Do emblemático Nelson Almeida – 3

Prédio sede da Rádio Difusora que pertenceu ao antigo Cine Arajé

Prédio sede da Rádio Difusora adquirido do antigo Cine Arajé em meados da década de 1940

Nelson Almeida jamais deixou de transpor barreiras que se antepunham a sua trajetória profissional. Nunca foi de muitos amigos. Tinha sua rodinha mais íntima a quem relatava algumas idéias, sem jamais expor os planos integrais que tinha na cabeça.

Nas décadas de 1950 e 1960 não era tarefa cômoda dirigir uma emissora de rádio. Não havia nem um décimo dos recursos que hoje estão disponíveis, especialmente no concernente à parte técnica.  Os transmissores ainda eram dotados de válvulas e, dentre estas, a chamado 813 (ou válvula mãe).

Até os mais céticos apelavam a uma oração ou um pensamento muito positivo para que ela não “queimasse”; se isso ocorresse, sairia pelo ralo o orçamento de quase um mês da emissora, não somente pelo seu custo. É que, sendo rara a sua queima, não estava à disposição para compra a não ser em São Paulo e, na melhor das hipóteses, em Porto Alegre.

Exatamente esse fator levava as emissoras de ondas médias a planejar intervalos vespertinos e também horários mais restritos de funcionamento, pois a vida útil da 813, como de resto todos os demais componentes do transmissor, era restrita (como as lâmpadas de resistência de hoje, que já estão sendo superadas).

Corria o ano de 1949 e a Rádio Difusora de Laguna seguia liderando, absoluta, a audiência no sul catarinense. Um bárbaro crime é perpetrado na cidade. Um médico, sob a alegação de que sua mulher o vinha traindo, sufoca-a na banheira esmaltada onde ela se banhava, na casa onde residiam.

Por se tratar de pessoa altamente integrada à sociedade local, o caso surgiu como uma bomba. Depois de um processo de relativa duração, eis que o Dr. Santiago finalmente senta no banco dos réus.

Nelson Almeida não perdeu tempo. Com a sempre eficaz companhia de Carlos Horn, um verdadeiro aparato de equipamentos foi instalado no Fórum da Cidade (na chamada antiga Câmara de Vereadores).

Anunciado insistentemente pela Difusora durante todos os dias que antecederam o Júri, o sul catarinense ficou prevenido para acompanhar o desenrolar desse acontecimento tão inusitado quanto violento.

Nelson foi pessoalmente fazer a cobertura de todo o transcorrer dos debates entre acusação (Promotoria Pública) e defesa. E nesta, ninguém menos que o mais brilhante jurista de então, o próprio desafeto de Nelson Almeida, Dr. João de Oliveira.

Uma linha própria substituiu a linha telefônica, muito requisitada naquele tempo em transmissões externas. Um dos júris mais longos estava por começar.

E – sem nenhuma dúvida – poucas transmissões no Brasil, envolvendo um só fato, perduraram por tanto tempo. Foram três dias de cobertura ininterrupta desde o Fórum da Comarca.

A astúcia do criminalista João de Oliveira era algo incomum. Levou os jurados a tal ponto de convencimento da inocência de seu constituinte, que este deixou a sala de julgamento sob a tutela do mesmo: absolvido.

Sedimentou-se ainda mais o prestígio e o “poder de fogo” d’ “A Mais Poderosa”, status que ela jamais deixou de ostentar, para orgulho dos lagunenses e profissionais que por ela passaram e jamais a esqueceram.

Carlos Horn, por sua vez, conseguira o “milagre” de manter a emissora três dias no ar, sem que nenhum dano viesse a ser causado ao seu equipamento.

Depois desse dia, o Dr. Santiago deixou a cidade para nunca mais voltar e sem deixar endereço a quem quer que fosse.

Ru?nas da Rádio Difusora no dia em que o prédio caiu

Ruínas da Rádio Difusora quando o prédio caiu

Detalhe das ru?nas do prédio da Rádio Difusora

Detalhe das ruínas do prédio da Rádio Difusora

Como Rádio Difusora de Laguna – ZYH-6 – fundada por Nelson Almeida, a emissora nasceu nos altos de um pequeno prédio (ainda existente) na rua XV de Novembro, hoje calçadão central de Laguna. No térreo havia um salão de sinuca. Comprado o edifício do ex-cinema Arajé, ela foi transferida para lá (na praça principal).

Posteriormente, vendida para o Grupo Diomício Freitas a Difusora retornou para as mesmas instalações da rua XV, já então calçadão (já que na separação da sociedade Freitas/Guglielmi, a rádio ficou com os Freitas e o prédio com os Guglielmi). Posteriormente esteve em dois endereços da Rua Raulino Horn, e hoje está na Rua Jerônimo Coelho e é de propriedade de Grupo Henrique Salvaro.

Aquelas ruínas que estão em duas fotos permaneceram assim por algum tempo, sendo depois totalmente demolidas.

No mesmo local funciona hoje uma pizzaria e restaurante (Chedão).

De todo o suntuoso edifício sobrou, na parte externa da rua transversal (à esquerda e nos fundos) cerca de 1m do canto que foi aproveitado para a construção de um muro que circunda o restaurante.

É, lamentavelmente, a última e saudosa lembrança de todo um imponente edifício do qual temos imensa saudade!

2 respostas
  1. Aroldo Camillo says:

    Nasci, residi e estudei em Laguna até fins de 1953. Conheci e frequentei a Radio Difusora de Laguna. Lá trabalharam Dakir Polidoro, Napoleão …, Paulo Quaresma e outros.
    Na noite do fato estava na cidade. Passei no local. Estava repleto de lagunenses. Foi algo extraordinário. Conheci pessoalmente o Dr. Joâo de Oliveira, pai do Dr. Volnei Colaço de Oliveira, Procurador da República aposentado que reside na Jurerê Internacional.
    Pensava em estudar direito como aconteceu quando me formei em 1962 pela segunda turma da UFSC. Resido e trabalho em Florianópolis desde 1954 onde mantenho meu escritório de advocacia: “A. J. Camillo Advogados & Consultores”. Comecei como criminalista, depois fui para o constitucional, civil e administrativo, onde atua até como advogado de empresas. Se devesse recomeçar, seria advogado novamente. Lembranças fecundas.
    A. J. Camillo

  2. Antunes Severo says:

    Complemento de informação enviada por Agilmar por e-mail para o editor:

    Houve uma particularidade bastante interessante nesse epísódio do desmoronamento do ex-prédio da Rádio Difusora. O senhor Júlio Teixeira (*), que trabalhava numa repartição pública nas imediações, costumava deixar seu bem cuidado Opala (que aparece na foto) estacionado durante o dia na sombra do prédio. Isso ele fazia por não admitir que seu carro tivesse a pintura danificada pelo sol excessivo… Foi a única “vítima” do desmoronamento, pois a parede lateral caiu inteirinha sobre o carro. Na ocasião eu já não mais estava em Laguna, pois o fato ocorreu já na década de 1960 (aqui trabalhei de 1954 a 1959). Com relação à observação do advogado Camilo, cujos familiares são muito conhecidos em Laguna, deve ele ter vindo a sua terra natal e, coincidentemente, quando o prédio ruiu (segundo afirma viveu aqui somente até 1953, época em que – realmente – a equipe contava com Dakir, Quaresma e Napoleão (este foi o primeiro locutor comercial que o sul catarinense teve como profissional, “importado” de Criciúma).

    (*) Avô do amigo Gustavo Teixeira Barzan (Posto Miramar), ex-presidente do Rotary.

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