Doutor João Batista Rodrigues Jr, ou melhor: Zó, um autêntico manezinho

Ou melhor ainda: João Batista Rodrigues Júnior. Mas pode me chamar de Zó – Seu Criado Obrigado! Como dirigia César Ladeira ao microfone da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.

JBRJZoBrincalhão, por obra e graça de uma alma mais leve do que pluma; cavalheiro, gentil, ordeiro e bem comportado; profissional consagrado por uma clientela sem fim, Zó foi também produtor e apresentador de uma quadro sobre “Causos da Ilha” nos primórdios (ou seria nos exórdios?) do Jornal do Almoço pela RBS TVSC.

Um pouquinho mais adiante, enamorado incorrigível das belezas naturais e do jeito de viver do ilhéu, lavou a alma escrevendo Eu Benzo esta Ilha – Memórias, reflexões e conceitos de um manezinho.

O Zó gostava tanto da sua terra e de sua agente que ao ser cutucado por um dos filhos para que escreve-se um livro ele confessa: “Pulularam-se problemas, perguntas pelo pensamento outra vez e daí em diante não tive mais sossego. Eu passava os dias com isso na cabeça. Tive até um período de insônia, pois a idéia me ocupava a memória o tempo todo e eu ficava me perguntando o que fazer”.

“Um dia parei, pensei, pausada e pacientemente. Pronto. Heureca! Vou fazer uma viagem no tempo, desde o ano de 1932, quando nasci, até agora, contando e cantando minha querida Florianópolis, Ilha dos casos e ocasos raros, aproveitando a extraordinária memória que Deus me deu. Memória tão boa que – como costumo brincar – ainda me lembro de quando eu era espermatozoide e meu pai ia para a “zona”. Nessas ocasiões, eu pulava de um lado para outro, para não nascer f.d.p.”.

Mas, o Zó foi e continuará sendo, em nosso coração e nossa mente,  muito mais do que estas míseras palavras que aqui derramo, por ter tido a oportunidade de conhece-lo, ser seu cliente e um pouco de confessor nestes últimos tempos. Por isso, chamo para usar da palavra uma dupla que talvez você, leitor, não conheça, mas que ela – a dupla – conheceu bem a fera, participou da elaboração do livro e escreveu a Apresentação que se segue.

Sábado: dia de bater o ponto no centro da cidade, hábito de 28 anos de casados. Num desses sábados, fazendo a turnê de praxe lá apelas bandas do Mercado, encontramos o Zó. Diluído no meio do povo, perfeitamente metamorfoseado no seu habitat natural, lá estava ele,  brilhando, cabeça nevada, voz de trovão, eterno olhar de guri malino, faiscante, língua afiada, mente inquieta. Entre um causo e outro, ele nos contou que estava escrevendo um livro. Nos oferecemos para dar uma lida nos originais, antes da publicação final, “pramóde efertá” umas sugestões.

Depois de vários meses digitando, corrigindo, sugerindo, rindo, censurando, decifrando uma caligrafia criativa e cheia de ginga e malícia, parece que chegamos ao fim. Não foi de “fritar bolinhos”!  Não que sua caligrafia seja um hieróglifo e sua ordem de apresentar as coisas fosse algo parecido com um novelo de lã depois de uma tarde inteira de estripulias de uma  ninhada de gatos. Mas, é quase. Pior mesmo são as siglas e abreviações devidamente engendradas para consumo próprio, e que pobres decifradores tiveram que decodificar bravamente, fazendo-se de intrépidos quiromantes, perscrutando as linhas do destino – com lupa, paciência, franzir de testas r tudo o que tinham direito. Às vezes nos sentíamos verdadeiros Champollion analisando a Pedra de Roseta.

Para fazer frente a estes ímpetos tardios de escritor, tivemos de estabelecer algumas estratégias de ação. Regra número um: manter o mais fiel possível as intenções primeiras cravadas nos originais. Dois: os termos não dicionarizados, principalmente os usados como jargão na época, os apelidos, os regionalismos, ou aqueles que deviam ser de uso restrito nas turmas das quais Zó participou, seriam – e foram – grafados conforme a sonoridade. Três: substituir pela grafia correta, atualizada, dicionarizada apenas o que achássemos que não prejudicaria a essência da intenção original. Quatro: ir até o fim.

Enfim, quem conhece apenas o João Batista Rodrigues Júnior está perdendo o melhor da festa. Debaixo dessa carapaça formal borbulham vários personagens – o filho do tio Batista e da tia Leontina, o dentista, o amante do futebol, o contador do causos, o “apelidador” implacável, o memória ambulante, o criador de canários, o pai valoroso, o avô babão, o marido da Celina, o sonhador, o falador inquieto (não tem pra ninguém!) é um verdadeiro personagem folclórico.

Nessa terra de tantos tipos notáveis, temos o privilégio de apresentar um deles. Na verdade não apenas mais um. Apresentamos – como se isso fosse necessário – o Zó, lenda vida da história da cidade, guardião eloquente das reminiscências de uma Florianópolis que aos poucos se esvai diante das modernidades avassaladoras, das invasões culturais, do acuamento dos verdadeiros – e mesmo dos pós-modernos –manés de carteirinha, aquele povo tagarela, simples, cordato, autêntico, religioso, batalhador, honesto e criativo que fez das lides nesta terra profissão. Aquela gente que bate ponto na Figueira, no Mercado Público, no Senadinho, que deve até conhecer os paralelepípedos da Praça XV pelo nome, apelido e CPF, que cheira o ar e anuncia a chegada do vento sul.

Pois este Zó faz de conta que nos conta sua história, um pouco de sua vida. Bola fora! Lendo o livro, enxergamos muito mais que isso. O Cheiro de uma cidade que se esvai pelo ralo da história desentoca das entrelinhas, ganha vida, ganha luz. Bola na trave! O registro de uma cultura que perpassa o tempo, que marcou época, que define a história de um povo, sublima. Como não tem pátria quem não canta em sua língua, bola na rede!

Conta a lenda – afiançada pelo próprio protagonista – que um cartão postal despachado de Tokio e endereçado à “Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, Zó” chegou-lhe em mãos são e salvo. Entregue debaixo da Figueira, na Praça XV. Precisa dizer mais?!

Recorrendo ao bardo Fernando Pessoa, três coisas não nos saem da mente: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que precisamos continuar, a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar. Portanto, devemos fazer da interrupção um caminho novo, da queda, um passo de dança, do medo uma escada, do sonho, uma ponte, e da procura, um encontro.

Lendo este trabalho do Zó, lembramos que a cultura de um povo é biodegradável, evanescente, e que a nossa maior arte, a história d avida, passeia nas praias, planícies e montes que a cada amanhecer e a cada crepúsculo renasce, como nos ensina a persistente natureza. Mesmo assim, a trajetória de nossas vidas vai aos poucos se apagando, como pegadas na área da praia, como um estupendo desenho nas nuvens – que nos diz muito mais que o tempo – ou como um arco-íris fugaz ou céu rosado que emoldura o Cambirela, num deslumbrante final de tarde, cujos volumes estão recheados de segredos inextricáveis que os de fora se quer são capazes de sonhar. Registrar um pouco disso é preciso.

Quem conhece (e que não conhece?!) o Zó, sabe. [ Escova-de-dentes e Berena | Florianópolis, julho de 2005 ]

Ontem, 17/09/2014, Zó voltou ao seu lugar de origem com a alegria de quem vê seu time do coração honrar as cores que sustenta empatando um jogo que parecia perdido.

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