Do cata-vento ao rádio digital 16

De Rio Negro ficam a saudade e os amigos conquistados. Na rádio, o gerente, Hugo Von Linsengen; o chefe de locutores, Sansores França e os colegas da técnica. Na cidade, a família Nadrowski, em particular a Irene que virou irmã querida até hoje. E as namoradas, ah! As namoradas, nem é bom falar.

Trabalhar em Curitiba é mais do que um recomeçar. É o estágio necessário para chegar mais perto do grande objetivo: atuar numa emissora famosa, que está entre as primeiras do Brasil e é ouvida também em todo o país. Para chegar lá, vale qualquer sacrifício.

Com a determinação de se transferir para Curitiba o Menino do Itapevi procura o amigo Sech Júnior, que conhecera em Rio Negro. Sech, experimentado locutor e produtor de comerciais para o rádio é contratado da Rádio Marumby e quer dedicar mais tempo ao seu negócio, uma pequena agência de corretagem e produção de spots e jingles. Então, pede licença na rádio e indica o amigo para a sua vaga. Aprovado no teste, o novo locutor é contratado imediatamente.

A ZYS-32, Rádio Marumby Limitada, pequena emissora do vizinho município de Campo Largo operava com estúdios na rua XV de Novembro em Curitiba, fazendo cócegas na poderosa PRB-2, Rádio Clube Paranaense, uma das poucas emissoras do país que transmite em ondas médias e curtas com audiência nacional.

A emissora de Bilu Macedo, como era conhecida a Marumby, fazia um rádio dinâmico com programação de auditório, radioteatro e muita atuação noticiosa, principalmente reportagens externas. A participação de repórteres transmitindo informações por telefone era uma autêntica novidade e uma ação impensada numa emissora tradicional como a B2.

Aos mais novos locutores cabia cobrir as ocorrências policiais da noite. O contato mantido por telefone era feito direto da delegacia de plantão por volta das seis e meia da manhã. O “aprendizado” para os novos repórteres incluía o registro de pequenas ocorrências de rua utilizando uma gravadora que precisava de duas pessoas para carregar. E foi numa dessas que o Menino do Itapevi estreou de forma inesquecível.

O motorista perdeu o controle e o ônibus foi parar quando bateu num poste, quase subindo à calçada, bem próximo do prédio sede da rádio, na subida da rua XV de Novembro. O repórter inexperiente descreve o acidente como resultante de velocidade em excesso. Mal a matéria foi levada ao ar chega na rádio um dos diretores da empresa de ônibus e vai falar direto com o diretor da emissora. Bilu Macedo contornou o ocorrido, mas depois da saída do visitante chama o repórter e com o seu jeito bonachão dá uma chamada que termina meio em gozação: “e aprende garoto, essas latas velhas mal conseguem chegar aos 40 quilômetros horários”.

Radialista sempre ganhou mal e principiante nem se fala. Então tem que se virar. No caso do nosso personagem, muito bem recomendado pelo seu apresentador, foi-lhe dada licença para dormir na emissora enquanto não recebesse o primeiro salário. Como não havia aposentos adequados, o jeito foi improvisar uma cama com dois cobertores estendidos no chão na central técnica, uma sala onde ficam os equipamentos que processam e enviam os sinais de áudio para o transmissor situado a uns 50 quilômetros no município de Campo Largo. Era inverno e ali o ambiente ficava aquecido pelos equipamentos que permaneciam ligados direto a noite toda.

O jovem profissional já aprendera que para vencer precisa-se mais do que trabalho, tem-se que estar alerta às oportunidades 24 horas por dia. Por isso, ele dormia com o rádio sintonizado na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que além de estar na sede do governo federal é a principal fonte de notícias para as demais emissoras do país. Foi assim que na madrugada da noite de 24 para 25 de agosto o Menino de Itapevi acorda ao som do prefixo do Repórter Esso, o noticioso mais conhecido do rádio brasileiro. E antes do que muitos dos seus colegas de todo o país, ouve o locutor Heron Domingues, emocionado, mas preciso e seguro dizer:

Atenção! Atenção! O presidente Getúlio Vargas foi encontrado morto em seus aposentos com um tiro no peito.

E corre para o estúdio para comunicar a notícia ao locutor do horário.


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