Do cata-vento ao rádio digital 17

A notícia da morte do presidente Vargas corre o país como a chispa de um raio. Tinha o efeito de uma convulsão que mexia com as emoções de todos, desde o político no Congresso Nacional ao pacato homem do campo que mal sabia o que dizer à mulher e aos filhos.
Em Curitiba o impacto não foi diferente. E as demais emissoras – Clube, Guairacá, Paranaense e Cultura – surpreendidas pela agilidade da Marumby colocaram-se em campo e dedicaram a maior porte do tempo de transmissão do dia aos acontecimentos relacionados com a morte do Presidente.

Porém, o tempo passa e outros acontecimentos assumem o seu instante de glória efêmera na sucessão das coisas da vida.

A Rádio Marumby, mesmo sendo uma pequena emissora, reunia em sua equipe experimentados profissionais, como lembra Ubiratan Lustosa no site http://www.ulustosa.com/ : “o Locutor-Chefe era Herrera Filho e atuavam como locutores Nicolau Nader, Waldemar Haquime, Vicente Mickosz e João Lídio Seiler Bettega. Vieram em seguida Regina Célia, Carlos Nogueira, Silvia Loretti, Norberto Castilho, Leo Becker e Souza Miranda”. Com estes, mais o novato Antunes Severo, o pessoal do esporte e os operadores de som, a equipe chegava a 25 profissionais.

A direção da emissora inspirada na repercussão da cobertura jornalística, ousa mais. Busca temas incomuns e os transforma em reportagens e até mesmo em séries que ficaram famosas: como a transmissão da abertura e trechos de espetáculos circenses ou de sessões especiais com cantores famosos e até peças teatrais levadas no picadeiro do circo Irmãos Queirolo, quando de suas estadas na Capital paranaense. A série de matérias diretas da casa da família de uma menina que dizia ver em determinados horários a imagem da mãe de Jesus projetada na janela do seu quarto; e a enquete popular da primeira eleição para prefeito da cidade de Curitiba, em 1954.

O episódio da eleição do major Ney Aminthas de Barros Braga para prefeito da Cidade representa também fato relevante na carreira profissional do Menino do Itapevi. Curitiba embora beirando os 200 mil habitantes, até então havia sido dirigida por prefeitos ou funcionários designados pelo governo do Estado; nunca tivera um prefeito eleito.

O cargo de prefeito eleito pelo voto direto foi disputado por cinco candidatos. Quatro representando partidos tradicionais e um deles, o major do exército Ney Braga, sem partido.

Nesse momento brilha a estrela do jovem repórter Antunes Severo que é escalado para realizar a série de reportagens externas a serem veiculadas na programação vespertina da emissora. O trabalho constava de selecionar pontos de aglomeração urbana – filas de ônibus, parques públicos, feiras, bares e botequins nos bairros – e gravar rápidas entrevistas identificando a preferência eleitoral da cidadã ou cidadão.

A reportagem com dez a 15 minutos de duração mostrava as preferências de 50 entrevistados em média, por edição. O programa foi ao ar na primeira semana de agosto quando o assunto eleição apenas começara a esquentar e era até mesmo pouco valorizado pela população. Portanto, um dos desafios do repórter era conseguir a indicação de voto dos entrevistados.

Com persistência e uma abordagem informal e simpática o trabalho começava a ganhar corpo quando a repercussão dentro da própria rádio transborda e levanta-se a primeira dúvida: até que ponto esse tipo de levantamento é válido e o que lhe dá a necessária credibilidade? Nada foi dito, mas uma das incógnitas era a inexperiência do repórter: “Como aquele jovem ingênuo, que chegou aqui praticamente ontem e nem conhece a cidade ou as forças políticas locais, pode conduzir com isenção um trabalho dessa natureza?”

Para aumentar as incertezas, naquela semana o assunto foi parar nas páginas de um dos principais jornais da cidade.


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