apresentar e eu lhe disse que, além de Asa Branca, mais duas.

Foi aí que o caldo engrossou: meu ídolo virou uma fera e disse alto e bom som: “Não vou cantar Asa Branca p. nenhuma, tô cheio de cantar Asa Branca, em todo lugar que vou tenho que cantar Asa Branca. Não há dinheiro que me faça apresentar Asa Branca”.

Nem eu nem Caçulinha entendemos a reação mal humorada do famoso artista e sem nenhuma interferência nossa ele escolheu e ensaiou três músicas novas de seu repertório. Fora esse incidente o programa transcorreu em seu ritmo normal e Hebe, conforme estava programado chamou Luiz Gonzaga para finalizar a série de atrações da noite.

Gonzagão cantou a primeira e o público presente no auditório não reagiu. Cantou a segunda, nada, a terceira, também nada. Daí, abrindo o fole de sua sanfona, emitiu os primeiros acordes de Asa Branca.

O público ficou de pé no auditório e começou a cantar com ele. Ao final, todos pediram bis. Foi um lindo espetáculo, um grand finale de programa, que emocionou todos os que estavam no teatro Bandeirantes. E, eu, mesmo ainda abatido pela decepção que tivera com meu ídolo, cantei e me encantei com aquela que até hoje continua sendo a primeira música do “paradão” do meu coração.

Tempos depois, de repente o Brasil inteiro cantava um sucesso de um jovem compositor-cantor chamado Oswaldo Montenegro. Era tanto seu êxito com Bandolins país afora que trabalhei muito para conseguir uma sexta-feira livre em sua agenda de shows.

Como era hábito, Caçulinha e eu recebemos o novo artista e lhe dissemos que ele poderia cantar duas músicas, preferencialmente encerrando sua participação com Bandolins.

O jovem autor-intérprete, já convencido por seu grande sucesso nacional, ataca com vedetismo e responde que naquela noite cantaria duas novas músicas de seu repertório porque “o tal Bandolins já tinha dado tudo que podia”.

Dessa vez, calejado pela decepção ocorrida com Luiz Gonzaga, afirmei com autoridade que ou ele apresentaria Bandolins ou não cantaria nada. Oswaldo Montenegro acatou minha decisão. O auditório aplaudiu e pediu bis. Até hoje, onde ele se apresenta, Bandolins é peça obrigatória.

Passados alguns programas de Hebe, uma outra decepção. Martinho da Vila, convidado para ser a grande estrela do programa, ensaiou uma seleção (pout-pourri) de seus grandes sucessos. O relógio marcava 19h45 e a entrada dele estava prevista para 21h45. Martinho, então, acompanhado de seu empresário, pediu para sair do teatro por uns 15 minutos a fim de comer um lanche, no que Caçulinha e eu concordamos.
Os 15 minutos de Martinho se prolongaram por mais de uma hora, o que causou preocupação a todos da produção. Pior, ao retornar ele dava sinais de que o lanche teria sido regado à alcool. Sua apresentação foi lamentável e só não mereceu uma edição porque Hebe, com muito jogo de cintura, dançou e apoiou o sambista durante os minutos de sua “alegre” cantoria, um vexame explícito que deve constar do documentário da Band.

Ainda na Rede Bandeirantes, tive uma nova decepção – a maior de todas – quando produzia Crítica e Autocrítica, programa de entrevistas daquela TV feito em conjunto com o jornal Gazeta Mercantil. Corria o ano de 1984, João Figueiredo era o presidente, felizmente já anunciado como o último do ciclo chamado golpe militar de 64.

Aureliano Chaves, primeiro vice-presidente civil do regime militar, ensaiava ser candidato do PDS para disputar o pleito indireto que escolheria o futuro mandatário do país. Intimado pelo diretor da Gazeta Mercantil e apresentador do programa, Roberto Muller, me entreguei por mais de um mês à tarefa de convencer a assessoria do mineiro Aureliano a participar do Crítica e Autocrítica, que era levado ao ar ao vivo aos domingos a noite.

Foi talvez a aprovação de entrevista mais “suada” de ser conseguida. O jornal Gazeta Mercantil, na sexta-feira que antecedia ao programa, publicava em página inteira anúncio promovendo os convidados do programa. O de Aureliano Chaves teve produção especial. Só que não saiu publicado.

Fim de tarde de quinta-feira recebeu telefonema de Roberto Muller informando que o programa com Aureliano Chaves fora cancelado. Não acreditei no que ouvia e quis saber a razão. Muller, laconicamente, me disse que a alta direção da Rede Bandeirantes de Televisão havia julgado desinteressante o programa entrevistar o vice Aureliano que, a propósito, estava de relações estremecidas com Figueiredo.

Além da grande frustração, houve uma correria na produção para substituir o convidado em cima do lance. “Choses de la vie” de um profissional de comunicação, igual a de muitos outros que ainda trabalham sujeitos a “chuvas e trovoadas.”

* Durante o período em que trabalhei como produtor de Hebe, na Rede Bandeirantes, a parte musical não apresentou nenhum artista cantando sobre playback ou fazendo dublagem, fator relevante que valorizou sobremaneira e aumentou a qualidade do programa.

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:: Asa Branca
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