Do cata-vento ao rádio digital 23

Com dois livros de preces – um de São Francisco e outro com o Evangelho – debaixo do braço, mais uns papéis com anotações a caneta ele entra no estúdio me dá tchau e lembra: amanhã tragam os documentos para fazer a admissão.
Entramos com o pé direito, foi o pensamento imediato. À noite, começamos a tratar da vida: conhecer o centro da cidade, os bares, restaurantes, cinemas, sentir o movimento, apreciar o footing da Praça XV e primeira quadra da Felipe Schmidt – quem sabe poderia pintar um namorico para facilitar o aculturamento de que precisávamos.

Nós ainda não sabíamos, mas a Florianópolis de 1956, no dizer do cronista Osmar Silva, era uma cidade de “Ruas tranqüilas e mal iluminadas, que mergulham cedo no silêncio da noite, enquanto os casais e namorados procuram as sombras protetoras dos portões”. E mais adiante relata o cronista que logo a seguir viríamos a conhecer e trabalhar na mesma emissora: “Chego à Praça XV, coração da cidade. O Jardim maravilhoso e convidativo está deserto. Alcanço a Felipe Schmidt, a rua dos cafés e das confeitarias, o fogo-fátuo das nossas pretensões a cidade grande! É a rua dos footings e das conversas fiadas”. Há homens pelas esquinas, homens que vão e que vêm, matando o tempo, à espera que as sessões de cinema terminem!”

Ainda bem que Osmar Silva também era um apaixonado pela cidade e acrescenta antes de terminar a crônica que tempos depois eu mesmo, Menino do Itapevi, leria ao microfone da Rádio Diário da Manhã: ”Dentro de mais alguns minutos a rua ganhará movimento e colorido! As jovens estarão desfilando a plástica e a elegância e distribuindo sorrisos cheios de promessas, aos olhares ansiosos que as aguardam!”

E assim também foi para nós naquela noite. E depois dos flertes – aquela relação amorosa mais ou menos casta, leve e inconseqüente –fomos jantar. Escolhemos o restaurante melhor iluminado e com vistas para a praça. Antes das dez da noite estreávamos o cardápio ilhéu do Restaurante Estrela, de mestre Tourinho: tainha frita, com arroz branco e pirão de caldo.

Para um jantar histórico como este, os complementos deveriam ser também a caráter. Pedimos “duas purinhas” vindas direto dos alambiques artesanais do sul da Ilha e uma bem gelada Antártica fabricada em Joinville. Com a “saidera” – sétima garrafa derrubada em pouco mais de uma hora, veio a conta, pagamos e nos dirigimos ao dormitório do Luiz na Conselheiro Mafra.
Na manhã do dia seguinte, estávamos tão empolgados que da noite anterior nossos registros só acusavam motivos de alegria e satisfação. Afinal, estávamos empregados, numa nova cidade, pequena e pacata é verdade, mas que prometia muito com relação às garotas que desfilavam como se estivessem em passarelas de aveludados tapetes movendo-se ao som de músicas de inimaginável beleza e sonoridade.

O dia foi tão especial que o anunciado choque cultural foi transferido para o próximo episódio desta série.


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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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