Deu Figueira no primeiro clássico

A peleja que quase parou a cidade em 1924, não foi transmitida pelo rádio, até porque o rádio naquela época era luxo exclusivo dos cariocas. O resto do país se contentava com a sonoridade das ondas do mar. A narração de Edson Luiz da Silva, mesmo em texto, tem toda aquela ginga marota dos grandes narradores esportivos do rádio. O “Velho Bruxo” como se autodenomina o Edson, acrescenta à descrição do clássico uma gostosa crônica com molho e tempero bem da Ilha e ao sabor de azes da apena como Raul Caldas Filho, Aldírio Simões e Sérgio da Costa Ramos, por exemplo. Com a palavra Edson Luiz, também conhecido como o Velho Bruxo, um dos fiéis colaboradores do Caros Ouvintes desde os seus primeiros momentos.

O primeiro clássico entre Avaí e Figueirense ocorreu em 13 de abril de 1924, no estádio Adolpho Konder, em Florianópolis, conhecido na época como “Campo da Liga”. Sabe-se que o jogo era um amistoso e terminou com vitória do Figueirense por 4 a 3, depois de estar perdendo por 3 a 0.

O Figueirense entrou em campo com Boos; Amorim e Asteróide; Delgídio, Enéas e Jaime; Campos, Juza, Maneca, Raimundo e Victor. A maioria dos atletas aparece na foto ao lado, tirada oito meses antes. O time azurra não teve a escalação divulgada, justificadamente. Apenas os heróis figueirenses mereceram ter seus nomes estampados nos jornais da época.
O jogo foi assistido por cerca de 1.950 torcedores, uma enormidade para o tamanho da população da cidade na época (pouco mais de 41 mil moradores), dando a dimensão do acontecimento.

Não se sabe quem marcou os gols da partida, apenas o quarto do Figueirense, anotado por Maneca, talvez o primeiro herói alvinegro.

São essas as informações públicas que tenho, mas fico imaginando como tudo aconteceu, qual o clima do primeiro clássico, em que circunstâncias ocorreu.

As torcidas na época eram regionalizadas e a do Figueirense se concentrava no Bairro da Figueira, na parte oeste do Centro, onde hoje ficam a Rua Padre Roma, Mercado Público, etc. (foto ao lado), enquanto os avaianos ocupavam a parte leste, onde hoje fica o Bairro Agronômica e adjacências.

Fico imaginando a primeira inticada, talvez no sábado da véspera do clássico: Dona Maria do Bileca (Bileca era o apelido do marido), que residia no bairro da Figueira e obviamente torcia pelo Figueira, vai até o Mercado Público pela manhã fazer umas comprinhas, como uma réstia de cebola, 400g de banha de porco, uma dúzia de bananas, 01 quilo de cocoroca… Não havia muito mais o que comprar. Não havia a enorme variedade de um supermercado atual.

Lá pelas tantas, Dona Maria encontra um conhecido avaiano, um tal de Zé das Pombas, que vinha lá das bandas da atual Agronômica todos os sábados ao Mercado faturar uns trocados com a venda de pombas do mato (pomba da pivida, como eram conhecidas), as quais eram expostas degoladas, num balaio. “Já comprou a sacola para encher de gols Dona Maria? Cuidado, a seleção azurra tá jogando muito, vai ser de goleada, é melhor se prevenir”, provoca o Zé. “Tás é tolo o estepô. Teu time não é de nada”, retruca Dona Maria. E quanto sai a pomba, perguntou; “um milhão”, informa o pombeiro (como eram conhecidos os vendedores de pombas); “Mofas com as pombas na balaia”, retruca D. Maria.

E chega o esperado dia do jogo, um domingo lindo, com sol brilhando. Homens e mulheres colocam os melhores ternos e vestidos e se deslocam em peso ao Campo da Liga para assistir a partida, a maioria a pé.

Era também um ótimo local para uma azaração, pois as gatinhas da época estavam lá. As mais cobiçadas pesavam acima de 80 quilos e possuíam pernas mais grossas do que a cintura da Gisele Büdchen, as quais mostravam orgulhosamente até um palmo acima do tornozelo.

Não havia essa de separação de torcidas, pois na época até os avaianos eram civilizados. Apenas cada torcida se concentrava mais num determinado lado campo por opção, mas circulavam normalmente em qualquer lugar e podiam tirar uma onda no meio da torcida adversária, sem qualquer problema.

A torcida figueirense era notadamente mais popular, mais povão e também mais numerosa. Não possuía entre seus quadros altas autoridades, ricos comerciantes, como a torcida rival.

O jogo começa e o Avahy (era assim que se escrevia como nome de filho de pobre na atualidade, cheio de h, y…) vai logo fazendo 2 a 0 no primeiro tempo. Depois do intervalo marca mais um: 3 a 0. Os avahyanos já davam como certa a vitória, só não sabiam de quanto seria a goleada. A gozação tomou conta do estádio. Um gritava “olha o sacolão”, o outro “tô que tô rindo à toa”. Zé das Pombas aparece para “intizicar” D. Maria: “Eu não falei? Não quis trazer a sacola? KKKK… Vai ser de ‘seix'”, provocou. “Mofas com a pomba na balaia”, responde D. Maria, usando pela primeira vez a famosa frase em sentido figurado. “Ainda vamos virar”, profetizou.

Parecia realmente perdido, mas os figueirenses não pensaram assim e passaram a empurrar o time com todas as forças de seus pulmões, fazendo um barulho ensurdecedor, jamais visto antes por aquelas bandas. E o time começou a reagir fazendo o primeiro: 1 a 3.

Aí os guerreiros avahyanos sentiram o golpe. Era muita responsabilidade, afinal consistia no primeiro jogo da história daquele que seria o maior clássico do estado de Santa Catarina pela eternidade. Bateu uma fraqueza nas pernas, o suor frio, a palidez da pele, a bola, malvada, passou a dar nas suas canelas. Ou seja, tudo aquilo que mais tarde passaria a ser conhecido como amarelar.

Diante desse quadro, a virada era inevitável e ela veio, com um gol atrás do outro. O último já no apagar das luzes, anotado por Maneca, o herói do jogo, que foi carregado pela torcida no gramado após o apito final.

O jogo termina e a torcida figuO primeiro clássico entre Avaí e Figueirense ocorreu em 13 de abril de 1924, no estádio Adolpho Konder, em Florianópolis, conhecido na época como “Campo da Liga”. Sabe-se que o jogo era um amistoso e terminou com vitória do Figueirense por 4 a 3, depois de estar perdendo por 3 a 0.
O Figueirense entrou em campo com Boos; Amorim e Asteróide; Delgídio, Enéas e Jaime; Campos, Juza, Maneca, Raimundo e Victor. A maioria dos atletas aparece na foto ao lado, tirada oito meses antes. O time azurra não teve a escalação divulgada, justificadamente. Apenas os heróis figueirenses mereceram ter seus nomes estampados nos jornais da época.

O jogo foi assistido por cerca de 1.950 torcedores, uma enormidade para o tamanho da população da cidade na época (pouco mais de 41 mil moradores), dando a dimensão do acontecimento.

Não se sabe quem marcou os gols da partida, apenas o quarto do Figueirense, anotado por Maneca, talvez o primeiro herói alvinegro.

São essas as informações públicas que tenho, mas fico imaginando como tudo aconteceu, qual o clima do primeiro clássico, em que circunstâncias ocorreu.

As torcidas na época eram regionalizadas e a do Figueirense se concentrava no Bairro da Figueira, na parte oeste do Centro, onde hoje ficam a Rua Padre Roma, Mercado Público, etc. (foto ao lado), enquanto os avaianos ocupavam a parte leste, onde hoje fica o Bairro Agronômica e adjacências.

Fico imaginando a primeira inticada, talvez no sábado da véspera do clássico: Dona Maria do Bileca (Bileca era o apelido do marido), que residia no bairro da Figueira e obviamente torcia pelo Figueira, vai até o Mercado Público pela manhã fazer umas comprinhas, como uma réstia de cebola, 400g de banha de porco, uma dúzia de banana, 01 quilo de cocoroca…Não havia muito mais o que comprar. Não havia a enorme variedade de um supermercado atual.

Lá pelas tantas, Dona Maria encontra um conhecido avaiano, um tal de Zé das Pombas, que vinha lá das bandas da atual Agronômica todos os sábados ao Mercado faturar uns trocados com a venda de pombas do mato (pomba da pivida, como eram conhecidas), as quais eram expostas degoladas, num balaio. “Já comprou a sacola para encher de gols Dona Maria? Cuidado, a seleção azurra tá jogando muito, vai ser de goleada, é melhor se prevenir”, provoca o Zé. “Tás é tolo o estepô. Teu time não é de nada”, retruca Dona Maria. E quanto sai a pomba, perguntou; “um milhão”, informa o pombeiro (como eram conhecidos os vendedores de pombas); “Mofas com as pombas na balaia”, retruca D. Maria.

E chega o esperado dia do jogo, um domingo lindo, com sol brilhando. Homens e mulheres colocam os melhores ternos e vestidos e se deslocam em peso ao Campo da Liga para assistir a partida, a maioria a pé.

Era também um ótimo local para uma azaração, pois as gatinhas da época estavam lá. As mais cobiçadas pesavam acima de 80 quilos e possuíam pernas mais grossas do que a cintura da Gisele Büdchen, as quais mostravam orgulhosamente até um palmo acima do tornozelo.

Não havia essa de separação de torcidas, pois na época até os avaianos eram civilizados. Apenas cada torcida se concentrava mais num determinado lado campo por opção, mas circulavam normalmente em qualquer lugar e podiam tirar uma onda no meio da torcida adversária, sem qualquer problema.
A torcida figueirense era notadamente mais popular, mais povão e também mais numerosa. Não possuía entre seus quadros altas autoridades, ricos comerciantes, como a torcida rival.

O jogo começa e o Avahy (era assim que se escrevia, como nome de filho de pobre na atualidade, cheio de h, y…) vai logo fazendo 2 a 0 no primeiro tempo. Depois do intervalo marca mais um: 3 a 0. Os avahyanos já davam como certa a vitória, só não sabiam de quanto seria a goleada. A gozação tomou conta do estádio. Um gritava “olha o sacolão”, o outro “tô que tô rindo à toa”. Zé das Pombas aparece para “intizicar” D. Maria: “Eu não falei? Não quis trazer a sacola? KKKK… Vai ser de ‘seix'”, provocou. “Mofas com a pomba na balaia”, responde D. Maria, usando pela primeira vez a famosa frase em sentido figurado. “Ainda vamos virar”, profetizou.

Parecia realmente perdido, mas os figueirenses não pensaram assim e passaram a empurrar o time com todas as forças de seus pulmões, fazendo um barulho ensurdecedor, jamais visto antes por aquelas bandas. E o time começou a reagir fazendo o primeiro: 1 a 3.

Aí os guerreiros avahyanos sentiram o golpe. Era muita responsabilidade, afinal consistia no primeiro jogo da história daquele que seria o maior clássico do estado de Santa Catarina pela eternidade. Bateu uma fraqueza nas pernas, o suor frio, a palidez da pele, a bola, malvada, passou a dar nas suas canelas. Ou seja, tudo aquilo que mais tarde passaria a ser conhecido como amarelar.

Diante desse quadro, a virada era inevitável e ela veio, com um gol atrás do outro. O último já no apagar das luzes, anotado por Maneca, o herói do jogo, que foi carregado pela torcida no gramado após o apito final.

O jogo termina e a torcida figueirense sai do campo feliz, a maioria dos torcedores exaustos e quase sem voz, e marcha festejando rumo ao seu reduto, o Bairro da Figueira, enquanto os avahyanos ainda ficam mais um pouco para reclamar de pênaltis não marcados, impedimentos marcados, do Presidente da Liga, dos buracos no gramado…

Bom, não sei se foi exatamente assim, mas posso afirmar que não foi muito diferente. Alguém duvida?

Édson Luiz da Silva (Velho Bruxo),  http://www.velhobruxo.tns.ufsc.br/
Colaborou Joaquim Corrêa

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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1 responder
  1. Alex says:

    Apenas uma correção: “O primeiro clássico entre Figueirense e Avahy ocorreu em 13 de abril de 1924”. Motivo: os mais antigos primeiros e, especialmente, porque a preferência é para o time da nossa casa (Figueirense, do Bairro da Figueira, Ilha de Santa Catarina), enquanto que o o nome do outro time, nem da Ilha é… o nome veio de um riacho no subúrbio da capital paraguaia – nada a ver com a nossa querida Ilha de Santa Catarina.
    Outra informação: em 1924 o Campo da Liga já se chamava mesmo Adolfo Konder? Ou era apenas Campo da Liga mesmo?

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