Despreparados

Um carro velho na rua Leoberto Leal em São José. De repente percebo que o motor está prestes a ferver; a fumaça já aparece. Não havia chegado ao meu destino onde havia problemas a resolver.

Um daqueles dias em que tudo parece dar errado. O único erro que se pode cometer numa hora dessas é pensar ou dizer: “Pior não pode ficar”. Sempre pode.

Chego à barbearia suado, cansado e acima de tudo, indignado. Contas e contas atrasadas. Equívocos cometidos por outros e eu teria que resolver. O carro pifado havia ficado na rua. Naquele momento toca o meu telefone celular. Segue a conversa:

– Alô.

– Oi filho, sou eu. (voz da minha mãe, chorando) Imaginei um acidente. De repente um homem toma o lugar da voz da minha mãe.

– Estou aqui com a tua mãe. Fique tranquilo, ela está bem. Muito nervosa, mas está bem.

– O que houve com ela, amigo? Foi atropelada?

– Não. A partir de agora você cala a boca, só eu falo. Você só fala quando eu mandar. Não quero machucar tua mãe. Estou com uma pistola encostada nela. Posso atirar assim que quiser. Então, preste atenção. Você vai trazer 5 mil reais no lugar que eu indicar. Se chamar a polícia eu vou saber e tua mãe morre.

– Cinco mil reais? Se tivesse esse dinheiro pagaria parte das minhas contas e mandaria meu carro para oficina. Não tenho como ir ao teu encontro. Não tenho dinheiro para o táxi.

– Tua mãe vai morrer – era possível ouvir seu choro agonizante – então, não perca tempo. Leve 5 mil reais no lugar que eu mandar.

– Que tal 50 reais? Esse valor tenho na carteira. Se pegar um táxi e não for longe vai sobrar mais de 30.

– Não brinque comigo, imbecil. Vou matar sua mãe. Quero o dinheiro.

– Tudo bem, calma. Vou ligar para alguns amigos. Creio que em uma ou duas horas levanto 500 reais. Tenho certeza de que irão me emprestar. Na verdade não queria fazer mais dívidas. Bem, são 10:30h. Preciso levar um mecânico até o meu carro antes do meio dia. Será que podemos continuar à tarde:

– Você tá achando que sou otário? Vou matar tua mãe e nunca vão me encontrar. Quero 5 mil e agora.

– Como disse, agora não tenho mais do que 50 reais. Teu valor pode até ser justo, mas o meu momento é complicado, vamos rever esse valor. Só um instante, tenho que atender o outro telefone, é o mecânico. Pode retornar a ligação ou aguardar na linha?

– Tá achando que tô de brincadeira, vou matar tua mãe, não desligue esse telefone.

– Tudo bem, calma. Não vou desligar. Só vou atender o mecânico no telefone fixo… Ok. ela vai ver o carro até ao meio-dia. Se bem que nem vai adiantar. É só para tirar o carro da rua, não tenho dinheiro para o conserto. Então, como ia dizendo, pensei que posso conseguir uns 500 reais até o final de dia. Falo com alguns amigos, fazemos uma vaquinha.

– Eu pedi 5 mil, seu otário. Vou matar tua mãe. Está ouvindo ele chorar?

– Sim!. Por favor, peça para ela manter a calma. Ela já sofreu um infarto e tem vários problemas de saúde. Diga que estamos negociando.

– Não estou negociando, imbecil. A conversa vai acabar agora. Perdeu a tua mãe, seu palhaço.

– Por favor, se for mesmo atirar nela diga que a amo muito. Vocês deveriam se preparar melhor para essas coisas. Deveriam estar abertos a negociar, ou escolher melhor suas vítimas. Desculpe, mas me pegou num momento ruim. Estou cheio de dívidas, carro estragado e outros problemas para resolver. Quem sabe no futuro…Poxa, ele desligou.

– Querido, já faz mais de 5 horas que aquele cara te ligou. Por que não telefona para tua mãe? Sabe-se lá, pode ser verdade, pode se um trote, desses bandidos que ligam dos presídios. Liga pra ela.

– Boa ideia. Já passa das 17h. Alô, mãe. Oi mãe. Tudo bem? Hoje pela manhã, aconteceu algo de errado? Não? Estava trabalhando? Que bom. Nada, não, depois nos falamos. Beijo, mãe. Te amo. Que coisa, que falta de qualificação e despreparo desses caras.

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