Do cata-vento ao rádio digital 14

O sonho entra em sintonia de desafio. O romantismo de uma vida de artista a desfilar pelos auditórios cai na real e tem que enfrentar questões técnicas, comportamentais, éticas e profissionais. Está em jogo uma carreira a ser construída com trabalho e dedicação. O Menino do Itapevi vai ser radialista profissional.O quarto transformado em estúdio, a mesa próxima da parede, o microfone no pequeno pedestal, a caixinha de textos e a cadeira vazia. Do outro lado do vidro duplo o operador de som manuseia discos de vinil que não param de tocar. E ali, em pé, sozinho, o mais novo locutor da emissora. Vinte e dois anos, 1,75 m, 75 quilos, cabelos castanhos claros encrespados, olhos azuis arregalados de medo.

O garoto está gelado. Mal consegue respirar. A mente gira veloz com as cenas da infância paupérrima na campanha gaúcha, a casa da Capela com o cata-vento, o assombro do rádio falando castelhano e tocando tangos, a aventura de ir para a cidade, o serviço de alto-falantes, os novos amigos com quem aprendera a ler, o serviço militar e agora o começo de uma nova jornada. O que diriam a mãe, os familiares e os amigos de Rosário?

O som da campainha cai como um jato frio e cortante. O colega da técnica informa o término do intervalo musical. É hora de começar. Senta-se. Olha novamente a parede envidraçada e no lugar do operador de som apenas uma sombra levemente iluminada. Volta a olhar a parede que os separa e une ao mesmo tempo. Na caixinha acima do retângulo de vidro acende uma luz e brilham as palavras mágicas que seriam suas companheiras por anos afora: No AR!

O impacto do letreiro sobre as ondas da luz funciona como estabilizador e traz à memória do principiante a lembrança do começo na Rádio Marajá. Respira fundo, sorri para o colega de trabalho que aguarda paciente e começa.

:: Senhoras e senhores ouvintes, boa noite. Hoje é dia primeiro de agosto de 1953, sábado. São vinte horas pontualmente. Esta é a ZYG-9 Rádio Rio Negro, uma estação da Rede Paranaense de Emissoras que transmite em 970 quilocliclos com 250 watts de potência, da cidade de Rio Negro, Paraná. Meu nome é Antunes Severo e eu estou iniciando minhas atividades nesta emissora. O operador de som do horário é o colega Mário Francisco dos Santos.

:: Nossa programação desta noite começa com uma seleção de música popular brasileira e internacional. Ouviremos a seguir Nelson Gonçalves interpretando o samba-canção de Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves, Quem há de dizer e na voz de Libertad Lamarque o tango Uno de Enrique Santos Discepolo e Mariano Mores.

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:: Uno, tango de Enrique S. Discepolo e M. Mores na voz de Libertad Lamarque
 


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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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