Duas historinhas em meio ao motim no Presídio Central de Porto Alegre

Em julho de 1987, portanto há pouco mais de 20 anos, a capital gaúcha se deu conta, pela primeira vez, do agravamento das condições gerais de segurança, que iriam, aos poucos, mergulhar a sociedade brasileira no caos dos dias de hoje, com os traficantes representando uma espécie de poder paralelo, em especial nas comunidades marginalizadas das favelas. Por Luiz Artur Ferraretto

Com o sistema penitenciário do Rio Grande do Sul vivendo “o dia mais agitado de sua história”, na definição do jornal Zero Hora, as rádios vão narrar minuto a minuto o primeiro grande motim do Presídio Central de Porto Alegre.
A cobertura atesta, no entanto, o poder de mobilização da Rádio Gaúcha. A emissora, na realidade, noticia a rebelião iniciada às 10h20 com cerca de uma hora de atraso em relação à sua principal concorrente – a Guaíba –, deslocando um repórter – o jornalista Vitor Bley de Moraes – apenas no final da manhã. No entanto, a partir daí, rapidamente, outros profissionais dirigem-se para pontos-chave como o Hospital de Pronto Socorro e a Secretaria Estadual da Segurança Pública. Juntam-se à equipe, nas proximidades do presídio e em outros locais importantes, os apresentadores José Antônio Daudt e Rogério Mendelski, além de integrantes do Departamento de Esportes como Pedro Ernesto Denardin. Durante as oito horas e meia de motim e, após, acompanhando a perseguição e captura dos foragidos, vai se destacar, ainda, a repórter Tânia Regina da Silva.

 
José Antônio Daudt

O trabalho realizado pela Gaúcha, sempre sob a supervisão de Marco Antônio Baggio e a coordenação de Cláudio Moretto do Nascimento, vai ser reconhecido pela Associação Rio-grandense de Imprensa em sua premiação anual. Na edição de 1987, Tânia Regina da Silva e equipe conquistam o prêmio de radiojornalismo com a cobertura do motim no Presídio Central, cobertura de uma das tragédias sociais do cotidiano que encobriria pelo menos dois fatos curiosos. Ambos só ocorridos devido a uma eventualidade: os amotinados concentram-se ao lado de uma janela muito próxima da cerca que dá para a rua, onde estão os repórteres de vários veículos de comunicação.
Logo no início da confusão, o jornalista Vitor Bley de Moraes estende o braço direito e, com o gravador em punho na direção da tal janela, onde está um dos líderes do motim, o então líder no tráfico no Morro da Cruz, pede:
– Carioca, dá um relato para os ouvintes da Gaúcha sobre como está a situação aí dentro…
– Tu queres saber como está aqui… – diz Carioca, voltando-se para um dos outros amotinados, por coincidência um dos mais perigosos do estado – Mostra pra ele como tá aqui, Vico…
O preso aproxima-se da janela e grita:
– Aqui, tá assim… – e vai apontando uma cano cerrado para os jornalistas, que, amedrontados, jogam-se no chão, em meio a um barral sem tamanho, tentando fugir de balas que não chegam, por sorte, a serem disparadas.
Horas depois, com a Gaúcha já com toda a sua equipe mobilizada, o jornalista José Antônio Daudt passa a comandar a cobertura no mesmo local. Em uma época sem as facilidades do celular, longos cabos são estendidos das unidades móveis, permitindo a transmissão ao vivo. Com 31 funcionários do Instituto de Biotipologia Criminal em poder dos presos, Daudt, usando o fato de ser deputado estadual pelo PMDB, chega a se oferecer em uma troca para garantir a segurança dos reféns. A resposta, algo depreciativa, algo agressiva, dos amotinados é captada pelo microfone da Gaúcha:
– Tu não tá com essa bola toda!
No final, morrem duas pessoas e os oito presos conseguem fugir do Presídio Central em dois automóveis cedidos pelas autoridades.
 


{moscomment}

Categorias: Tags: , ,

Por Luiz Artur Ferraretto

Nasceu e cresceu ouvindo rádio e as histórias do rádio. Aos poucos foi descobrindo que não queria ser só ouvinte. Formou-se em jornalismo pela UFRGS e começou a trabalhar no rádio. Doutor em Comunicação e Informação é professor do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul/RS. É autor de vários livros.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *