Devolva-me o meu amanhã

José Wanderley Dias

Tenho direito ao meu amanhã. Não posso garantir-me, sequer, que ele virá, que ele existirá, uma vez que a vida, ainda que dure décadas, é sempre fugaz, e seus passos sempre incertos. Assim, pode ser que eu veja o sol de amanhã ou venha a sonhar na noite de amanhã. Como pode ser que não. Mas é na esperança de que esse amanhã chegue que eu vivo o dia de hoje. E, esperando, confiando, dando de mim para que o amanhã venha. É sempre doloroso ter-se a certeza de que não haverá amanhã, que hoje será o término, o ponto final. O amanhã é a jornada que chega ao ponto que deveria chegar.

E haverá, sempre, pelo menos na imaginação e no anelo, um amanhã. Assim como se renova cada dia, cada dia tem o seu amanhã: deve tê-lo pelo menos na expectativa, no augúrio, na esperança. Como a vida humana é coexistencial, o amanhã também o é. Não chegaremos a ele sozinhos, pois não caminhamos rumo a ele sozinhos. Assim, cada um de nós é, de certo ponto, responsável pelo amanhã de nosso próximo, de nosso semelhante. O pai é responsável pelo amanhã do filho; em reciprocidade depende muito do filho o amanhã do pai. Marido e mulher constroem-se, reciprocamente, o amanhã do companheiro de todos os dias, companheiro também do amanhã, que devem erigir juntos. E, quando não há essa colaboração exigível, pode ela ser reclamada, e pode ser censurado quem a negue.

Daí o poderem surgir protestos, eloquentes uns, mudos outros, mas expressivos todos eles quanto aos impedimentos de cada amanhã. Se apurarmos os ouvidos, escutaremos vozes, murmúrios e até pensamentos dentro dessa faixa de inconformidade com a não participação do amanhã mútuo ou no amanhã individual, mas repetido convivencialmente.

Por exemplo:

Tu me mentiste. E, acreditando em ti, eu me lancei a um amanhã que não consegui, pois o anunciaste como ele não seria. E, hoje, o amanhã não é o que me poderias oferecer e que até me ofereceste, mas que não consegui, pois a promessa era mentirosa e falsa. E eu tenho direito ao amanhã.

Devolve-o para mim porque, em última análise, foste tu que mo negaste.

Ou poderá ser assim: Fui eu quem faltou. Eu te disse que o amanhã seria de nós dois. Mas, na realidade, fugi, afastei-me, deixei-te só. E, hoje, quando o amanhã de ontem chegou, tu te vês de mãos e alma vazias. Tens direito ao amanhã que te neguei. É, pois, justo que brades, para que chegue aos meus ouvidos, que devo devolver-te o teu amanhã. Pode, também, dar-se que o protesto, a queixa, a lamentação sejam sociais, de todo um grupo, de toda uma comunidade.

Por exemplo, de toda uma geração, a geração do futuro, a geração do amanhã, quando o amanhã chegar. Então, ela interpelará a geração anterior, – a nossa – já tendo passado, ou em vias de passar, e o fará em termos enérgicos, com a execração do brado pessoal ou com a condenação da História…

Onde está o amanhã que terias a obrigação de transmitir-me, tu geração maldita? Onde o teu espírito de paternidade, de maternidade? Hoje, amanhã para ti e também para mim, quando mo anunciavas, vejo, ao invés do paraíso que me anunciaste e que tinhas a obrigação de erigir, o inferno que preparaste, a bomba humano-existencial que montaste e que explodia, retardada, neste instante, hoje e amanhã ao mesmo tempo na eterna história das gentes. Aqui está o ódio, a desolação, a incompreensão, a desigualdade, ervas daninhas que deixaste crescer e que até regaste, joio que não separaste e com o qual nos vemos forçados a fazer o pão amargo de viver no amanhã acre e pestilento que veio de ti.

Devolve-me o amanhã que me roubaste. O amanhã digno desse nome e dessa esperança, desse sonho e dessa aspiração. Como vemos, o amanhã, para todos e cada um, é direito.

Que não podemos comprometer. Que não podemos jogar no impossível pela janela do hoje desigual, capcioso, egoísta. O amanhã deve ser meta de todos. Individualmente. Coletivamente. Vivencial e convivencialmente. Sob pena de, não tendo defesa alguma a apresentar, ouvirmos a sentença dura mas merecida:

– Condeno-te a devolveres o meu amanhã. E, como não poderemos fazer a devolução, o juízo do amanhã sobre nós será terrível, desapiedado e sem qualquer recurso…

(José Wanderley Dias, advogado, escritor, novelista da grande época do Radio – antes do surgimento da televisão -, autor de vários livros, faleceu tragicamente juntamente com Neusa – sua deusa eterna – em acidente de carro em Minas Gerais no dia 11 de julho de 1992. Foi mestre e amigo. Era mineiro de Nova Lima. Superou o número de 10.000 crônicas. Era também jornalista e aposentado da Caixa Econômica.

No dia anterior à sua morte, o jornal Gazeta do Povo de Curitiba, jornal onde mantinha por décadas a sua coluna À Vista do Meu Ponto, publicava a sua última crônica, incrivelmente intitulada Quando eu Morrer.

Do livro: Uma palavra de despedida, apenas de Donato Ramos

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