Dib Cherem

O radiojornalismo em Santa Catarina alça vôo, ainda tímido e titubeante pelas ondas sonoras da PRC-4 de Blumenau, Difusora de Joinville e Difusora de Itajaí e se firma e define como atividade profissional em Florianópolis, a partir de 1945. Com 15 anos entra em cena Dib Cherem.

Com o então cantor Frei José Mojica e o empresário Luiz Fiuza Lima, fundador da TAC - Transportes Aéreos Catarinenses.

Com o então cantor Frei José Mojica e o empresário Luiz Fiuza Lima,
fundador da TAC – Transportes Aéreos Catarinenses.No auditório da Rádio Guarujá, início da década de 1950: A partir da esquerda Jorge Cherem, Dib e Acy Cabral Teive.

“Foi numa manhã ensolarada de outono, lá pelos idos de 1945”, lembra o garoto Dib. Nervoso, mas decidido sobe os degraus do sobrado número 9, na Praça XV de Novembro. “Vim me inscrever no teste para locutor”, fala meio tímido na recepção. Feita a inscrição, marcado o dia. Lá está ele no estúdio, papel na mão, olhos fixos nas letrinhas que teimam em se mexer e o coração batendo mais que bumbo em noite de carnaval. Aprovado.

Contratado. Dia seguinte começa a história de um dos pioneiros do radiojornalismo da primeira emissora da Capital catarinense.

Dib Cherem, 74 anos, recorda “logo depois que eu passei a atuar em rádio era difícil freqüentar restaurantes e até mesmo sair às ruas. Havia um glamour”. E, tímido logo recompõe: “Mas o rádio não era só entretenimento, tinha também o jornalismo”. E foi no jornalismo, mesmo não renunciando a condição de galã, que Dib fez escola. Como os jornais do Rio e São Paulo chegavam no dia seguinte em Florianópolis, tratou de convencer a direção da emissora a contratar os serviços de uma agência noticiosa. Agora, além do serviço de “gilete press” a equipe contava com as notícias captadas pelo serviço de rádio-escuta da emissora e pelo aproveitamento dos boletins da United Press Internacional e da brasileira Asapress. Tudo isso porque “o rádio, então, era o centro das atrações”. Este foi o núcleo que deu origem ao departamento de notícias da Rádio Guarujá que se propunha a preencher uma lacuna na área do jornalismo e dos esportes.

“A rádio Guarujá, em 1945 deixa de ser um pequeno serviço de alto-falantes para adquirir o status de emissora de ondas médias” com direito a prefixo que lhe assegura a condição legal de anunciar: Rádio Guarujá, ZYJ-7 – a mais popular. Embora, reconheça Dib: ‘o fornecimento de energia elétrica era precário e as ligações telefônicas deixavam a desejar. Também os recursos técnicos eram escassos, principalmente para transmissões externas de eventos como reportagens e coberturas esportivas”. Mesmo assim, recorda, a ‘Mais Popular’ como era conhecida a Guarujá, lançouuma arrojada programação que envolvia apresentações musicais de auditório onde nasceram excepcionais talentos, transmissões de novelas, fartos noticiários, em particular os esportivos e outros serviços de utilidade pública como desfiles e bailes carnavalescos, jogos de futebol e eventos alinhados com o interesse dos ouvintes”.

Desse tempo Dib evoca alguns programas noticiosos que predominavam na Guarujá. Bom Dia Florianópolis, uma crônica de sua autoria focalizando temas de interesse coletivo, diariamente às oito horas da manhã; a uma da tarde Correspondente Guarujá; às 18h10min ia ao ar a Resenha J-7 e às 22h00min o Grande Diário do Ar que condensava as principais notícias e editoriais opinativos. Além do mais, reforça Dib, “eram produzidos dois programas esportivos: o Rádio Esportes das 12h40min e o Momento Esportivo das 19h00min”.

O trabalho do dia-a-dia, entretanto era um duro aprendizado. “A elaboração dos noticiários exigia paciência e imaginação, já que as fontes eram pouquíssimas. A gravação dos mais conceituados programas jornalísticos do Rio ou de São Paulo eram recursos utilizados, uma vez que as matérias dos órgãos da imprensa nacional que aqui chegavam tinham perdido a sua atualidade. O mais eficiente e moderno meio de obtenção de fatos nacionais e internacionais era recorrer à agência noticiosa Asapress que remetia, via telégrafo, farto material para ser aproveitado pelos veículos de comunicação da época”.


Dib, secretário de estado do governo Celso Ramos, entrevistado por Antunes Severo, em 1963.

Mesmo sendo uma atividade em grande parte alimentada pelo espírito pioneiro, o rádio para se manter dependia de recursos financeiros. Recursos que deveriam ser proporcionados por investidores e anunciantes. Mas, na verdade, eram todos amadores. “Pois os empresários e pequenos comerciantes ainda não tinham plena convicção dos benefícios que poderiam advir da publicidade para o lançamento de seus produtos”.

Bate Pronto

– Antunes – O rádio, ainda hoje, tem a mesma força?
– Dib – Ainda é ele, hoje, um popular veículo de informação, sobretudo em emissoras especializadas, com notícias a todo o momento, entrevistas e outros serviços de utilidade pública.
– Antunes – É verdade que o atual senador Pedro Simon foi locutor da Rádio Guarujá?
– Dib – O senador Pedro Simon, quando aqui freqüentou o curso de Direito, foi nosso companheiro na apresentação do Grande Diário do Ar, das 22 horas.
– Antunes – No que o rádio pode suplantar a televisão, se isso é possível?
– Dib – Posso argumentar?
– Antunes – Com certeza. Fique à vontade.
– Dib – Debate exibido outro dia num dos canais de televisão abordando temas de natureza administrativa, provocava dúvidas se os mais habilitados técnica e profissionalmente seriam mais capacitados para expressar com clareza seus pontos de vista, esquivando-se das ciladas da própria língua portuguesa. Aliás, tal observação não é fora do comum nos instantes em que os entrevistados demonstram sérias deficiências para esclarecer questões que lhe são postas. A televisão pode ser um instrumento de dois gumes: tanto pode enaltecer quanto lançar ao abismo indivíduos que, normalmente, são dotados de altíssima capacidade intelectual e de invejáveis conhecimentos em sua atividade profissional. No rádio, todavia, a situação é aparentemente inversa, pois distante do temido foco das câmeras e da observação implacável dos telespectadores, seus integrantes não dispensam outras virtudes para um desempenho eficiente, quais sejam: dicção perfeita, voz agradável, aptidão para leitura e interpretação de textos. Tais qualificações são básicas para quantos postulam uma carreira radiofônica, já que essa manifestação da área de comunicações é um dos mais poderosos veículos de divulgação, constituindo-se, ainda, num incomparável caminho para produzir talentos jornalísticos.
– Antunes – Esse pensamento continua válido para os dias de hoje?
– Dib – Mais do que nunca. A sociedade moderna organizada não mais prescinde ou dispensa a tecnologia das comunicações, que aproxima os povos e nações, civilizações e culturas, assegurando a vivência com os eventos de interesse coletivo significando o ingresso das pessoas em todas as manifestações ou dos apetrechos de informática.
Fontes de referência:
Entrevista concedida ao autor em julho de 2003
A Trajetória de Dib Cherem. Cláudio Prisco. A Notícia, 17/8/2004

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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