Duplo acidente aéreo, incrível, mas verdadeiro

Trágica coincidência. Duplo acidente aéreo no mesmo dia, na mesma região e quase na mesma hora. Seus ocupantes iriam para a mesma cerimônia festiva. Na ocasião, a Rádio Rural de Concórdia, então pertencente ao grupo de empresas da Sadia, foi a fonte da informação dos sinistros acontecimentos para familiares, amigos, colegas das vítimas e dezenas de emissoras de rádio de todo o país. Lembro como se fosse hoje. Concórdia, 23 de setembro de 1981, quarta-feira. Eu trabalhava na Rádio Rural, única emissora da cidade, exercendo as funções de comunicador e diretor artístico.

Lá estavam também o xará Walter Mick, responsável pelo jornalismo, os locutores Valentim Savian, Olides Rotini, Gildo Vezaro, Nilson Laabs, Milton Hash, Zeno Gaúcho. Julio Cesar Mocelin, José Carlos Bortolotti além de José Roberto Rodrigues e Pimentel, estes na parte técnica.

Pois bem, aquela quarta-feira que se transformaria num fatídico dia, era para ser de festa, alegria, banda de música pelas ruas da cidade, foguetório e presença de autoridades de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Seria inaugurada a primeira loja de  eletrodomésticos e eletroeletrônicos do grupo gaúcho JH Santos em território catarinense com ingredientes de um grande acontecimento. Seria. Nós da Rádio Rural transmitiríamos ao vivo o ato inaugural.

O dia transcorria com o céu cor de chumbo e parte da população já vibrava com o voo baixo do primeiro táxi aéreo que chegava de Porto Alegre. Estavam nele, além do experiente piloto e proprietário do avião, Ercílio Caleffi, e da copiloto Marilda Zaiden de Mesquita (primeira mulher brasileira aviadora comercial); os passageiros  Antonio Carlos Berta, então Secretário da Indústria e do Comércio do Rio Grande do Sul, Fábio Araújo Santos presidente da Federação das Associações Comerciais do seu estado e do Grupo JH Santos, o superintendente da MPM Propaganda, Adão Juvenal de Souza e José Carlos da Silva Reis, chefe do departamento de recursos humanos da JH Santos.

Estava eu na rua do Comércio, centro de Concórdia, com alguns amigos, já meio angustiado com o cenário de neblina e o voo rasante do pequeno avião vindo do aeroporto Salgado Filho da capital riograndense.

Aquela quarta-feira caminhava para o entardecer quando o pior aconteceu. O táxi aéreo chocou-se com um morro e explodiu em seguida diante de nossos olhos.

Corremos para o local do acidente, sem saber direito como proceder numa situação daquelas. Não havia corpo de bombeiros na cidade. No topo do morro, pedaços do avião em chamas e corpos irreconhecíveis queimados formavam o tétrico cenário. De repente alguém gritava destemperadamente por socorro. Era José Carlos da Silva Reis, o único sobrevivente dos seis tripulantes. Nos disse que estava na última poltrona da nave, sem o cinto, e que com o impacto seu corpo foi projetado para fora antes da explosão. Milagre, para ele. Ainda nos disse que as tripulações dos dois aviões mantiveram contatos através do rádio pelo menos uma vez.

Internado no Hospital São Francisco, de Concórdia, José Carlos no dia seguinte foi para o Hospital de Reumatologia de Porto Alegre. Nunca mais soube nada a seu respeito. Um outro passageiro teria sobrevivido mas não tenho dados. Enquanto estávamos aguardando ajuda para retirá-lo do local, o outro avião que partira de Florianópolis passava sobre nós. É claro que viram os destroços do outro. Ninguém duvidou disso.

Poucos minutos depois, meu Deus, chegava a notícia da queda do táxi-aéreo Camboriú provocando a morte de seus passageiros e tripulantes próximo ao município de Seara. Era muita coisa para um dia só!

No segundo acidente morreram o Secretário da Indústria e Comércio de Santa Catarina, Hans Dieter Schmidt, o Presidente da Associação de Comércio e Indústria de Santa Catarina, Lédio Martins, o empresário gaúcho Félix Araújo (irmão de Fábio que também morrera no outro acidente pouco antes), o comandante Keller, e o copiloto Rubens. Que pesadelo!

A equipe da Rádio Rural de Concórdia, que estava preparada para transmitir a festa de inauguração da primeira filial das lojas JH Santos em solo catarinense, acabou sendo porta-voz para todo o país, da inacreditável coincidência trágica. Do duplo acidente aéreo no mesmo dia, na mesma região, quase no mesmo horário. Foram dez mortos. Não tem como esquecer. O 23/9/1981 de Concórdia, resguardadas as proporções, motivos e intenções, foi o 11/9/2001 de Nova York. Sem torres, com morros.

Em tempo. Na edição de 25 de setembro de 1981 o jornal Zero Hora de Porto Alegre ao publicar matéria sobre o velório  ocorrido no dia anterior no Palácio Piratini que José Berta, pai de Antonio Carlos Berta, e sua esposa, morreram com o filho em acidente aéreo e também aos 38 anos de idade. O pai de Antonio Berta era um dos passageiros do Super G Constelation que se chocou contra o Morro do Chapéu, em São Leopoldo, RS, em 1950. Outra coincidência: pai e filho morreram tragicamente no mesmo mês: setembro.

11 respostas
  1. Werner spieweck says:

    O constellation bateu no morro das cabras e não no morro do chapéu… E o morro do chapéu fica em sapucaia e não são Leopoldo…

  2. elcio pereira de jesus says:

    caro amigo,ao ler e ver algumas fotos de acidentes ,encontrei esse triste episodio que relats.Eu trabalhei no aeroporto de lages,Shell abatecimento de aeronaves,conheci pessoalmente esses pilotos.Foi realmente muito triste para todos la no aeroporto de lages,pois o aviao do nosso estado tinha se comunicado com torre em lages que na epoca era comandada pelo sernhor Jurandir martins.Lendo tudo isso lembro como se fosse agora que estivesse acontecendo.Nos choramos no momento que as noticias vinham chegando.Lembro que ligaram para o eroporto perguntando se algum aviao tinha pousado nesse aeroporto.Realmente o tempo estava muito feio.Na epoca a rio sul fazia a linha lages-florianopolis, pos nesse dia ela cancelou os dois voos que tinha em lages por motivo do mal tempo.O kallef e a marilda eram realmente maravilhosos e os outros pilotos tambem.Realmente a gente perde pessoas que amamos como se fosse da familia.Pois esse pilotos estavam em lages sempre abastecendo suas aeronaves coigo.DA SAUDADE DEMIS.ABRAÇO. ELCIO PEREIRA DE JESUS.LAGES .SC

  3. Ivonei Fazzioni says:

    Nessa época eu era estudante do segundo grau em Concórdia. Estava saindo de casa para ir à aula à noite quando ouvi a notícia pela Rádio Rural. O Clélio Dal Piaz foi quem entrou no ar com a notícia.

    Anos mais tarde (por volta de 1996, 1997), já formado em jornalismo, fui realizar um trabalho de mestre de cerimônias em Porto Alegre, no então novo centro de convenções da PUC. Foi, na verdade, o primeiro evento naquele centro de convenções, ainda antes da inaugiração oficial. Nesse evento, conheci José Carlos da Silva Reis. Ele era um dos palestrantes ou painelistas do evento. Continuava na área de RH. Naquelas comversas a respeito de onde as pessoas nasceram, de onde são, disse ser natural de Concórdia e ele me relatou ser o único sobrevivente do acidente que ocorreu na cidade.

  4. Ronilda freitas says:

    Eu me lembro da tristeza deste dia…nossa família queria muito apoiar nossa prima esposa do Fabio…Wilma querida, gostaríamos muito de estar contigo neste momento. Te amamos… Ronilda

  5. ALDO MIKAELLI says:

    FALA-SE EM JULIO CESAR MOCELIN, SERÁ QUE É O MOCELIN QUE TRABALHOU NA RADIO DIFUSORA DE PONTA GROSSA ? FAZENDO REPORTAGENS COM O AMARELINHO? SUMIU ? SE FOR O MESMO, FAVOR DAR UM ALÔ.

  6. Ricardo Padão says:

    Houve outro sobrevivente, o Sr. Antonio Almeida, pai de meu melhor amigo. Na época fomos até Concórdia e um táxi-aéreo hospitalar cedido pela JH Santos o trouxe para Porto Alegre. Tínhamos 18 anos na ocasião e alugamos um carro dirigindo sobre forte neblina por mais de 10 horas. O Sr Almeida ficou muitos anos se recuperando das queimaduras que teve no acidente. Ele faleceu há poucos anos.

  7. junior marchioro says:

    meu pai conta que passava de carro no momento e e levou uma vitima até o hospital mas nunca mais conversamos sobre isso mas ele deve ter muito pra contar sobre essa tragedia

  8. Paulo Ceser Scapini says:

    ótima matéria.
    Na época eu tinha 7 anos e me lembro como se fosse hoje,residia em linha chapada (Seara) e fica relativamente perto da queda da segunda aeronave em linha gramado, nesse dia chovia e havia um forte nevoeiro, ao ficarmos sabendo da queda fomos ao local, o cenário desolador, havia destroços ao longo de 1 km, o avião bateu em uma árvore e posteriormente caiu no meio de uma mata onde pegou fogo.
    Esse fato traumático ficou gravado para sempre em minha vida, fiquei surpreso em ficar sabendo só hoje que havia caído outro avião em concórdia.
    Parabéns pela matéria.

  9. Luiz Carlos da Silva says:

    Luiz Carlos da Silva
    Também trabalhava no departamento de promoções e propaganda
    do JH Santos
    Muita tristeza naquele dia.

  10. Luiz Carlos da Silva says:

    Ao ler esta reportagem, lembrei-me dos tempos que trabalhamos na empresa

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *