Doloroso saldo de memória de Ângela Maria e Luiz Gonzaga

Nesses meus alguns anos de rádio tenho visto e ouvido muito coisas boas e muitas ruins. As boas fazem parte do acervo de lembranças que procuro preservar. E as ruins fazem parte do que considero necessário contar para que outros possam evitar cometê-las. Começo essas relembranças com as imagens dessa foto que não me deixam mentir quando falo sobre o que aconteceu. Esse foi um dos momentos antológicos da minha carreira de radialista.  Eu trabalhava na Rádio Rural de Concórdia, SC, onde fazia de tudo um pouco: locução, reportagem, produção e direção artística, mas o registro fotográfico foi feito pelo Foto Frank no Clube Recreativo do município de Seara/SC, no dia 13 de maio de 1981. No podcast Ângela interpreta Cinderela de Adelino Moreira – gravação de 1966.

Os fatos como de fato aconteceram

De início preciso confessar minha inocência ao revelar que a Ângela Maria me convidou para apresentá-la no show que faria em Seara depois que a entrevistei na cama do único hotel da cidade. A bem de verdade, porém, é preciso dizer que ao lado dela, acompanhando a entrevista, se encontrava o seu mais recente esposo, um bem apessoado e robusto garotão 26 anos mais jovem do que ela. Aliás, ela estava sendo criticada por colegas de profissão e empresários artísticos por isso…

Diziam segundo Angela me contou, que era mais um que se aproveitaria dela, do dinheiro dela etc. Ela desabafou: “Deixem-me em paz, pois estou feliz e é o que interessa”.

Com muito orgulho e conhecedor de seus sucessos e de sua maravilhosa voz, apresentei o show fazendo um pequeno histórico da vida dela e questionando a mídia eletrônica dos grandes centros sobre a falta de respeito com o talento  e o sofrimento daquela que era na atualidade uma das melhores cantoras do mundo!

Comentei: “A mídia parece querer entregar ao esquecimento nacional a voz da Sapoti”.

Sapoti, lembrei, é o apelido carinhoso que ela ganhou na década de 1950 do então Presidente da República Getúlio Vargas.

Quando encerrei minha fala  e gritei seu nome e a platéia aplaudiu de pé, a surpresa: Angela Maria estava chorando. Respirou fundo algumas vezes e disse: “Meu Deus, há muito tempo que eu não sentia tamanha emoção. O carinho que estou recebendo de vocês aqui hoje vai me fazer viver cantando  ainda por muitos anos. Espero não decepcioná-los nesta noite. Muitíssimo obrigada!”

A emoção tomou conta de todos que continuavam, de pé, aplaudindo vibrantemente aquela Dama do Brasil, dona de uma das vozes mais lindas que meu coração já ouviu.

Foi uma honra ser convidado por ela para apresentá-la . Eu estava diante da Rainha do Rádio dos anos 1954/1955. Eu estava ao lado de Abelim Maria da Cunha, seu nome de batismo, nascida em 13 de maio de 1928. Lembrei que ela estava de aniversário naquele dia completando 53 anos naquela inesquecível noite na pequena e então modesta cidade Seara no Oeste de Santa Catarina. Após o tradicional Parabéns para Você, ela ganhou um buquê de rosas e deu início, finalmente, ao show.

Estava acompanhada por apenas três músicos: um baterista e dois guitarristas. Não precisava mais nada, afinal, suas cordas vocais eram uma verdadeira orquestra! E aí vieram Babalú, Gente Humilde, Índia, Ninguém é de Ninguém,  Cinderela, Arlequim de Toledo, Ronda, Bandeira Branca…

A foto que ilustra este texto é a única que tenho e fui resgatá-la  25 anos depois contando com a ajuda de um colega de profissão que mora em Seara e que a localizou na Prefeitura local.

Quanto a entrevista (feita com dois gravadores ao mesmo tempo pra garantir) no dia seguinte coloquei no ar na Rádio Rural de Concórdia onde trabalhei por três anos. Da fita cassete passei para fita de rolo e hoje não tenho mais como reproduzir.

Explico: no final dos anos 1980, quando já estava na Rádio Diário da Manhã de Florianópolis, o então coordenador Nabor Prazeres certo dia resolveu fazer uma pequena faxina e confundiu aquele material  como lixo. Resultado, jogou as fitas magnéticas de rolo na fogueira debaixo de uma árvore na frente da casa onde funcionou por um tempo a Diário da Manhã, na Rua Alan Kardec,  subida do Morro da Cruz.

Eu ainda presenciei as últimas imagens daquele duplo crime hediondo. Não só a entrevista da Angela Maria virou cinzas, mas a outra que fiz com o rei do baião, Luiz Gonzaga, também. O Nabor me pediu desculpas, claro. Ele não fez por querer e as fitas estavam numa velha caixa de sapatos – local onde costumamos guardar os retalhos de nossas vidas. Não só a fumaça ardia nos meus olhos, mas a perda daquele material pra sempre também me fazia chorar.

4 respostas
  1. Verônica says:

    Foi lamentável mesmo saber que as fitas foram queimadas, com certeza teríamos como reuperá-las!
    Lamento também não apenas pela perda documentária, mas também pelo triste fim do carbono que se queima e que se lança ao ar.
    Como se tudo que se queimasse, sumisse!
    Sorte a nossa que da tua memória não se apaga! Obrigada por compartilhar essas histórias!
    :)

  2. VERA says:

    Puxa vida! Que pena … essa tu nunca tinha me contado …É como nossa filha escreveu e ainda aproveitando o gancho…Na tua memória ninguém bota fogo hehehehe:)

  3. Vanessa says:

    Com certeza as memórias e saudades ficarão.Você registra e conta cada momento de sua trajetória de vida… E a propósito, a música (“Tango pra Tereza” 1975), eu, Júlio e mais um casal que seria o sonho deles apresentar uma coreografia, feita pela nossa amiga e professora de dança Josy Ramos,apresentamos em um restaurante na Beira Mar Norte.Foi emocionante. O tango é lindo.
    Compartilhe saudades sempre!

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