Difusora de Itajai, a rádio que surgiu como uma curiosidade

Itajai, um dos mais importantes pólos estratégicos da política e da economia de Santa Catarina, tem na imprensa destacado papel. Desde o semanário Itajahy lançado em 10 de maio de 1884 por Mestre Janja (João da Cruz e Silva), até o Diarinho dos dias de hoje os jornais locais contam-se às centenas.
Num caldeirão onde fervilhavam as disputas de nomes como Victor, Marcos e Adolpho Konder (os irmãos Konder), Henrique da Silva Fontes, Thonás Fontes, Isidoro Oliveira, Sérgio dos Santos, João batista de Abreu, Guilherme Abry, Oscar Ramos, Lídio Barbosa entre tantos outros, o rádio teria igualmente prioridade. E o rádio surge na década de 1940, quando o poder político local reúne as famílias Konder-Bornhausen e Miranda Lins, embora estes nomes não apareçam formalmente.

A Rádio Difusora de Itajai foi regularmente instalada em 26 de outubro de 1942 por Dagoberto Alves Nogueira e Adolfo de Oliveira Júnior, ela começou como serviço de alto-falante instalado na praça Vidal Ramos conectado aos aparelhos de som do cinema local. Contudo, como assinala Magru Floriano, ao longo de seis décadas a emissora teve vários proprietários e diretores, destacando-se Genésio Miranda Lins, Olindor Camargo, Washington Nicolau e Alfredo Fóes. Atualmente a rádio pertence à Edith Fóes (esposa de Alfredo Fóes), e tem sua administração sob responsabilidade de Célio Fóes (filho de Alfredo Fóes).

A emissora dominou o setor de rádio da cidade por décadas. Irene Boemer, Célio Alves Marinho, Passarinho Júnior, Silveira Júnior, Breno Kolling, José Pólo, Antonio Carlos Kormann e Aldo Pires de Godoy, são alguns dos nomes de destaque na história da emissora, nas décadas de 1950 e 1960. Quando foi adquirida pelas famílias Konder Bornhausen e Miranda Lins, no final dos anos de 1950 a emissora foi revitalizada em termos de equipamentos e equipe profissional. Sob a direção de Silveira Júnior por lá passaram Antunes Severo, Donato Ramos, Edison Silveira, Humberto Fernandes Mendonça, Iran Manfredo Nunes, Lauro Soncini, João Benjamim da Cruz Júnior e Odemar Costa, para citar apenas alguns. Nesse período a emissora chegou a ter sua própria orquestra e conjunto musical para abrilhantar os populares programas de auditório, bem como bailes e inúmeros outros eventos sociais, como é o caso dos concursos de beleza, muito em moda na década de 1970. Também obtiveram grande receptividade por parte dos ouvintes as adaptações para radioteatro de crônicas, contos e até de novelas. Diante deste sucesso a rádio chegou até mesmo a produzir suas próprias novelas, escritas por autores locais, como Ribeiro Luz e Luiz Carlos dos Santos.

Por sua importância estratégica a Rádio Difusora sempre esteve no centro das atenções políticas, quer auxiliando as Forças Armadas durante a Segunda Grande Guerra, quer enfrentando o Governo Vargas, como relata Floriano: […] em seus períodos iniciais a Difusora defendia a ideologia partidária da UDN (União Democrática Nacional), partido este de direita que defendia os interesses de grandes elites econômicas, isto é, da burguesia urbana que surgia na época com o desenvolvimento do comércio. Um dos principais adversários políticos da rádio, foi Abdon Fóes, do Jornal do Povo, que na época utilizava o veículo para combater as ideologias da Difusora. (Tarnowsky, 1998).

Somente a 28 de setembro de 1968 é instalada uma segunda emissora de rádio na cidade. A Rádio Clube, do grupo de emissoras Coligadas de Blumenau. Gradativamente a Clube começa a disputar a preferência do ouvinte itajaiense, chegando à década de 1990 como a líder de audiência nos horários nobres do rádio, em especial no período da manhã. Dario Silva, Rubens Menon, Paulo Camisotti, Graciliano Rodrigues, Sandro Fernandes, Carlo Antônio Vicenti, Sílvio Kurtz, Marinho Lopes Stringari são alguns dos nomes diretamente ligados a esta emissora.

Além das duas rádios AM (Difusora e Clube) a cidade de Itajaí conta atualmente com a Rádio Educativa Univali FC, que deu início às suas transmissões no dia 18 de dezembro de 1998 na gestão do reitor Edison Vilella. Alberto César Russi, Magru Floriano, Liza Lopes Corrêa, Maristela Barantin da Costa, Fernando Diehl e Jonas Tadeu fazem parte da equipe inicial da primeira rádio educativa de Itajaí.

A cidade conta também com duas rádios comunitárias (com sinal restrito a uma área da cidade). A Rádio Luz do Amanhã iniciou suas transmissões em 1999 no bairro de Cordeiros e  a Rádio Conceição vinculada à paróquia do Santíssimo Sacramento fundada em junho de 2000 que funciona no centro.

Estão estabelecidas ainda em Itajai uma Rádio de Ponto de Ônibus, a BAND FM e Jovem PAN FM. A BAND FM pertence ao grupo da Rádio Clube e a Jovem PAN é vinculada ao grupo da RÁDIO 99 FM, de Balneário Camboriu.

Mas, esta história está contada também por Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira, como se segue.

“A rádio surgiu como uma curiosidade; foi adaptado um pequeno aparelho que conectei a aparelhagem do cinema, onde se aproveitavam as músicas do filme e antes das seções jogava a música no ar”.

São lembranças de Adolfo de Oliveira Júnior, um então jovem de 18 anos que, no início da década de 40, se enveredou pelo mundo radiofônico na cidade de Itajai, resultando suas peripécias na terceira emissora do estado. Como se estivesse entrando no túnel do tempo, ele descreve os primeiros passos da futura  estação, que teve como embrião o sistema de alto-falante. A aparelhagem foi colocada estrategicamente em frente ao Cinema Itajahy e na Praça Vidal Ramos. O meio de comunicação funcionava, a princípio, como um aparato musical – pegando “carona” nas melodias que precediam as sessões do cinema. Mas serviu também como  instrumento de informação, principalmente do exército, que utilizava a aparelhagem para pronunciamentos sobre o Estado Novo e a Segunda Guerra Mundial. Adolfo de Oliveira Júnior salienta que “(…) servíamos de elo de ligação entre o público e o comandante do batalhão, foi o que nos permitiu o registro da emissora na época”.

Tendo como quartel general o Cine Itajahy, o sistema de alto-falante funcionou isoladamente em 1941, para no ano seguinte, exatamente em 26 de outubro, trabalhar em paralelo com a Rádio Difusora de Itajaí, a ZYK-9, em freqüência de 700 quilociclos. Fizeram parte da história  da recém surgida emissora o técnico Adolfo de Oliveira, o cronista Lúcio de Oliveira e os locutores Remaclo Fischer e Adelino Maia, sob a coordenação de Dagoberto Nogueira,  que era proprietário da Radio Difusora e responsável pelo setor comercial. De acordo com o livro Anuário para Itajaí (1949), no momento inicial  houve um certo desinteresse da população pela emissora:

“Nem todos ligavam seus receptores das 19h às 20 horas para aquela freqüência” e, no centro pequeno, esse empreendimento nunca pode oferecer o mesmo número de atrações  que uma rádio difusora de centros maiores”.

Mas, com o passar do tempo, a realidade mudou, como atesta o Jornal do Povo:

“A princípio poucos acreditaram na sobrevivência da estação que era, no ver de muitos, uma tentativa arrojada para o nosso modesto e conservador ambiente provinciano, onde apenas  o Jornal Semanário tinha possibilidade de manutenção. Mas o amparo do comércio e da indústria e esse sistema de propaganda insistente e contínua, possibilitou o funcionamento da nossa já indispensável ZYK-9.”

No ano de 1944, a Difusora deixou suas antigas instalações no Cine Itajahy para se abrigar na sede da Sociedade Guarany. O quadro da empresa também passou por alterações. Entraram para o mundo do rádio as irmãs locutoras Irene Souza Boemer e Hilda Souza. O historiador Valter Gonçalves (1998) conta que a emissora começou a diversificar a sua programação, ao mesmo tempo em que abria caminho para debater problemas sociais da cidade, seguindo uma postura contrária a dos semanários que circulavam por Itajaí. Essa abertura, conta Irene Boemer fez da Rádio uma opção preferida pelas prostitutas, que tinham como tradição oferecer música ou poema aos freqüentadores dos bordéis.

Apesar de já estar participando do dia-a-dia da comunidade,  a data de permissão para  instalação da ZYK-9 veio a acontecer pela portaria 770, de 21 de setembro de 1945, do Ministério de Viação e Obras Públicas, com publicação no  Diário Oficial de 3 de outubro do mesmo ano.

No final da década de 40, Dagoberto Nogueira, simpatizante do partido da União Democrática Nacional , UDN, começou a vender quotas da emissora. A maioria das ações foi parar nas mãos de Abdon Fóes, prefeito da cidade entre 1945 e 1947, e um dos proprietários do Jornal O Povo. A Difusora mudou de cores partidárias, passando a ser do Partido Social Democrático, o PSD.

Fontes bibliográficas: Adolfo de Oliveira Júnior IN:  GONÇALVES, Valter  O. A Rádio Difusora no Ar. Monografia do curso de História. Univali. Itajaí, 1998.

Site relacionado: www.magru.florianos.net/artigos/historia.htm

Na próxima semana: Rádio Guarujá “a mais popular”

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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