Do cata-vento ao rádio digital 24

Da doce languidez da planície que se perde no infinito dos horizontes aos meneios sensuais do ondular das coxilhas, há nuances capazes de encantar uma vida. Encanta, mas ainda é pouco para consagrar uma vida. Dos picos e quebradas da serra agreste às plácidas águas do pequeno arroio que passa no quintal da casa, há um vigor nostálgico que não se encontra em mais nenhum outro lugar. Nada, porém, se compara ao fascínio das ondas que se perdem na imensidão do mar. Nascido ao som do suave deslizar das águas do pequeno Arroio Itapevi, nas encostas da Serra do Caverá, quase na divisa do Brasil com a República Oriental do Uruguai, eu estava agora na ilha maior de um arquipélago conhecido e abençoado pelo nome de Santa Catarina.

O mar imenso, as mais de 30 ilhas, as praias sem conta – embora mais de 100 já tenham sido contadas – as cadeias de montanhas dentro e na parte continental litorânea, tudo grandioso, silvestre numa sucessão de contrastes de azuis celestes e verdes marinhos enfeitados por uma miríade de cores brotadas da vegetação extensa, morna e luxuriante.

Pensei no que havia comentado com o Edwin e refiz a leitura anterior: Mano, nós ganhamos mais do que uma ilha, isto aqui é um pedaço do paraíso.

Era o nosso segundo dia na cidade e no trabalho. O ambiente de simplicidade e de acolhimento por parte da direção e dos colegas facilitava o entrosamento e assimilação dos hábitos e costumes locais. Mesmo assim, alguns aspectos de relacionamento e convívio chamavam a atenção.

Principalmente o que me parecia um paradoxo quando comparava a exuberância e a beleza do local, com a simplicidade, acanhamento e pobreza da cidade. Como assinalara um jornal paulista da época:

“Confinada em um pequeno triângulo, entre o Morro do Antão e o mar, com poucas possibilidades de crescer na ilha e estendendo-se para o continente, a cidade e a ponte Hercílio Luz separam duas baías de pujante beleza. Praias, pedreiras de formas caprichosas trabalhadas pela erosão, furnas e pequenas matas, constituem atração turística. Barcos de pequeno calado cruzam as águas lentamente e pescadores subnutridos trabalham de sol a sol, monotonamente desesperançados”.

Um verdadeiro paradoxo. Contradição ainda maior ressaltava ao se olhar a cidade e sua gente sob o ângulo do ambiente interno da Rádio Diário da Manhã. A emissora ao mesmo tempo reunia uma boa parte dos melhores profissionais formados no rádio local com outros vindos de lugares tão díspares como Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul e até da Bolívia, como era o caso do locutor e cantor Carlos Del Rio.

Aliás, talvez por isso o rádio tenha marcado de maneira indelével a vida da cidade.

Em meados da década de 1950, a cidade de Florianópolis contava com três emissoras: Guarujá instalada em 1943, Anita Garibaldi que entrou no ar no final de 1954 e Diário da Manhã inaugurada em janeiro de 1955.

Em 1956 quando Edwin e eu chegamos a Guarujá mantinha-se em posição conservadora e avessa aos modismos da época, a Anita Garibaldi praticava uma comunicação panfletária e quase anarquista e a Diário da Manhã, moderna e bem aparelhada em equipamentos, com uma equipe experiente e dinâmica apresentava-se como a grande senhora dos novos tempos bem ao estilo do que pregava a UDN – União Democrática Nacional, partido político a que pertencia o concessionário da emissora, o governador Irineu Bornhausen.

Nossa prova de ambientação, entretanto, ainda estava inconclusa e o momento chegou quando o colega Humberto Fernandes Mendonça, de maneira gaiata e simpática decretou: “sábado vocês vão ver o que é bom nesta terra, vamos derrubar umas loirinhas geladinhas com muito camarão ao bafo e casquinha de siri no bar do Praia Clube”.

E eu que mal sabia existir algo com o nome de camarão e que muito menos sabia de siri, fiquei com a pulga atrás da orelha, mas quieto como manda o figurino.


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