Do cata-vento ao rádio digital 05

O concerto na casa dos Bronfmann foi um divisor de águas para aquela patota improvisada em audiência de elite. O que foi visto e ouvido naquele sábado, serviu de alimento para muitas conversas e discussões. Virou referência, deu o que pensar e despertou a vontade de mudar.

Os encontros que eram de puro lazer mudaram de rumo. Parece que as fronteiras limitadas de uma vida sem horizontes, de repente foram rompidas e o que se via mais distante chegava claro como coisa há muito conhecida. Para o garoto apaixonado por rádio a experiência do concerto de música clássica somada ao conhecimento de músicas populares que o amigo Adão mostrava foi o ponto de partida para uma reviravolta em sua vida.

Juntando às lembranças da Capela – o cata-vento, as músicas, os causos que ouvia, até os chiados e ronqueiras do rádio – os acontecimentos depois que viera para Rosário não deixavam dúvida. Ele dava os primeiros passos em direção a outros caminhos e sentia que seu mundo tinha a ver com o serviço de alto-falantes da praça, com as histórias de outros lugares e com os livros que vira na mão dos amigos de turma.

O quebra-cabeça, com o escoar do tempo ficava ainda mais intrincado. A realidade do seu dia-a-dia, a insegurança do pouco convívio com os familiares recém-conhecidos, a dependência econômica, o convívio restrito com aquele grupo de rapazes, os pouquíssimos contatos com outras pessoas, pareciam uma limitação intransponível.

Na busca por soluções, de imediato ressalta a necessidade de conseguir trabalho. Nas conversas com os amigos descobre dois impedimentos: o jovem sonhador não sabia ler e não tinha documentos. Nada, nem certidão de nascimento.

Os encontros na praça ficaram restritos aos sábados no final da tarde. Agora havia o compromisso firmado com o amigo e conselheiro Adão Feldmann: ia aprender a ler com ele.

Adão trabalhava a bastante tempo na Casa Rosário e conquistara algumas regalias. Almoçava com a família dos proprietários e dispunha de uma hora para estudar. Ele tinha até um lugar reservado no depósito onde ficam seus livros e cadernos. A confiança dos patrões era tanta que autorizaram o seu empregado partilhar aquele horário com o seu aluno.

Em três meses, professor e aluno já participavam de uma escola de verdade. O sargento Sejanes do exército, transferido do Alegrete para Rosário abrira uma escola noturna do SENAC para alfabetização de adultos e jovens. O curso longe do formato de uma escola padrão era orientado para as necessidades imediatas dos alunos. Até a duração era abreviada. Em seis meses, quem tivesse aprendizado suficiente e interesse em continuar estudando poderia “passar de ano”.

O curso também se preocupava com a formação cívica dos seus alunos. Assim é que em setembro, na semana que antecede os festejos da Independência, sob a direção do aluno João Osório Retamal, estudantes do Curso SENAC estavam representando “O Grito do Ipiranga”. E o menino do Itapevi, agora rapazote com os seus dezessete anos, de adaga em punho, no palco do Teatro Municipal de Rosário do Sul, personificava o Príncipe Regente Dom Pedro I pronunciando a célebre frase “se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, digam ao povo que fico”.

Na próxima semana: outro passo, mais um desafio inusitado.
 


{moscomment}

Categorias: Tags: , , ,

Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *