Digitalizado, rico acervo fonográfico de Zininho está disponível para consulta

Deitado na cama, gravador a postos, Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho (1929-1998), ouvia programas de rádios do Rio e São Paulo e apertava a tecla “record” quando achava que valia a pena guardar – para si próprio e para a posteridade – este ou aquele material, que podia ser uma entrevista, um noticiário, um musical, uma homenagem a atores, compositores e músicos de sucesso.

Também separou fitas com o que o rádio de Florianópolis produziu entre os anos de 1940 a 1980, programas de notícias, cobertura de eventos e muita, muita propaganda feita por lojas, construtoras e outras empresas na Guarujá, Diário da Manhã e Rádio Santa Catarina. Parte desse material, sobretudo o que ele passou para fitas de rolo, acabou de ser digitalizado e está à disposição dos interessados para consulta na Casa da Memória, vinculada à Fundação Franklin Cascaes, braço cultural da Prefeitura de Florianópolis.

Ali, é possível ouvir áudios com músicas sertanejas (como as da dupla Tonico e Tinoco), orquestradas e de Carnaval, notícias sobre as mortes da atriz Judy Garland (“O mágico de Oz”) e da cantora Linda Batista, a “rainha do rádio”, comentários do jornalista Manoel de Menezes acerca da lentidão das obras de calçamento das ruas de Florianópolis e entrevistas ou tributos das emissoras do centro do país a figuras como Herivelto Martins, Noel Rosa, Emilinha Borba, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Jerry Adriani, Nelson Cavaquinho, Tom Jobim e Elis Regina. O cantor e compositor, autor do “Rancho de amor à Ilha”, hino da cidade, faria 88 anos nesta segunda-feira e será homenageado na terça, dia 9, no evento “Gentleman do samba”, na escadaria do Rosário, às 17h30.

O trabalho de digitalização foi realizado pela empresa Triscele Web e Museologia, que ouviu e recuperou o que foi possível de 1.227 fitas do acervo de Zininho. São 1.772 horas de gravações, conteúdo que, exceto o de algumas fitas danificadas, foi transposto do analógico para o digital, captando inicialmente os áudios originais, o som cru, com ruídos. Depois de escutar o que havia nos lados A e B de cada fita, os técnicos limparam os chiados, fizeram emendas e eliminaram as partes em branco. Por fim, salvaram tudo nos formatos WAV original (bruto), WAV tratado (sem ruídos, com pedaços em branco e faixas espaçadas) e MP3.

Jonei Bauer, um dos sócios da Triscele, se diz orgulhoso por ter ajudado a recuperar o material guardado por Zininho. “É um contributo para a cidade”, afirma, ressaltando que se sente um realizador e, como museólogo, satisfeito porque deu sobrevida a um acervo condenado ao esquecimento. “As fitas não durariam muito mais tempo”, garante. De sua parte, Cláudia Barbosa, filha do compositor, festeja o fato de o espólio estar em boas mãos, ela que via o pai passando horas no estúdio caseiro gravando coisas que hoje constituem um dos poucos registros remanescentes da época áurea radiofonia da Capital. “Ouvíamos rádio 24 horas por dia e nossa casa sempre foi um ambiente musical”, conta ela.

Mais de 1.200 arquivos

O acervo que a família de Zininho doou para a Casa da Memória em 2004 – e que permaneceu durante anos nos porões do atual Museu da Marinha, antiga sede da FFC – contém de tudo um pouco. Sãos mais de 1.200 arquivos onde aparece, por exemplo, a notícia do fechamento parcial da ponte Hercílio Luz ao tráfego, em 1982, e comentários de radialistas sobre novas frentes frias na cidade previstas pelo escritor e meteorologista Amaro Seixas Neto. A história das fortalezas na Ilha de Santa Catarina ocupava espaço idêntico ao do noticiário internacional dando conta dos pronunciamentos do presidente americano Richard Nixon sobre a guerra do Vietnã ou a política externa dos Estados Unidos para a América Latina.

Programas televisivos de Clodovil, Raul Gil, Marília Gabriela e Hebe Camargo, gravações do “Fantástico” e noticiários da televisão local também estão no acervo digitalizado. Há entrevistas com políticos, o consagrado “Sequências da Modelar”, com o radialista Adolfo Ziguelli, narrações de jogos de futebol e o “Bar da noite”, na rádio Diário da Manhã, repleto de bate-papos com figuras conhecidas da cidade. As rádios também cobriram o velório de dom Joaquim Domingos de Oliveira, primeiro arcebispo de Florianópolis, em 1967. E não poderiam faltar trechos de radionovelas, um gênero que fazia sucesso antes que a televisão consagrasse os dramas do horário nobre.

Caçula da família, Cláudia Barbosa conta que o pai também gravou “tele-piadas” e o “tele-horóscopo” para empresas de telefonia e que era “um gravador compulsivo”. Quando não estava na rádio, passava horas em meio à parafernália de equipamentos, dentro da própria casa, gravando, apagando e transpondo para outros suportes coisas que hoje podem ser ouvidas por gente que nunca ouviu falar dele. Um fato pitoresco narrado por Cláudia é que sua avó desligava o aparelho na hora das radionovelas, cujas tramas cheias de conflitos e traições considerava imorais.

De Chiquinha Gonzaga ao homem na Lua

Os funcionários da Triscele Web e Museologia fizeram um trabalho técnico, pagos que foram com recursos do Edital Elizabete Anderle carreados para o projeto Memória Digital, por meio da Casa da Memória, mas também se empolgaram com o conteúdo que as fitas de rolo continham. Eles citam as músicas de Chiquinha Gonzaga cantadas por Neide Mariarrosa, notícias de atores e atrizes de Hollywood, a cobertura da primeira viagem do homem à Lua e os rescaldos da Segunda Guerra Mundial. Chamaram a atenção, igualmente, as propagandas das lojas Koerich, da rede LPO, das organizações Hoepcke, do refrigerante Pureza, dos móveis Cimo e de produtos como a TV Phillips e o fortificante Sadol. As rádios também prestavam serviços e ajudavam os ouvintes, por exemplo, a declarar o seu Imposto de Renda.

De todo o material, apenas oito fitas estavam inutilizadas pelo desprendimento do polímero, resultado da ação do tempo e da insalubridade. A idéia da empresa é propor uma segunda etapa, que consistiria em criar uma plataforma online que permitisse o acesso remoto, democratizando de fato a consulta do material. Hoje, os interessados precisam acessar um relatório com centenas de arquivos em PDF para encontrar o conteúdo procurado.

Mais do que eles, a filha Cláudia Barbosa tem especial apego ao material e fala que há centenas de fitas magnéticas (K-sete) esperando por digitalização, cujo conteúdo pode trazer mais surpresas e revelações sobre os antigos programas de rádio. Também ali o próprio Zininho, cioso de seu acervo, identificou o que cada fita continha, o que é essencial para uma futura catalogação. Por essas e outras é que Zininho, personagem típico da Ilha, frequentador de bares e bom vivant, está na memória da cidade. “Meu pai saía com cigarro, cinzeiro, gravador e fita na pochete”, recorda Cláudia. Com esse prosaico arsenal, gravou parte da história da Capital de meados do século 20 para cá.

 

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