Do cata-vento ao rádio digital 22

Olá, bom dia! Viemos de longe, andávamos a esmo, quase perdidos. Hoje nos encontramos, nós somos daqui. Nossas almas são gêmeas, trazemos sonhos e esperanças para compartilhar.
Assim se consolidou o compromisso, sem palavras, sem gestos, em tempo de comunhão, em sintonia de sentimentos, como uma força antiga, atávica que desabrocha em forma de flor numa cálida manhã de outono, quase verão.

O trajeto até o prédio da Rádio Diário da Manhã foi em silêncio, um silêncio leve, diáfano como a indicar “este é o caminho”. Apenas chegando à Praça XV as atenções, como se tivessem sido arrastadas por uma força invisível, foram se encaminhando para o palácio sede do Governo do estado, a Catedral, o Jardim Oliveira Belo, as árvores imensas, a figueira central e mais à direita como parte da praça-mãe a pequena praça Fernando Machado com aquele monumento que parecia estar protegendo o já velho e desgastado Miramar.

Enquanto andávamos, meio flutuando naquele clima de tantas e variadas belezas, eis que surge do outro lado da praça o prédio de três andares da Rádio Diário da Manhã que ali sozinho parecia majestoso.

Dez horas da manhã subimos as escadas que nos levavam ao primeiro andar onde deveríamos procurar pelo diretor. No primeiro andar, além das salas reservadas à administração, estão o auditório, o estúdio de readioteatro e a técnica de som. A direita da entrada, numa sala comprida que começa estreita e depois se alarga, atrás de uma montanha de papéis sobre a mesa está Chiquito Mascarenhas, como é mais conhecido.

Simpático levanta, nos recebe, dá boas vindas e vai logo dizendo:

– Vou mostrar a nossa rádio pra vocês. E segue andando e falando: neste auditório fazemos os programas com atrações locais, aqui (no mesmo nível do palco) é o estúdio de onde transmitimos as novelas e programas radiofonizados e do outro lado (do palco) fica a sala de controle de som e gravação e nesta outra sala (já voltando para o auditório) fica a direção de radioteatro.

Voltamos em direção à porta de entrada do auditório, onde a escada de acesso à rua fazia um L e continuava até o segundo andar. Chega-se direto numa sala enorme destinada à redação, a direita está a discoteca e a esquerda da sala o estúdio e a sala de controle técnico.

Enquanto o Chiquito fala, às vezes se atropelando num sotaque aportuguesado da Ilha de São Francisco, nós vamos observando. Tudo simples, limpinho, equipamentos bem conservados, estúdios com tratamento acústico de boa apresentação e as pessoas sempre muito receptivas quando éramos apresentados. Ali tinha um cheirinho de “estou em casa”.

Retornamos ao primeiro andar e nos despedimos na porta de sala da Direção, com o lembrete “olha voltem a uma e meia que é o meu horário de locução e eu quero encaminhar vocês para começar a trabalhar”.

Começamos fazendo locução em dupla, Chiquito e eu, enquanto o Edwin ficou junto do operador de som para se familiarizar com o equipamento. A programação da tarde, à base de música gravada e intervalos comerciais, intercalados com noticiários rápidos era uma rotina padrão nas emissoras da época. Toda a vez que anunciávamos uma música o Chiquito saia do estúdio e fazia telefonemas, conversava com outros funcionários e depois voltava. Foi assim até às duas horas da tarde quando ele literalmente desapareceu para só retornar poucos minutos antes das seis horas para apresentar A Hora do Ângelus.

Com dois livros de preces – um de São Francisco e outro com o Evangelho – debaixo do braço, mais uns papéis com anotações a caneta ele entra no estúdio me dá tchau e lembra: amanhã tragam os documentos para fazer a admissão.

Na próxima semana: o primeiro choque cultural.


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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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