Desapego e cidadania sem limites

Cyro Barreto *

Para muitas pessoas não escapa a percepção de que parente só é bem lembrado em álbuns de fotografia ou quando morre. Falecido no corrente mês, no Hospital de Caridade, prestes a completar 96 anos, dos quais a maior parte dedicada ao bem estar coletivo, o mano J. J. Barreto, como era conhecido nos meios médico e jornalístico, soube como poucos enobrecer o difícil e angustiante mister destas tão importantes e polêmicas áreas de atuação. No socorro aos pobres e desenformados, no desapego aos bens materiais e aos interesses mercantilistas, superou-se no respeito e na memória dos seus contemporâneos. Em suas lides integrou no Rio de Janeiro a libertária ABI e, em Curitiba, a Academia de Letras José de Alencar. Em Florianópolis criou o jornal O Tempo e a rádio Anita Garibaldi, cujo slogan – “o coração palpita quando se ouve Anita” – simbolizava de forma afetiva o sentimento de todos os que se aproximavam daquele ser tão iluminado e carismático no trato das pessoas.

Defensor de uma medicina mais socializada, ajudou a fundar a Unimed; de uma política mais autêntica, a UDN; e de uma formação profissional mais representativa, o Sindicato dos Jornalistas e a Casa do Jornalista de Santa Catarina.

Este homem simples e avesso às honrarias soube como ninguém estabelecer uma demarcação perfeita entre superstição e doença e entre o primitivismo do curandeirismo e a arte sistematizada de curar. Este modo de agir o colocou numa posição ímpar, despertando a inveja de uns e a crítica malévola dos mercenários.

Entre outras circunstâncias que engrandecem sua postura ousada diante dos poderosos, uma delas merece registro especial. Em pleno regime militar, a caça às bruxas era uma constante no país, particularmente na Previdência Social. Foi quando chegou a Florianópolis um representante com a missão de expurgar os comunistas dos órgãos públicos. Às 6h da manhã o caçador dirigiu-se ao antigo Ipase e se colocou na fila sem anunciar seus propósitos. O médico de plantão era o JJ, que após atender dezenas de segurados abriu a porta e disse: “entra o próximo f.d.p.” Mandou o cidadão sentar-se e o examinou. Concluiu que ele era portador de um tumor maligno e que deveria ser hospitalizado com urgência. O “doente”, silente, retirou-se e não revelou o motivo de sua visita, retornando apavorado ao Rio de Janeiro.

Dias após, o doutor recebia uma carta do pseudopaciente revelando sua identidade e o objetivo real de sua presença na Ilha. Só que, ao invés das punições esperadas, veio um enorme elogio na sua ficha funcional exaltando-o pelo cumprimento dos horários de trabalho e pela eficiência do diagnóstico, comprovado posteriormente, Portanto, seu rápido e preciso “veredicto” mandando que o cidadão se arrancasse o mais rápido de Florianópolis salvou o caçador do mal e a cidade do mau caçador. São histórias deste tipo que tornaram o JJ uma figura personalíssima.

Cyro Barreto, jornalista e escritor. Autor de A História da Associação Catarinense de Imprensa.

Publicado em 28/09-07:23 por: Artigos do Notícias do Dia. Atualizado em 28/09-21:04

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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